quarta-feira, 2 de abril de 2008

Beleza Negra

01/06/2006

(dos Contos Secretos, de Alma Welt)

Hoje tive a grata surpresa de uma companhia feminina para as férias aqui na nossa estância, que não seja a de qualquer de minhas irmãs, a que estou demasiado acostumada, e simplesmente não me refrescam. Rôdo, meu querido irmão só poderá ficar meia temporada, pois deve partir para a Europa com Laís sua namorada, deixando aqui esta beleza negra a que vou me referir. Trata-se de uma beldade, uma modelo da raça negra, que se tornou amiga de Rôdo, depois de já ter provavelmente passado por seu leito. Júlia, a modelo, ostenta uma beleza perfeita, e um penteado afro, elaborado, que lhe fica estupendo. Além disso, encantou-me sua doçura, temperada por um mistério longínquo, que ecoa as savanas da África, embora ela seja gaúcha como nós, mas de Passo Fundo. Modelo de passarela, ela começa fazer sucesso, e tem tudo para uma bela carreira.

Espanta-me que ela tenha tempo para estas férias de quinze dias, em que aceitou o convite de meu irmão que a carregou para cá, este ambiente tão diferente do seu mundo “fashion”, das passarelas. Ela não estará perdendo um tempo precioso?

Júlia, no entanto, está encantada com a estância, e todo o nosso universo rural, com nosso vinhedo, o pomar, o maravilhoso jardim florido, em frente ao casarão, e os cavalos, nossos belos cavalos selados por Galdério, para cavalgarmos pelas pradarias onduladas pelas coxilhas do nosso pampa infinito em torno, e muito além do parreiral que nos coube plantar. A beleza negra de Júlia parece contrastar de maneira interessante com as nossas cores, a começar pela vinha e depois com a alvura da minha pele logo atraída pela dela. Devo confessar que sendo exótica para mim, para o meu universo, eu temia, a princípio, o contato da pele negra de Júlia, que eu, como que pensava... fria, como a das estátuas de bronze, enquanto ela devia sentir a mesma coisa a respeito da alvura de alabastro da minha, que ela também temia. Tal atração temerosa teria que ser enfrentada, testada, por assim dizer, assumida. À primeira oportunidade, começamos a nos tocar, e a tepidez surpreendente de nossas peles, ao contato, acabou de no seduzir. Logo estávamos a nos abraçar e tocar a qualquer pretexto, num agarramento que não passou despercebido aos outros, meu irmão e irmãs. Ouvi Solange, a maldosa, comentar com Lúcia, a neutra, de passagem: “Olha lá! Lá está ela esfregando-se na nossa hóspede, só para impingir-nos seu contraste. Ou por pura luxúria, mais provavelmente, como é do seu feitio. É insuportável. Se mamãe estivesse viva...”

Não importa, sinto-me cada vez mais atraída por Júlia, e andamos de mãos dadas, como namoradas entorno da casa, passeando no jardim de nossa mãe lindamente florido, e que produziria o mais belo quadro impressionista que não foi pintado, com o nosso branco e preto, claro e escuro em pleno sol dessa manhã primaveril do Pampa. Consciente de nossa beleza, transformamos a estância em nossa passarela, até para deixar minha hóspede mais à vontade, participando do seu universo, em intermináveis conversas sobre moda e beleza fútil, que não costumava ser meu território.

Mas, ah! o toque viciante de sua pele, morna, sedutora ! Eu tinha que prová-la em plenitude, em toda sua extensão, essa é que é a verdade, vocês já me conhecem! Eu só não tivera essa experiência em minha vida, de amorosa deliberada, de “Casanova de saias” como me chamaram uma vez, e que eu, achando interessante, assumi. Sim, como o italiano setecentista, eu, quero completar a marca de mil amores ao longo da minha vida. Mas amores mesmo, pois me sinto apaixonada por cada um deles, para sempre, para levá-los todos comigo, essa multidão, no meu coração e nos meus versos.

Tendo passado a dormir no meu quarto, transferida do de hóspedes, para podermos palrar à noite, antes de dormirmos, como se fôssemos ainda duas gurias adolescentes, em férias, Júlia está mais ao meu alcance do que nunca. Esta noite tomarei coragem de passar ao seu leito, sob qualquer pretexto como uma menina travessa.

Chegado o momento de nos recolhermos aos nossos leitos, após o serão, em que Solange insistiu muito para que Júlia permanecesse no seu quarto de hóspede, alertando-a de que eu era muito “invasiva”, com meu “universo poético literário que não interessava a ninguém”, segundo ela, fez todo o possível para apartar-nos, temendo o que ela pressentia em mim, como “perigoso”, no seu moralismo estéril e burguês. Mas não fizemos caso, Júlia se disse acostumada a dividir o quarto com colegas de passarela, e que estava adorando os nossos papos embora eu fosse uma “intelectual”, segundo ela...

Eu estava excitada e mal me continha, esperando a nossa noite, que eu antevia, antecipando em minha imaginação, embora vagamente receosa de uma possível rejeição. Então, chegou a hora e de irmos para o quarto, de mãos dadas, para ódio impotente de Solange, que não tinha mais argumentos socialmente aproveitáveis, para impedir o que ela pressentia no fundo do seu coração fechado, preconceituoso.

Deitadas nas nossas camas, conversávamos mais um pouco, mas falsamente, eu percebi, pois nossas cabeças e corações não queriam o sono solitário, muito menos nossos corpos assim apartados nos leitos de solteiras, de minha infância solitária em meio as minhas irmãs de sangue. Mas ah! Rôdo meu irmãozinho, que preencheste a lacuna do meu coração, em minha infância e adolescência, quase como um pequeno amante, sim como um amor de minha vida, que carrego ainda na minha pele, que afinal inauguraste, para sempre! Como eu queria que estivesses aqui, nos visses, e até mesmo deitasses entre nós! Seria o paraíso, quase inconcebível em sua plenitude!

Pedi, pois, licença para passar para o leito de Júlia, e sob o mesmo lençol nos aconchegarmos para nossas últimas confidências e mesmo pequenas fofocas do dia, como duas adolescentes, que nos sentíamos.

De mãos dadas, os rostos muito juntos, nossos corações batiam muito forte e aceleraram-se de uma maneira incontrolável. Ofegávamos tentando ainda disfarçar até que começaram os beijos. Sim ela me beijou primeiro, numa iniciativa que me deslumbrou, fazendo-me soltar um gritinho de alegria, que a surpreendeu, fê-la sorrir também, enquanto eu me atirava aos seus lábios e aos seus maravilhosos e tépidos seios de bronze. Arrancamos nossas camisolas e grudamos nossos corpos simultaneamente em todas a sua superfície, enrolando-nos uma na outra, na fome e na sofreguidão ancestral de nossas raças, ultrapassadas as barreiras erguidas pelo medo. Sim, pelo medo do desconhecido, que agora vencido, nos abria as portas de um pampa infinito de prazeres e de amor, que duraria até o fim daquelas férias, estarrecedoras para minhas irmãs, mas inesquecíveis, como um capítulo especial , destacado de meu diário de amorosa impenitente e incorrigível, para maior glória de minha vida de poeta.


01/06/2006

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