(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Não há nada mais misterioso, nas relações humanas, do que o processo de sedução. A pura atração exercida por alguém, homem ou mulher, nem sempre de maneira imediata, mas gradativa, insinuante, insidiosa. O que faz com que alguém fique, assim, fascinado, envolvido, hipnotizado? Trata-se da beleza, esse misterioso atributo, indefinível? Nem sempre. Não há maior mistério para o ser humano, que o próprio ser humano.
Não. Trata-se, talvez da inteligência. Sim, porque a própria beleza já foi uma vez definida por um arguto jornalista, como “um pacote de inteligência física”. A beleza seria então, a inteligência suprema dos seres e... das coisas.
Ana Júlia entrou em minha casa com ótimas recomendações e uma advertência a mim, por parte de uma amiga do sul. Uma mulata clara, graciosa, mignon, de pele brilhante e cabelo de ondas miúdas. E seus lábios? Cheios, perfeitos, feitos para o beijo. Olhos amendoados, típicos de sua mestiçagem. Quanto à advertência de minha amiga? Que eu tomasse cuidado, pois a mulatinha era sedutora.
Não tenho marido e nem sequer namorado ou namorada, no momento, eu argumentei, fingindo-me de desentendida. Não, não, disse minha amiga, cuide-se. Ela seduz, quem estiver por perto, convivendo com ela, no cotidiano.
Eu queria pagar para ver. Se essa moça tinha esse dom, então era mais preciosa ainda, já que as referências quanto às suas outras competências eram satisfatórias, elogiosas mesmo.
Ana Júlia instalou-se no quartinho de empregada, do meu atelìê- apartamento, e estava encarregada da cozinha e da faxina. Eu cansara de cozinhar para mim mesma, e de comer em restaurante, que interrompia o meu trabalho, cortava o meu dia. Seu tempero era ótimo, dizia a minha amiga, pois era mineira, a mulatinha.
Começamos a conviver no espaço exíguo, limitado, do apartamento. Duas mulheres bonitas, vindas de origens muito diversas, de culturas muito diferentes. Mas a verdade é que, logo de saída, Ana Júlia é que parecia fascinada pela excessiva brancura da minha pele e pelo dourado do meu cabelo. Um dia, dando um suspiro, enquanto eu pintava, passou a mão, por trás, no meu cabelo, dizendo:
—Dona Alma, que bonito é o seu cabelo, desculpe-me “tocar ele”. Não resisti. É de ouro?
Virei-me para ela, e encontrei a absoluta ingenuidade e honestidade daquela pergunta, em seus olhos. Quero dizer: fiquei encantada. Essa moça se expressara, mais ou menos, assim... como diria? Como uma índia, talvez. Ao reparar nos seus olhos, percebi a absoluta beleza daquela alma. Clara, límpida, infantil. Por quê então minha amiga tinha me alertado sobre o seu poder... de sedução? Não é a sedução algo associado ao caviloso, subterrâneo, perigoso?
—Ana Júlia—eu disse—fala-me um pouco de ti. De onde vieste, quem são os teus pais. Onde nasceste?
—Ah! Dona Alma, vim de uma cidadezinha à toa. Quem sou eu? Não perca tempo, não, com a minha vidinha. Eu não sei nada, dona Alma, a senhora sim, é uma princesa, deve ter vindo de um alto reino. E o jeito que a senhora fala, dona Alma, nunca vi igual!
Olhei-a novamente, com atenção, e ela me pareceu mais bela ainda, enxugando as mãos no seu avental, enquanto falava, parada em minha frente no meio do ateliê. Passei a mão no seu rosto, num gesto de carinho que me surgiu naturalmente.
Ela então, segurou a minha mão, ou melhor, capturou-a com a sua, enquanto ainda tocava a sua face e, virando-a, beijou-me a palma. E saiu correndo para a cozinha.
Eu começava a entender o que a minha amiga queria dizer, com aquilo...
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A convivência com a minha empregada, era a cada dia mais prazerosa e encantadora. Ela era uma excelente cozinheira e seu tempero era mesmo soberbo. Assim, o seu comportamento inusitado, para uma empregada, não chegava a comprometer a parte estritamente profissional. Eu é que às vezes interrompia o seu trabalho, para conversar com ela, e fruir os encantos de sua personalidade cândida, inocente, e de tão sedutora reverência à minha pessoa. Sim, comecei a perceber, que nisto estava a chave da sedução que minha amiga lhe atribuía. Ser cortejada por um ser tão honesto assim, constituía algo, no mínimo, lisonjeiro. Ela me olhava com um encantamento que parecia superar o meu. Poderia isto transformar-se numa mútua paixão, apesar do abismo cultural e social entre nós? Ela dizia:
—Dona Alma, eu ficaria horas só vendo a senhora pintar. E adoraria saber o que é que a senhora tanto escreve. Ouvi dizer que a senhora é poeta. Eu nunca vi uma mulher poeta antes, e queria saber como são os seus versos, o que é que a senhora fala neles. É de amor que a senhora fala? Ah! A senhora deve amar muito, mas deve ser mais amada ainda, embora eu nunca tenha visto um namorado seu, por aqui. Mas eu vejo o jeito que as pessoas que vêm aqui comprar seus quadros, olham para a senhora. A senhora não tem um namorado? Desculpe eu perguntar.
Eu olhava bem nos seus olhos límpidos, e afagava-lhe o rosto. Começava a ter vontade de beijá-la.
Comecei a ter sonhos com ela, não propriamente eróticos, mas enigmáticos, que evocavam alguma coisa referente às nossas conversas. As imagens começaram a se intensificar à noite, nos meus sonhos, e invadiam meus devaneios, de dia. Sim, eu fora seduzida.
Mas, então a sedução é isso? Nosso reflexo no olhar cristalino de outro ser, espelho narcísico, ideal? Apaixonamo-nos pela nossa própria imagem cristalizada, purificada na retina reverente da paixão alheia? Eu estava apaixonada por Ana Júlia, ou por sua adoração por mim? É difícil para mim saber, até hoje.
Então num fim de tarde, no fim do seu expediente de trabalho, depois de uma pausa encantadora que tivéramos, tomando um café juntas, Ana Júlia comunicou-me que seu chuveiro estava com problemas, no seu banheirinho, e ela teria que ir para cama sem se banhar. Eu protestei imediatamente e ofereci-lhe meu banheiro. Fiz mais, disse que ia premiá-la pelos seu dedicado e eficiente trabalho, e que iria preparar-lhe um banho na minha banheira. Por sua vez, ela, deslumbrada, quis declinar da minha oferenda. Mas eu insisti, e fui conduzindo-a para o meu banheiro, jocosamente despindo-a aos poucos no caminho. Ela ria, pondo a mão na boca, envergonhada e feliz. Ali naquele belo e amplo recinto, mantido sempre limpíssimo e brilhante por ela mesma, eu acabei de despi-la. Ela, emocionada, tremia ao ver-se desnudada por sua patroa. Quis ainda uma vez protestar, mas calou-se e entregou-se diante do meu simples gesto de tocar os seus lábios levemente com meus dedos e um leve schhhhhhh, dos meus lábios. Trêmula, ela deixou-se tocar por minhas mãos que a conduziram, e instaram a entrar na banheira que eu já deixara previamente enchendo de água quente. Seu lindo corpo moreno, um pouco judiado, contrastava com aquela banheira alvíssima, e ela sentou-se lentamente, talvez estranhando um pouco a temperatura da água, com um gritinho de medo. Ela nunca entrara numa banheira em sua vida, ela me confessou.
E eu comecei a banhá-la, lentamente, acariciando sua pele com minhas mãos finas, que as tintas e os solventes não logravam tornar ásperas. Com a ajuda de uma esponja, eu a banhava de verdade, com o meu mais perfumado sabonete, e... a acariciava,longamente... amorosamente.
Ela se entregava em minhas mãos, nas mãos de sua patroa seduzida, enquanto suas lágrimas corriam, desciam e juntavam-se às minhas, enternecidas, naquela água espumosa e perfumada, onde eu, igualmente nua, iria em breve me juntar a ela.
18/05/2006
terça-feira, 25 de março de 2008
Manchas no leito
(dos Contos Secretos de Alma Welt)
Luíza, minha “mãe-preta” mineira que se tornou das mais gratas aquisições de minha experiência paulistana, minha diarista, idosa, querida, toma ares vigilantes sobre mim de uma maneira enternecedora pois atesta a sua afeição, o seu carinho. Ela examina com a atenção as manchas no meu lençol e parece saber distinguir a passagem de homens ou mulheres por ali. Sim, pois minha vida amorosa, sexual mesmo (vamos usar as palavras sem falsos pudores), lhe parece promíscua apesar dela não conhecer propriamente esta palavra. Luiza se escandaliza em silêncio.
Ontem à noite, estando menstruada mantive relações com meu namorado, o que fez uma tremenda sujeira em meus lençóis que não tive tempo de jogar na máquina de lavar antes dela chegar. Um verdadeiro mapa sanguinolento que plasmou todos os nossos movimentos e fantasias de uma maneira escabrosa para o olhar da minha faxineira e... camareira. Ao lembrar da minha magnífica noite, por uma associação de pensamentos, de ordem literária recordei o fato de que entre os judeus, por exemplo, a mulher menstruada é considerada “impura” e rejeitada durante esse período por seu marido ou amante. Por quê, diabos, o sangue da mulher deveria ser impuro? Há homens que se atraem especialmente por esse sangue ou esse período, tanto mais que ele significa segurança contra uma fecundação indesejada, embora nas últimas décadas, dado histórico novo, devemos nos preocupar com a AIDS, é claro. Mas vocês, meus leitores, sabem como é difícil precaver-se quando se está apaixonada. Queremos nos confundir, fundir mesmo, com o nosso amante, e nisso consiste o perigo. A troca de fluidos, volúpia suprema dos amantes, passou a ser quase proibitiva, o que torna nossa época no mínimo trágica, ao meu ver. Não podemos nos esquecer, por outro lado, de que essa tragédia da nossa época já assentava num dado mais escabroso ainda: a existência da bomba atômica, espada de Damocles sobre a cabeça da humanidade inteira.
Mas não era minha intenção filosofar, ao iniciar esta narrativa. Tenho o mau costume de divagar. Retomo pois o fio da meada: as manchas no leito.
Durante uma semana sujei os meus lençóis de maneira renitente, viciosa. Eu não podia deter o processo mesmo sabendo o quanto isso escandalizava minha boa faxineira que me olhava com um olhar severo. Um dia, ela, não agüentando mais, disse:
—Alma, minha filha, você suja muito os lençóis! Compre um absorvente, minha filha, e evite namorar por enquanto, me desculpe dizer isso, mas você não acha que é muita sujeira e que seu namorado vai acabar se enojando e desrespeitando você?
Por um momento tive vergonha e empalideci. A ponderação de Luiza tinha sua base racional e talvez mesmo cultural. Não sei como os negros se comportam nesse período mas me pareceu que a restrição de Luiza tinha uma razão higiênica e prática. Eu “sujava” muito os lençóis. Mas porque razão eu nunca senti o sangue humano como sujeira? O meu próprio sangue me enternecia, narcisista que sou, consciente demais de minha própria beleza que me faz, por isso mesmo, cultuar a matéria que para mim é um reflexo maravilhoso do espírito. A carne, o corpo humano, já foi comparado metaforicamente a um templo da alma. Essa metáfora me parece boa e procedente. Quem vê corpo vê espírito. Quem vê cara, então... Nosso coração transparece nos olhos e os meus me comovem.
Assim, pedi desculpas a Luiza mas disse-lhe que eu mesma lavaria meus lençóis na máquina e que preferia não tocar mais naquele assunto para faze-lo retornar à minha intimidade. Parece que a boa mulher não entendeu muito a minha resposta. Mas eu a abracei e dei-lhe um beijo no rosto por puro carinho ao mesmo tempo que para mostrar-lhe que eu não me magoara com suas bem intencionadas palavras.
Então, as manchas nos lençóis começaram a se diversificar em suas cores apresentando algumas amarronzadas. Luiza não se agüentou, novamente, e uma manhã confrontou-me:
—Alma, o que é isso agora? (ela me mostrava um traço marrom no lençol, que ela esticava em sua mão)—Você, minha filha , não toma jeito, não é? (ela deu uma risadinha que abrandou a censura). — Eu sei o que é isso. Meu marido tinha essa mania, por isso dei graças a Deus quando ele foi embora com outra. Eu já não podia nem sentar –(demos uma grande gargalhada, juntas).
—Luiza, querida (eu dizia, abraçando-a em meio às gargalhadas), você também? Não podia nem sentar!
Abraçada à minha querida mãe-preta eu tinha lágrimas nos olhos de tanto rir e... também de enternecimento por essa pobre mulher cujo abismo cultural e social fora transposto numa fração de segundo entre nós com o desvelar de um pequeno segredo picaresco, comum, revelado afinal pelas manchas denunciadoras nos meus indiscretos lençóis.
12/05/2006
Luíza, minha “mãe-preta” mineira que se tornou das mais gratas aquisições de minha experiência paulistana, minha diarista, idosa, querida, toma ares vigilantes sobre mim de uma maneira enternecedora pois atesta a sua afeição, o seu carinho. Ela examina com a atenção as manchas no meu lençol e parece saber distinguir a passagem de homens ou mulheres por ali. Sim, pois minha vida amorosa, sexual mesmo (vamos usar as palavras sem falsos pudores), lhe parece promíscua apesar dela não conhecer propriamente esta palavra. Luiza se escandaliza em silêncio.
Ontem à noite, estando menstruada mantive relações com meu namorado, o que fez uma tremenda sujeira em meus lençóis que não tive tempo de jogar na máquina de lavar antes dela chegar. Um verdadeiro mapa sanguinolento que plasmou todos os nossos movimentos e fantasias de uma maneira escabrosa para o olhar da minha faxineira e... camareira. Ao lembrar da minha magnífica noite, por uma associação de pensamentos, de ordem literária recordei o fato de que entre os judeus, por exemplo, a mulher menstruada é considerada “impura” e rejeitada durante esse período por seu marido ou amante. Por quê, diabos, o sangue da mulher deveria ser impuro? Há homens que se atraem especialmente por esse sangue ou esse período, tanto mais que ele significa segurança contra uma fecundação indesejada, embora nas últimas décadas, dado histórico novo, devemos nos preocupar com a AIDS, é claro. Mas vocês, meus leitores, sabem como é difícil precaver-se quando se está apaixonada. Queremos nos confundir, fundir mesmo, com o nosso amante, e nisso consiste o perigo. A troca de fluidos, volúpia suprema dos amantes, passou a ser quase proibitiva, o que torna nossa época no mínimo trágica, ao meu ver. Não podemos nos esquecer, por outro lado, de que essa tragédia da nossa época já assentava num dado mais escabroso ainda: a existência da bomba atômica, espada de Damocles sobre a cabeça da humanidade inteira.
Mas não era minha intenção filosofar, ao iniciar esta narrativa. Tenho o mau costume de divagar. Retomo pois o fio da meada: as manchas no leito.
Durante uma semana sujei os meus lençóis de maneira renitente, viciosa. Eu não podia deter o processo mesmo sabendo o quanto isso escandalizava minha boa faxineira que me olhava com um olhar severo. Um dia, ela, não agüentando mais, disse:
—Alma, minha filha, você suja muito os lençóis! Compre um absorvente, minha filha, e evite namorar por enquanto, me desculpe dizer isso, mas você não acha que é muita sujeira e que seu namorado vai acabar se enojando e desrespeitando você?
Por um momento tive vergonha e empalideci. A ponderação de Luiza tinha sua base racional e talvez mesmo cultural. Não sei como os negros se comportam nesse período mas me pareceu que a restrição de Luiza tinha uma razão higiênica e prática. Eu “sujava” muito os lençóis. Mas porque razão eu nunca senti o sangue humano como sujeira? O meu próprio sangue me enternecia, narcisista que sou, consciente demais de minha própria beleza que me faz, por isso mesmo, cultuar a matéria que para mim é um reflexo maravilhoso do espírito. A carne, o corpo humano, já foi comparado metaforicamente a um templo da alma. Essa metáfora me parece boa e procedente. Quem vê corpo vê espírito. Quem vê cara, então... Nosso coração transparece nos olhos e os meus me comovem.
Assim, pedi desculpas a Luiza mas disse-lhe que eu mesma lavaria meus lençóis na máquina e que preferia não tocar mais naquele assunto para faze-lo retornar à minha intimidade. Parece que a boa mulher não entendeu muito a minha resposta. Mas eu a abracei e dei-lhe um beijo no rosto por puro carinho ao mesmo tempo que para mostrar-lhe que eu não me magoara com suas bem intencionadas palavras.
Então, as manchas nos lençóis começaram a se diversificar em suas cores apresentando algumas amarronzadas. Luiza não se agüentou, novamente, e uma manhã confrontou-me:
—Alma, o que é isso agora? (ela me mostrava um traço marrom no lençol, que ela esticava em sua mão)—Você, minha filha , não toma jeito, não é? (ela deu uma risadinha que abrandou a censura). — Eu sei o que é isso. Meu marido tinha essa mania, por isso dei graças a Deus quando ele foi embora com outra. Eu já não podia nem sentar –(demos uma grande gargalhada, juntas).
—Luiza, querida (eu dizia, abraçando-a em meio às gargalhadas), você também? Não podia nem sentar!
Abraçada à minha querida mãe-preta eu tinha lágrimas nos olhos de tanto rir e... também de enternecimento por essa pobre mulher cujo abismo cultural e social fora transposto numa fração de segundo entre nós com o desvelar de um pequeno segredo picaresco, comum, revelado afinal pelas manchas denunciadoras nos meus indiscretos lençóis.
12/05/2006
A Namorada do Vento
(dos Contos Pampianos de Alma Welt)
Quando guria, na nossa estância, no pampa infinito, eu adorava o vento, e o sentia como um amigo muito próximo, que de certa forma me amava, como eu a ele. Sim, o pampeiro era uma espécie de namoradinho sorrateiro, que brincava de levantar-me as saias, talvez de uma maneira nada ingênua.
Por isso eu fazia jus à sua malícia, e andava sem calcinha sob a saia, toda a vez que sentia o pampeiro começar suas peraltices. Pode parecer estranho, mas a verdade é que a minha sensualidade começou muito cedo, embora não desprovida de uma grande candura. Eu convidava meu irmãozinho Rôdo, que pegava pela mão, assim que começava a ventania. Ele adorava o nosso ritual, igualmente, que ele associava à visão das partes geralmente ocultas de sua irmã, embora meu pai nos pusesse sempre para tomar banho juntos, na banheira, justamente para incentivar a naturalidade em nós e, se possível, a ausência de malícia. Já contei, em outros momentos, as experimentações pedagógicas avançadas de meu pai.
É preciso que eu conte, que desde pequenina, eu me acostumara a urinar, em plena pradaria, acocorada de preferência sobre pequenas flores rasteiras, que eu regava, observada, com descaso, pelo meu irmãozinho. Mas, parece que por volta dos dez anos, esse ato começou a interessar meu irmão que, nesses momentos, tirava imediatamente seu pintinho para fora da braguilha e me acompanhava, num pequeno ritual urinário que para nós tinha um sentido ligeiramente mágico: nós acreditávamos que estávamos regando as flores e as ervinhas, ou mesmo que as fecundávamos. Nós corríamos descalços pela pradaria, pois para além do jardim, e das flores pudicas de minha mãe, nos sentindo livres de seu olhar vigilante, onde eu podia tirar meus lindos e absurdos sapatinhos de verniz, e correr sentindo a energia da terra, das ervas, e mesmo das flores, que subia pelas solas dos nossos pés. Nós entrávamos no ribeirão, nuzinhos, pois fora do alcance do olhar de quase todas as pessoas ( estávamos proibidos de nos banhar no açude, na verdade mais pelo perigo, pois ali se afogara já uma criança, filha de um peão, cuja mãe, enlouqueceu, depois disso).
Ah! Mas, quando começavam as rajadas, desde que não fossem, naturalmente, do frio minuano, eu ficava eufórica, e corria chamando Rôdo, para fruirmos as carícias do vento no rosto, e também sob minhas saias! Era mais uma dessas coisas que irritavam minha mãe, que me acusava de “excêntrica”, palavra estranha, com a qual nunca me acostumei, pelo tom pejorativo que ela tinha ao pronunciá-la. Mas, isso faz parte do extenso catálogo de implicâncias e mágoas em relação à Mutti, que eu procurava apagar, pela minha vocação, irresistível, da felicidade. Quanto ao meu irmão, nunca precisei perguntar se ele era feliz, pois isso seria desmerecer a sua força, que era uma verdade que me deslumbrava desde guris. Vocês, meus leitores, podem imaginar, o que é sentir essa segurança em nosso irmão, tanto quanto em nosso pai? Por isso, talvez, o espírito castrador de minha mãe nos foi, afinal, inócuo, e nada pôde contra o espírito de liberdade, inato e incentivado pelo Vati, em nós.
Uma deslumbrante manhã de verão, eu andava com Rôdo pelos campos, alegres, mas em silêncio, como era nosso costume, para fruir todas as maravilhosas sensações da natureza ao nosso redor, e sob nossos pés, quando, subitamente, começou o pampeiro com suas rajadas, de viés, brincalhonas e maliciosas, levantando-me a saia. Eu já estava preparada, isto é, nua por baixo, e deixei-me acariciar, sem sequer tentar fazer descer minha anágua. Foi então que, pela primeira vez, vi um brilho estranho no olhar de meu irmão, que, (pasmem!) me pareceu de ciúmes. Ele precipitou-se imediatamente sobre mim, me atirou com ele sobre o solo segurando-me os punhos sobres ervas, como se eu fosse reagir. Mas, eu! Eu não reagiria nunca a uma coisa assim, vinda de meu irmão, cuja virilidade precoce eu admirava tanto. Ele ficou olhando meu rosto, principalmente meus lábios, com os seus muito próximos, e, ofegante como eu, beijou-me longamente com certa violência. Embora estranhando um pouco, sua afoiteza, me excitara de imediato, e deixei-o fazer pela primeira vez o que veio em seguida: ele foi descendo, descendo, com seus lábios roçando todo o percurso e... beijou a minha “xotinha”. Beijou-a apaixonadamente, e, um dia, eu soube: instintivamente, pois, nosso sexo é uma boca com belos lábios apetitosos, feitos para o beijo. Eu quase desmaiei de prazer e enternecimento pelo pequeno ciumento! Sim, porque, sutilmente, eu detectara esse seu ciúme em relação ao nosso vento brincalhão.
Daí por diante, eu passei a jogar com essa “rivalidade”, pequena fêmea que eu era, dizendo-me “a namorada do vento”, com o intuito de repetir, o que de fato acontecia, ao infinito, aquela cena de domínio e afirmação do pequeno macho, o gauchinho, que acompanharia com seu maravilhoso e legítimo desejo toda a nossa bela vida juntos.
10/05/2006
Quando guria, na nossa estância, no pampa infinito, eu adorava o vento, e o sentia como um amigo muito próximo, que de certa forma me amava, como eu a ele. Sim, o pampeiro era uma espécie de namoradinho sorrateiro, que brincava de levantar-me as saias, talvez de uma maneira nada ingênua.
Por isso eu fazia jus à sua malícia, e andava sem calcinha sob a saia, toda a vez que sentia o pampeiro começar suas peraltices. Pode parecer estranho, mas a verdade é que a minha sensualidade começou muito cedo, embora não desprovida de uma grande candura. Eu convidava meu irmãozinho Rôdo, que pegava pela mão, assim que começava a ventania. Ele adorava o nosso ritual, igualmente, que ele associava à visão das partes geralmente ocultas de sua irmã, embora meu pai nos pusesse sempre para tomar banho juntos, na banheira, justamente para incentivar a naturalidade em nós e, se possível, a ausência de malícia. Já contei, em outros momentos, as experimentações pedagógicas avançadas de meu pai.
É preciso que eu conte, que desde pequenina, eu me acostumara a urinar, em plena pradaria, acocorada de preferência sobre pequenas flores rasteiras, que eu regava, observada, com descaso, pelo meu irmãozinho. Mas, parece que por volta dos dez anos, esse ato começou a interessar meu irmão que, nesses momentos, tirava imediatamente seu pintinho para fora da braguilha e me acompanhava, num pequeno ritual urinário que para nós tinha um sentido ligeiramente mágico: nós acreditávamos que estávamos regando as flores e as ervinhas, ou mesmo que as fecundávamos. Nós corríamos descalços pela pradaria, pois para além do jardim, e das flores pudicas de minha mãe, nos sentindo livres de seu olhar vigilante, onde eu podia tirar meus lindos e absurdos sapatinhos de verniz, e correr sentindo a energia da terra, das ervas, e mesmo das flores, que subia pelas solas dos nossos pés. Nós entrávamos no ribeirão, nuzinhos, pois fora do alcance do olhar de quase todas as pessoas ( estávamos proibidos de nos banhar no açude, na verdade mais pelo perigo, pois ali se afogara já uma criança, filha de um peão, cuja mãe, enlouqueceu, depois disso).
Ah! Mas, quando começavam as rajadas, desde que não fossem, naturalmente, do frio minuano, eu ficava eufórica, e corria chamando Rôdo, para fruirmos as carícias do vento no rosto, e também sob minhas saias! Era mais uma dessas coisas que irritavam minha mãe, que me acusava de “excêntrica”, palavra estranha, com a qual nunca me acostumei, pelo tom pejorativo que ela tinha ao pronunciá-la. Mas, isso faz parte do extenso catálogo de implicâncias e mágoas em relação à Mutti, que eu procurava apagar, pela minha vocação, irresistível, da felicidade. Quanto ao meu irmão, nunca precisei perguntar se ele era feliz, pois isso seria desmerecer a sua força, que era uma verdade que me deslumbrava desde guris. Vocês, meus leitores, podem imaginar, o que é sentir essa segurança em nosso irmão, tanto quanto em nosso pai? Por isso, talvez, o espírito castrador de minha mãe nos foi, afinal, inócuo, e nada pôde contra o espírito de liberdade, inato e incentivado pelo Vati, em nós.
Uma deslumbrante manhã de verão, eu andava com Rôdo pelos campos, alegres, mas em silêncio, como era nosso costume, para fruir todas as maravilhosas sensações da natureza ao nosso redor, e sob nossos pés, quando, subitamente, começou o pampeiro com suas rajadas, de viés, brincalhonas e maliciosas, levantando-me a saia. Eu já estava preparada, isto é, nua por baixo, e deixei-me acariciar, sem sequer tentar fazer descer minha anágua. Foi então que, pela primeira vez, vi um brilho estranho no olhar de meu irmão, que, (pasmem!) me pareceu de ciúmes. Ele precipitou-se imediatamente sobre mim, me atirou com ele sobre o solo segurando-me os punhos sobres ervas, como se eu fosse reagir. Mas, eu! Eu não reagiria nunca a uma coisa assim, vinda de meu irmão, cuja virilidade precoce eu admirava tanto. Ele ficou olhando meu rosto, principalmente meus lábios, com os seus muito próximos, e, ofegante como eu, beijou-me longamente com certa violência. Embora estranhando um pouco, sua afoiteza, me excitara de imediato, e deixei-o fazer pela primeira vez o que veio em seguida: ele foi descendo, descendo, com seus lábios roçando todo o percurso e... beijou a minha “xotinha”. Beijou-a apaixonadamente, e, um dia, eu soube: instintivamente, pois, nosso sexo é uma boca com belos lábios apetitosos, feitos para o beijo. Eu quase desmaiei de prazer e enternecimento pelo pequeno ciumento! Sim, porque, sutilmente, eu detectara esse seu ciúme em relação ao nosso vento brincalhão.
Daí por diante, eu passei a jogar com essa “rivalidade”, pequena fêmea que eu era, dizendo-me “a namorada do vento”, com o intuito de repetir, o que de fato acontecia, ao infinito, aquela cena de domínio e afirmação do pequeno macho, o gauchinho, que acompanharia com seu maravilhoso e legítimo desejo toda a nossa bela vida juntos.
10/05/2006
As pequenas coisas inconfessáveis
(dos Contos proibidos de Alma Welt)
Espero Aline chegar para começarmos um novo quadro, em que ela posará novamente nua, numa pose ousada que concebi. Gostaria de eu mesma posar assim, como aquela escultura de Rodin, com as pernas muito abertas e alteadas, numa posição improvável e provocativa, para além da sensualidade e do erotismo, mas como confirmação da carnalidade gloriosa do animal feminino. Não sei se me fiz entender, mas trata-se de uma espécie de exasperação artística que me toma, quanto ao desejo de plasmar na arte a minha afirmação de mulher, que me sei bela, e que um dia deixarei de ser.
Nesses dias, em que me sinto assim, exaltada artisticamente, se não inspirada, a sensualidade emerge, e meu corpo exige coisas que nem sei... Bem, preparo o material, esperando a minha Aline, que afinal chega, um tanto esquiva, e hesitante. Conheço bem minha guria, e percebo quando alguma coisa a incomoda, ou quando tem algo a esconder. E sei, sempre, que a única coisa que Aline ainda tenta omitir na nossa relação, são seus encontros com o ex-namorado, o Pedro, numa espécie de contínua recaída, uma vez que ela já havia concordado comigo que ele é um mau caráter, pelo menos no que concerne ao relacionamento com o feminino, isto é, um machista nem sequer assumido, mas bastante perigoso. Não, não estou sendo parcial, nem estou puxando a brasa. Aline já afirmou que me ama, que está apaixonada por mim, me procura e me provoca, o que me dá o direito dessa exigência. Se fosse outro homem, mais puro e mais doce (eu garanti a ela), eu não exigiria o seu afastamento, nem sequer a exclusividade do seu corpo magnífico. Sei também que ela não acredita nessa minha última afirmação.
Aline vai se despindo, começando pelos tênis e a camiseta que ela usa em cima dos seus peitinhos deliciosos, que ficam com os bicos moldados pelo tecido, e que chamam bastante a atenção na rua, e em toda parte. Depois abre o cinto e desce o jeans rebolando ligeiramente, embora seja esguia, e não muito curvilínea. Depois, abaixa a calcinha, e... percebo nesse momento, que ela disfarça qualquer coisa, ao fazê-lo, tentando escondê-la debaixo da calça, sobre a cadeira. Então, finjo não reparar e viro-me de costas para ela, ajeitando a grande tela no cavalete.
Então, volto-me para ela, que me espera com os braços caídos, já passiva, para eu começar a tocá-la tecnicamente, ajustando-a à pose que vou descobrindo.
Coloco-a lentamente numa posição difícil, com as pernas muito abertas e muito altas, completamente exposta, mas que não se assemelha a pose daquela escultura de Rodin, para não imitá-la, ou plagiá-la. Começo a esboçar a pose no quadro com um carboncillo. Então, enquanto a observo, começa a acontecer:
Um brilho crescente na “porta” da vagina de Aline denuncia uma umidade, logo um corrimento, que vai formando uma espécie de bolha esbranquiçada. E começa a escorrer pela parte interna de sua coxa direita. Num longo fio, transparente, constrangedor para ela, que tenta enxugá-lo com a palma da mão, nervosa, constrangida, envergonhada. Sim, minha Aline está vazando o esperma de seu ex-namorado, copiosamente. Ela acaba de se entregar a ele, que me manda o seu recado, a sua assinatura de macho! Para boa entendedora...
Então, eu me aproximo dela, com meu pano de limpar pincel e, para sua surpresa, enxugo a sua coxa. Mas seu constrangimento cessa, pois imediatamente busco os seus lábios e beijo-a profundamente, apaixonadamente.
Ela sabe, assim, que nada me importa, e que meu amor é incondicional, e enternecido, até... com as pequenas coisas inconfessáveis.
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Espero Aline chegar para começarmos um novo quadro, em que ela posará novamente nua, numa pose ousada que concebi. Gostaria de eu mesma posar assim, como aquela escultura de Rodin, com as pernas muito abertas e alteadas, numa posição improvável e provocativa, para além da sensualidade e do erotismo, mas como confirmação da carnalidade gloriosa do animal feminino. Não sei se me fiz entender, mas trata-se de uma espécie de exasperação artística que me toma, quanto ao desejo de plasmar na arte a minha afirmação de mulher, que me sei bela, e que um dia deixarei de ser.
Nesses dias, em que me sinto assim, exaltada artisticamente, se não inspirada, a sensualidade emerge, e meu corpo exige coisas que nem sei... Bem, preparo o material, esperando a minha Aline, que afinal chega, um tanto esquiva, e hesitante. Conheço bem minha guria, e percebo quando alguma coisa a incomoda, ou quando tem algo a esconder. E sei, sempre, que a única coisa que Aline ainda tenta omitir na nossa relação, são seus encontros com o ex-namorado, o Pedro, numa espécie de contínua recaída, uma vez que ela já havia concordado comigo que ele é um mau caráter, pelo menos no que concerne ao relacionamento com o feminino, isto é, um machista nem sequer assumido, mas bastante perigoso. Não, não estou sendo parcial, nem estou puxando a brasa. Aline já afirmou que me ama, que está apaixonada por mim, me procura e me provoca, o que me dá o direito dessa exigência. Se fosse outro homem, mais puro e mais doce (eu garanti a ela), eu não exigiria o seu afastamento, nem sequer a exclusividade do seu corpo magnífico. Sei também que ela não acredita nessa minha última afirmação.
Aline vai se despindo, começando pelos tênis e a camiseta que ela usa em cima dos seus peitinhos deliciosos, que ficam com os bicos moldados pelo tecido, e que chamam bastante a atenção na rua, e em toda parte. Depois abre o cinto e desce o jeans rebolando ligeiramente, embora seja esguia, e não muito curvilínea. Depois, abaixa a calcinha, e... percebo nesse momento, que ela disfarça qualquer coisa, ao fazê-lo, tentando escondê-la debaixo da calça, sobre a cadeira. Então, finjo não reparar e viro-me de costas para ela, ajeitando a grande tela no cavalete.
Então, volto-me para ela, que me espera com os braços caídos, já passiva, para eu começar a tocá-la tecnicamente, ajustando-a à pose que vou descobrindo.
Coloco-a lentamente numa posição difícil, com as pernas muito abertas e muito altas, completamente exposta, mas que não se assemelha a pose daquela escultura de Rodin, para não imitá-la, ou plagiá-la. Começo a esboçar a pose no quadro com um carboncillo. Então, enquanto a observo, começa a acontecer:
Um brilho crescente na “porta” da vagina de Aline denuncia uma umidade, logo um corrimento, que vai formando uma espécie de bolha esbranquiçada. E começa a escorrer pela parte interna de sua coxa direita. Num longo fio, transparente, constrangedor para ela, que tenta enxugá-lo com a palma da mão, nervosa, constrangida, envergonhada. Sim, minha Aline está vazando o esperma de seu ex-namorado, copiosamente. Ela acaba de se entregar a ele, que me manda o seu recado, a sua assinatura de macho! Para boa entendedora...
Então, eu me aproximo dela, com meu pano de limpar pincel e, para sua surpresa, enxugo a sua coxa. Mas seu constrangimento cessa, pois imediatamente busco os seus lábios e beijo-a profundamente, apaixonadamente.
Ela sabe, assim, que nada me importa, e que meu amor é incondicional, e enternecido, até... com as pequenas coisas inconfessáveis.
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Depois do Epílogo
(Dos Contos secretos de Alma Welt)
Hoje, após um pequeno incidente, que narrarei, ocorreu-me o pensamento de que as verdadeiras estórias começam depois que terminam. Isto pode parecer um paradoxo, à primeira vista, mas deixem-me explicá-lo.
Acordei esta manhã com o interfone soando, um tanto cedo, me pareceu, e estremunhada, levantei quase revoltada, ao mesmo tempo que curiosa. Seu Ermírio, o porteiro, pergunta-me se Aline está aqui, pois sua mãe quer falar com ela, quer subir imediatamente, ele diz, um tanto receoso. Peço-lhe que segure a megera lá em baixo, o mais tempo possível, para que eu possa me arrumar para recebe-la. Detesto que me peguem desprevenida. Sinto-me feia ao olhar do outro ser humano, e passo a nos odiar, a ambos
Depois de um banho rápido, escovando ao mesmo tempo os dentes, enxugo-me passando uma escova nos cabelos. Pronto, posso receber a importuna, e anuncio isso ao interfone. Passado um minuto, dona Aurélia estoura na minha sala-ateliê.
–Alma, bom dia, menina, me desculpe, mas vim pedir-lhe que você receba Aline de volta, a seu serviço. Não agüento mais ver minha filha tão infeliz. Nunca a vi assim ao terminar um contrato, ela chora dia e noite. Eu não consigo ter um diálogo com minha filha há muito tempo, você sabe. Na verdade desde que o pai dela nos deixou. Ela só conversa com sua avó, minha sogra, dona Giulia. Mas não me contam nada. Elas me descartam, me rejeitam, essa é que é a verdade. Mas sou mãe, e não posso ver minha filha infeliz. Porque a senhora não quer continuar com ela como modelo? Ela só falava na senhora... como é bonita (estou vendo), e como pinta bem. Há algo estranho... mas não posso ver minha filha sofrer. Você não pode chamá-la, para mais uma série de quadros? Ela é tão bonita, e posa tão bem!
—Dona Aurélia- eu disse- estou tão infeliz quanto ela. Minha vida, como que parou... (eu hesitei, percebendo o perigo crescente das minhas palavras). Mas, não dependeu de mim, dona Aurélia, esse desenlace da nossa relação... profissional. Foi os ciúmes do Pedro, ao ver meus quadros, ao ver a beleza de Aline melhor celebrada, que nas fotografias dele. Foi isso, dona Aurélia. Uma lástima... mas, talvez reversível, pois estou empenhada em conseguir que o Pedro permita a ela voltar a trabalhar para mim. Quem sabe isso volte a acontecer ( suspirei profundamente).
Servi um café a dona Aurélia que saiu um pouco mais animada. Eu mentira um pouco. A verdade é sempre uma lâmina de dois gumes. Nunca pode ser dita sem chocar ou magoar alguém nesta vida. Ou “uma faca só lâmina”, como disse o verso do grande João Cabral. A mentira é bem mais benigna que a verdade. É, pelo menos, a tentativa de pôr um grande pano quente sobre as dores, ou sobre a crueldade dos fatos.
A verdade é que a visita surpreendente de dona Aurélia renovou minha esperança de reatar com Aline, de voltar a ter a minha amada junto a mim novamente, mesmo que ainda tivesse de continuar a compartilhá-la com aquele Pedro. Como a vida é patética! Ou será minha vida, que é assim, devido à minha carência, a minha vulnerabilidade? Eu estava disposta a mais humilhação, como o preço a pagar pela presença preciosa de Aline, junto a mim, nas minhas mãos, novamente. Ah! A cobiça do amor, a fome, a sede, do desejo! Como somos movidos pelas nossas paixões! Sim, mas como me sinto viva, no torvelinho!
Eu mentira à dona Aurélia sobre a natureza real da minha relação com Aline. Ela, evidentemente, ainda não desconfiava de que sua filha, modelo, pudesse ser... amante da pintora, vamos falar claro! É muito difícil encontrar uma mãe que aceite isso, estou bem consciente. Mas, a mim cabia lutar pelo meu amor, pela realização do meu desejo, mesmo incorrendo numa certa omissão da verdade, quer dizer, mentiras mesmo. Eu sabia agora que Aline sofria. Eu iria, portanto, tê-la de volta.
Fui procurar Vânia, em sua casa, minha amiga querida que há tempos eu na via, que já fora minha namorada, e que Aline não conhecia, por isso mesmo. Sabendo que ela não me negaria nada, pedi-lhe um grande favor: que ela telefonasse para a agência de modelos que me fornecera Aline, se cadastrasse como pintora, pedisse o catálogo de modelos, escolhesse Aline, e a contratasse. Depois deixasse o resto comigo. Vânia concordou, dizendo:
—Alma, querida, o que eu não faria por ti, meu amor! Quero que você seja feliz, e a ajudarei no que for preciso. Mas quero, em troca, que esta noite você passe aqui comigo. Só mais esta noite!
Concordei sem hesitar. Ela bateu palmas e deu pulinhos de alegria. Eu me enterneci e a beijei nos lábios. Tive que detê-la, a seguir, para podermos trabalhar o meu plano.
Vânia, comigo ao lado, orientando-a, ao telefone e depois ao computador, realizou todos os trâmites da transação e conseguiu o contrato de Aline. Com a ajuda entusiasmada de minha amiga, que estava se divertindo, preparei sua sala um tanto burguesa, como um ateliê, para isso levando para lá numa perua de frete, cavalete, telas, e farto material de pintura. Uma vez preparado o cenário, combinei com ela, que recebesse Aline no dia e hora combinados, vestindo um guarda-pó de pintora, novo, que eu comprara e manchara bastante de tinta, e com uma paleta saturada na mão, e um pincel. Não é preciso dizer que levei dúzias de pincéis de todos os calibres, e espalhei-os pela sala em potes sujos. Pintei com esboços figurativos inúmeras telas procurando disfarçar o meu estilo, como se fosse uma pintora bem diferente de mim. Creio que fui bem sucedida, e pendurei algumas dessas novas obras, substituindo os quadros fracos que havia por ali, e pelo chão, encostadas nas paredes.
Depois de tudo preparado, pus–me no meio da sala transformada em ateliê, deixei cair minha roupa, e fiz então uma pose charmosa de modelo nu, com os braços estendidos em direção à minha querida amiga. Eu me sabia o seu prêmio, enquanto ela corria para mim e me tomava em seus braços, cobrindo-me de beijos!
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No grande dia, acordei nos braços de Vânia e despertei-a também para prepararmo-nos para receber Aline. Após um demorado banho, juntas, em que brincamos muito, em meio a gritinhos, vestimo-nos e penteamo-nos condignamente. Coloquei o guarda-pó manchado de todas as cores, sobre a roupa de Vânia, desmanchei-lhe um pouco o cabelo, e dei uma pincelada em sua bochecha, enfim, fantasiei-a de pintora. Ríamos muito enquanto fazíamos esses preparativos.
Finalmente, à hora combinada, soou o interfone e Vânia pediu para a Aline subir. Eu, com o coração acelerado e profundamente emocionada, permanecia no quarto, mordendo o travesseiro para não gritar.
Vânia recebeu Aline, que estendeu-lhe a mão, apresentando-se, lançou os olhos em torno e perguntou se podiam começar. Imediatamente começou a desnudar-se colocando seu indefectível jeans, camiseta e calcinha sobre uma cadeira, enquanto era observada com certa surpresa e deslumbramento por Vânia, depois ela me revelou. Então permaneceu inerte como uma boneca, com os braços caídos, pronta para ser manipulada para encontrar e armar a pose. Aí estava um momento importante do meu plano.
Vânia delicadamente virou-a para a parede oposta, de costas para a o corredor que levava ao quarto, e começou a cantarolar com sua linda voz, que era a senha combinada por nós, enquanto a manipulava por trás, colocando-o numa pose em que ela não podia ver o que se passava atrás de si. Ao ouvir o canto de Vânia entrei descalça na sala silenciosamente, pé ante-pé, substituindo Vânia que recuou, também silenciosamente e sumiu no corredor. Ela, na verdade ficaria observando, meio escondida. Eu comecei a manipular, emocionadamente a minha Aline, tocando suas espáduas e pernas, mas por trás, para que minhas mãos não fossem vistas por ela, cujo rosto permanecia imóvel, devido ao seu grande profissionalismo. Então, com meus toques muito suaves, sensuais, pareceu-me que ela começou a reconhecer o meu estilo, a maciez das minhas palmas, a sabedoria dos meus dedos. Sua respiração se alterou, seu peito começou a arfar, sua respiração se acelerando, denunciando sua emoção crescente. Minha respiração acompanhava essa aceleração, eu quase não consegui continuar com aquilo, cuja meta era fazê-la descobrir, e... render-se.
Mas foi o meu cheiro (um dia ela me diria), subitamente reconhecido por ela, que a fez voltar-se com um grito de alegria e cair nos meus braços colando sua boca à minha.
Ali, sobre um tapetinho fôfo, no meio daquele cenário de falso ateliê, observadas, em lágrimas de enternecimento e também de uma ligeira inveja pela minha linda e querida cúmplice, eu possuí Aline, minha amada, que assim voltara para mim, com todas as forças e recursos de minha imaginação apaixonada!
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Hoje, após um pequeno incidente, que narrarei, ocorreu-me o pensamento de que as verdadeiras estórias começam depois que terminam. Isto pode parecer um paradoxo, à primeira vista, mas deixem-me explicá-lo.
Acordei esta manhã com o interfone soando, um tanto cedo, me pareceu, e estremunhada, levantei quase revoltada, ao mesmo tempo que curiosa. Seu Ermírio, o porteiro, pergunta-me se Aline está aqui, pois sua mãe quer falar com ela, quer subir imediatamente, ele diz, um tanto receoso. Peço-lhe que segure a megera lá em baixo, o mais tempo possível, para que eu possa me arrumar para recebe-la. Detesto que me peguem desprevenida. Sinto-me feia ao olhar do outro ser humano, e passo a nos odiar, a ambos
Depois de um banho rápido, escovando ao mesmo tempo os dentes, enxugo-me passando uma escova nos cabelos. Pronto, posso receber a importuna, e anuncio isso ao interfone. Passado um minuto, dona Aurélia estoura na minha sala-ateliê.
–Alma, bom dia, menina, me desculpe, mas vim pedir-lhe que você receba Aline de volta, a seu serviço. Não agüento mais ver minha filha tão infeliz. Nunca a vi assim ao terminar um contrato, ela chora dia e noite. Eu não consigo ter um diálogo com minha filha há muito tempo, você sabe. Na verdade desde que o pai dela nos deixou. Ela só conversa com sua avó, minha sogra, dona Giulia. Mas não me contam nada. Elas me descartam, me rejeitam, essa é que é a verdade. Mas sou mãe, e não posso ver minha filha infeliz. Porque a senhora não quer continuar com ela como modelo? Ela só falava na senhora... como é bonita (estou vendo), e como pinta bem. Há algo estranho... mas não posso ver minha filha sofrer. Você não pode chamá-la, para mais uma série de quadros? Ela é tão bonita, e posa tão bem!
—Dona Aurélia- eu disse- estou tão infeliz quanto ela. Minha vida, como que parou... (eu hesitei, percebendo o perigo crescente das minhas palavras). Mas, não dependeu de mim, dona Aurélia, esse desenlace da nossa relação... profissional. Foi os ciúmes do Pedro, ao ver meus quadros, ao ver a beleza de Aline melhor celebrada, que nas fotografias dele. Foi isso, dona Aurélia. Uma lástima... mas, talvez reversível, pois estou empenhada em conseguir que o Pedro permita a ela voltar a trabalhar para mim. Quem sabe isso volte a acontecer ( suspirei profundamente).
Servi um café a dona Aurélia que saiu um pouco mais animada. Eu mentira um pouco. A verdade é sempre uma lâmina de dois gumes. Nunca pode ser dita sem chocar ou magoar alguém nesta vida. Ou “uma faca só lâmina”, como disse o verso do grande João Cabral. A mentira é bem mais benigna que a verdade. É, pelo menos, a tentativa de pôr um grande pano quente sobre as dores, ou sobre a crueldade dos fatos.
A verdade é que a visita surpreendente de dona Aurélia renovou minha esperança de reatar com Aline, de voltar a ter a minha amada junto a mim novamente, mesmo que ainda tivesse de continuar a compartilhá-la com aquele Pedro. Como a vida é patética! Ou será minha vida, que é assim, devido à minha carência, a minha vulnerabilidade? Eu estava disposta a mais humilhação, como o preço a pagar pela presença preciosa de Aline, junto a mim, nas minhas mãos, novamente. Ah! A cobiça do amor, a fome, a sede, do desejo! Como somos movidos pelas nossas paixões! Sim, mas como me sinto viva, no torvelinho!
Eu mentira à dona Aurélia sobre a natureza real da minha relação com Aline. Ela, evidentemente, ainda não desconfiava de que sua filha, modelo, pudesse ser... amante da pintora, vamos falar claro! É muito difícil encontrar uma mãe que aceite isso, estou bem consciente. Mas, a mim cabia lutar pelo meu amor, pela realização do meu desejo, mesmo incorrendo numa certa omissão da verdade, quer dizer, mentiras mesmo. Eu sabia agora que Aline sofria. Eu iria, portanto, tê-la de volta.
Fui procurar Vânia, em sua casa, minha amiga querida que há tempos eu na via, que já fora minha namorada, e que Aline não conhecia, por isso mesmo. Sabendo que ela não me negaria nada, pedi-lhe um grande favor: que ela telefonasse para a agência de modelos que me fornecera Aline, se cadastrasse como pintora, pedisse o catálogo de modelos, escolhesse Aline, e a contratasse. Depois deixasse o resto comigo. Vânia concordou, dizendo:
—Alma, querida, o que eu não faria por ti, meu amor! Quero que você seja feliz, e a ajudarei no que for preciso. Mas quero, em troca, que esta noite você passe aqui comigo. Só mais esta noite!
Concordei sem hesitar. Ela bateu palmas e deu pulinhos de alegria. Eu me enterneci e a beijei nos lábios. Tive que detê-la, a seguir, para podermos trabalhar o meu plano.
Vânia, comigo ao lado, orientando-a, ao telefone e depois ao computador, realizou todos os trâmites da transação e conseguiu o contrato de Aline. Com a ajuda entusiasmada de minha amiga, que estava se divertindo, preparei sua sala um tanto burguesa, como um ateliê, para isso levando para lá numa perua de frete, cavalete, telas, e farto material de pintura. Uma vez preparado o cenário, combinei com ela, que recebesse Aline no dia e hora combinados, vestindo um guarda-pó de pintora, novo, que eu comprara e manchara bastante de tinta, e com uma paleta saturada na mão, e um pincel. Não é preciso dizer que levei dúzias de pincéis de todos os calibres, e espalhei-os pela sala em potes sujos. Pintei com esboços figurativos inúmeras telas procurando disfarçar o meu estilo, como se fosse uma pintora bem diferente de mim. Creio que fui bem sucedida, e pendurei algumas dessas novas obras, substituindo os quadros fracos que havia por ali, e pelo chão, encostadas nas paredes.
Depois de tudo preparado, pus–me no meio da sala transformada em ateliê, deixei cair minha roupa, e fiz então uma pose charmosa de modelo nu, com os braços estendidos em direção à minha querida amiga. Eu me sabia o seu prêmio, enquanto ela corria para mim e me tomava em seus braços, cobrindo-me de beijos!
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No grande dia, acordei nos braços de Vânia e despertei-a também para prepararmo-nos para receber Aline. Após um demorado banho, juntas, em que brincamos muito, em meio a gritinhos, vestimo-nos e penteamo-nos condignamente. Coloquei o guarda-pó manchado de todas as cores, sobre a roupa de Vânia, desmanchei-lhe um pouco o cabelo, e dei uma pincelada em sua bochecha, enfim, fantasiei-a de pintora. Ríamos muito enquanto fazíamos esses preparativos.
Finalmente, à hora combinada, soou o interfone e Vânia pediu para a Aline subir. Eu, com o coração acelerado e profundamente emocionada, permanecia no quarto, mordendo o travesseiro para não gritar.
Vânia recebeu Aline, que estendeu-lhe a mão, apresentando-se, lançou os olhos em torno e perguntou se podiam começar. Imediatamente começou a desnudar-se colocando seu indefectível jeans, camiseta e calcinha sobre uma cadeira, enquanto era observada com certa surpresa e deslumbramento por Vânia, depois ela me revelou. Então permaneceu inerte como uma boneca, com os braços caídos, pronta para ser manipulada para encontrar e armar a pose. Aí estava um momento importante do meu plano.
Vânia delicadamente virou-a para a parede oposta, de costas para a o corredor que levava ao quarto, e começou a cantarolar com sua linda voz, que era a senha combinada por nós, enquanto a manipulava por trás, colocando-o numa pose em que ela não podia ver o que se passava atrás de si. Ao ouvir o canto de Vânia entrei descalça na sala silenciosamente, pé ante-pé, substituindo Vânia que recuou, também silenciosamente e sumiu no corredor. Ela, na verdade ficaria observando, meio escondida. Eu comecei a manipular, emocionadamente a minha Aline, tocando suas espáduas e pernas, mas por trás, para que minhas mãos não fossem vistas por ela, cujo rosto permanecia imóvel, devido ao seu grande profissionalismo. Então, com meus toques muito suaves, sensuais, pareceu-me que ela começou a reconhecer o meu estilo, a maciez das minhas palmas, a sabedoria dos meus dedos. Sua respiração se alterou, seu peito começou a arfar, sua respiração se acelerando, denunciando sua emoção crescente. Minha respiração acompanhava essa aceleração, eu quase não consegui continuar com aquilo, cuja meta era fazê-la descobrir, e... render-se.
Mas foi o meu cheiro (um dia ela me diria), subitamente reconhecido por ela, que a fez voltar-se com um grito de alegria e cair nos meus braços colando sua boca à minha.
Ali, sobre um tapetinho fôfo, no meio daquele cenário de falso ateliê, observadas, em lágrimas de enternecimento e também de uma ligeira inveja pela minha linda e querida cúmplice, eu possuí Aline, minha amada, que assim voltara para mim, com todas as forças e recursos de minha imaginação apaixonada!
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O canto do pássaro desconhecido
(dos Contos Pampianos, de Alma Welt )
Vou agora contar algo que nunca antes revelei, por demasiado forte ou escabroso, na minha movimentada vida amorosa, da qual, vocês, meus leitores, tiveram já amostras, embora um tanto filtradas, apesar de tudo.
Naquele verão dos meus dezessete anos, durante férias na nossa estância, eu estava no auge de minha beleza e... sensualidade. Rôdo voltara da Europa, onde estivera em intercâmbio, e ele, que havia crescido comigo em grande cumplicidade, pareceu deslumbrado e atraído de uma nova forma por mim, a irmã adorada por ele. Seus hormônios dos dezesseis anos estavam naturalmente alvoroçados, e a atração que sempre teve por mim não pode encontrar mais freios suficientemente fortes. A coisa se passou assim:
Rôdo, recomeçou a “inventar” pequenas aventuras como aquelas que nos motivavam na nossa infância, mas que agora não eram mais convincentes: ir buscar uma vitela desgarrada no pasto, ou a descoberta de uma flor ou de uma borboleta desconhecida. Eu sorria, enternecida ou intrigada, mas comecei a desconfiar ou mesmo a temer algo... Meu instinto feminino, me alertava, para uma possível armadilha. De quê ? Logo eu iria saber.
Meu irmão veio ao meu quarto para convidar-me a acompanhá-lo ao bosque pois queria mostrar-me um pássaro cantor maravilhoso, nunca antes visto por nós, que ele descobrira e queria que eu compartilhasse de sua descoberta e prazer. Confesso que desta vez, justamente, não desconfiei de nada. Meu inconsciente me traía? É possível. O fato é que o acompanhei à hora combinada, no dia seguinte bem cedo, que era a hora que, segundo ele, o pássaro entoava o seu mais belo canto.
Na noite que antecedeu a nossa incursão, tive um sonho erótico e inquietante, que deveria servir-me de alerta, mas que se desvaneceu ao acordar. Lembro-me que me banhei e me trajei com um gracioso vestido fino sobre a pele, e não vesti calcinha por baixo. Por quê razão? Bem isso era comum em mim, e fazia parte da impressão de liberdade que eu sentia com isso, mas também da minha sensualidade, característica e hábito que mantenho ainda hoje. Naquele dia isso se constituiria em elemento facilitador. Ou provocante... eu iria descobrir.
Depois de um chimarrão um tanto rápido, caminhei em direção ao bosque para encontrar-me com Rôdo.
No meio da pequena clareira que conhecíamos tão bem, tive ainda a ingenuidade de me pôr atenta para algum canto novo de pássaro. Logo percebi a aproximação de alguém pelo bosque e me pus atenta com o coração subitamente acelerado. A expectativa que se formara desde o dia anterior, minando-me começou a desmontar o meu auto-controle e a pôr-me num estado próximo do pânico. Não suportei e saí correndo, desvairada, sem coragem de olhar para trás. Mas, o mais perturbador é que meu medo era da perseguição de meu irmão desconhecido, o jovem macho, que me espreitava na floresta e que me invadiria, eu pressentia, de uma maneira nova, produzindo uma nova dor, insuportável. De onde me vinham aqueles pensamentos? Muitos anos mais tarde meu analista iria decifrar o enigma.
Corri e corri, desorientada, em pânico crescente, até que tropecei na relva e cai de bruços, em estado de choque com o impacto. Senti então que alguém levantava minha saia e abria minhas nádegas, levantando minhas ancas por baixo, pondo-me de quatro Senti, então uma dor imensa, como um ferro em brasa me invadindo, mais surpresa e assustada ainda, pois na esperava algo assim, por ali... território ainda desconhecido por mim. O invasor permaneceu por um tempo infinito de dor entrando e saindo de dentro de mim, até que a dor desapareceu e comecei a sentir uma espécie de prazer doloroso. Então nesse momento, desmaiei.
Acordei no sofá da sala, com o rosto do meu irmão sobre mim, e assustei-me de novo. Ele fazia schhhhhh... schhhhh... com o dedo em meus lábios, com um ar condoído e preocupado. Então perguntou:
—Alma, irmãzinha, o quê ocorreu, alguém te fez mal? Tu não foste ao nosso encontro! Foi Matilde quem te encontrou, desmaiada na pradaria. Ela chamou Galdério que te trouxe nos braços até aqui. Agora Matilde não pára de chorar, lá na cozinha. O que aconteceu?
Tu te lembras?
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28/10/2005
Vou agora contar algo que nunca antes revelei, por demasiado forte ou escabroso, na minha movimentada vida amorosa, da qual, vocês, meus leitores, tiveram já amostras, embora um tanto filtradas, apesar de tudo.
Naquele verão dos meus dezessete anos, durante férias na nossa estância, eu estava no auge de minha beleza e... sensualidade. Rôdo voltara da Europa, onde estivera em intercâmbio, e ele, que havia crescido comigo em grande cumplicidade, pareceu deslumbrado e atraído de uma nova forma por mim, a irmã adorada por ele. Seus hormônios dos dezesseis anos estavam naturalmente alvoroçados, e a atração que sempre teve por mim não pode encontrar mais freios suficientemente fortes. A coisa se passou assim:
Rôdo, recomeçou a “inventar” pequenas aventuras como aquelas que nos motivavam na nossa infância, mas que agora não eram mais convincentes: ir buscar uma vitela desgarrada no pasto, ou a descoberta de uma flor ou de uma borboleta desconhecida. Eu sorria, enternecida ou intrigada, mas comecei a desconfiar ou mesmo a temer algo... Meu instinto feminino, me alertava, para uma possível armadilha. De quê ? Logo eu iria saber.
Meu irmão veio ao meu quarto para convidar-me a acompanhá-lo ao bosque pois queria mostrar-me um pássaro cantor maravilhoso, nunca antes visto por nós, que ele descobrira e queria que eu compartilhasse de sua descoberta e prazer. Confesso que desta vez, justamente, não desconfiei de nada. Meu inconsciente me traía? É possível. O fato é que o acompanhei à hora combinada, no dia seguinte bem cedo, que era a hora que, segundo ele, o pássaro entoava o seu mais belo canto.
Na noite que antecedeu a nossa incursão, tive um sonho erótico e inquietante, que deveria servir-me de alerta, mas que se desvaneceu ao acordar. Lembro-me que me banhei e me trajei com um gracioso vestido fino sobre a pele, e não vesti calcinha por baixo. Por quê razão? Bem isso era comum em mim, e fazia parte da impressão de liberdade que eu sentia com isso, mas também da minha sensualidade, característica e hábito que mantenho ainda hoje. Naquele dia isso se constituiria em elemento facilitador. Ou provocante... eu iria descobrir.
Depois de um chimarrão um tanto rápido, caminhei em direção ao bosque para encontrar-me com Rôdo.
No meio da pequena clareira que conhecíamos tão bem, tive ainda a ingenuidade de me pôr atenta para algum canto novo de pássaro. Logo percebi a aproximação de alguém pelo bosque e me pus atenta com o coração subitamente acelerado. A expectativa que se formara desde o dia anterior, minando-me começou a desmontar o meu auto-controle e a pôr-me num estado próximo do pânico. Não suportei e saí correndo, desvairada, sem coragem de olhar para trás. Mas, o mais perturbador é que meu medo era da perseguição de meu irmão desconhecido, o jovem macho, que me espreitava na floresta e que me invadiria, eu pressentia, de uma maneira nova, produzindo uma nova dor, insuportável. De onde me vinham aqueles pensamentos? Muitos anos mais tarde meu analista iria decifrar o enigma.
Corri e corri, desorientada, em pânico crescente, até que tropecei na relva e cai de bruços, em estado de choque com o impacto. Senti então que alguém levantava minha saia e abria minhas nádegas, levantando minhas ancas por baixo, pondo-me de quatro Senti, então uma dor imensa, como um ferro em brasa me invadindo, mais surpresa e assustada ainda, pois na esperava algo assim, por ali... território ainda desconhecido por mim. O invasor permaneceu por um tempo infinito de dor entrando e saindo de dentro de mim, até que a dor desapareceu e comecei a sentir uma espécie de prazer doloroso. Então nesse momento, desmaiei.
Acordei no sofá da sala, com o rosto do meu irmão sobre mim, e assustei-me de novo. Ele fazia schhhhhh... schhhhh... com o dedo em meus lábios, com um ar condoído e preocupado. Então perguntou:
—Alma, irmãzinha, o quê ocorreu, alguém te fez mal? Tu não foste ao nosso encontro! Foi Matilde quem te encontrou, desmaiada na pradaria. Ela chamou Galdério que te trouxe nos braços até aqui. Agora Matilde não pára de chorar, lá na cozinha. O que aconteceu?
Tu te lembras?
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28/10/2005
Dias gloriosos, mistérios gozosos
(dos Contos Proibidos, de Alma Welt)
Hoje voltei a lembrar-me de um episódio luminoso, de minha adolescência. Tal lembrança me veio, num momento íntimo, no banheiro, ao fazer xixi, voluptuosamente. A sensação de prazer com a micção e seu barulhinho sibilado, remeteu-me a uma certa passagem quando, eu tinha mais ou menos quatorze anos, e recebemos na estância uma priminha, por parte da família de minha mãe, para passar as férias conosco. Dora, a menina da mesma idade que eu, assim que chegou, mostrou-se fascinada por sua “prima alemã”, que era eu. Sendo ela morena, e linda, com duas tranças pretas, enroladas na cabeça, seu pescoço comprido como o meu, de bailarina, me atraiu, além de outros detalhes de sua beleza, como, por exemplo, o narizinho de ponta quadrada, gracioso. Mas a atração irresistível estabeleceu-se entre nós ao compartilharmos o banheiro para fazer xixi, antes de pormo-nos no leito para palrar, antes do sono, encantadas uma com a outra. Foi o seguinte:
Dora, conversando sem parar teve vontade de fazer xixi, e pondo a mão ali, em seu púbis correu de repente para o banheiro de pernas meio fechadas, com urgência de urinar. Sem pensar, eu corri atrás e quando ela abaixou a calcinha, imediatamente, como um reflexo, eu pus minha mão direita entre suas pernas antes que ela se sentasse, para colher em minha mão a sua urina quente, quase fumegante. Este ato, nos deixou perplexas as duas... e encantadas. Como explicar tal gesto... instintivo? Nunca pude compreender a mim mesma nesses impulsos, verdadeiras “pulsões” sexuais, que embora misteriosas e desconcertantes, parecem obedecer a uma lógica interior mais profunda, pois me causam imenso prazer e aceitação posterior, sem maiores conflitos (uma vez muitos anos mais tarde comentei com meu psicanalista esse episódio, e outros parecidos, e ele os classificou de urolagnia ou urofilia, uma espécie branda de perversão. Lembro-me de que já da primeira vez, imediatamente levei a mão molhada às narinas, aspirei como um perfume. A seguir, diante do olhar estupefato da guria, lambi minha mão com infinito prazer. Dora ficou muito assustada com aquilo e disse que achava que eu era louca, que aquilo era nojento. Mas a verdade, é que ela ficou fascinada e quis repetir a experiência comigo, todas as vezes que íamos ao banheiro. Eu passei, instintivamente, a influenciá-la nessa espécie estranha de prazer, e logo, ela, a princípio relutante, experimentou meu xixi, imitando-me, ainda com receio, rindo muito. Daí por diante começou a festa do xixi, para nós duas, cada vez mais ousadas. Quando tomávamos banhos juntas, ao chuveiro ou na banheira fazíamos maravilhosas variações, por exemplo, fechávamos a torneira para banharmo-nos mutuamente sob nossas pequenas duchas douradas, deliciosas, apesar de muito quentes, naquele verão do nosso “despertar dourado”, com passei a chamá-lo em código.
Naquelas férias inteiras, nós desfrutamos do prazer de nosso banho de xixi, todos os dias. Eu me punha agachada no box, para ela urinar sobre mim, da cabeça os pés. Cada vez mais ávida, eu me punha de boca aberta diante do seu esguichinho, e aproximava-me até colar meus lábios na maravilhosa “xantinha” rosada de minha prima. Eu já começava a beber a sua urina, a medida que me sentia mais e mais apaixonada. Depois, ela me imitava, com igual paixão.
Logo, como era de se esperar ( muitos anos depois eu soube), como toda parafilia isso tornou-se uma obsessão naquela temporada, e o fetichismo da urina acompanhava uma paixão crescente, que passou a adquirir um timbre doloroso, diante da perspectiva do final das férias e de nossa separação inexorável. Então fizemos um pacto.
No dia de levar minha prima à estaçãozinha de trem, nós, naquela manhã, atingimos um paroxismo urológico, que nós fez beber mutuamente todo o sumo maravilhoso, o néctar de nossas bexigas. Por minha vez, introduzi, exasperada, os dedos na sua vagina, e a seguir no seu ânus, para nosso espanto. Tal variação era novidade para nós, e tardia: não havia mais tempo pra desenvolvê-la. Sentimo-nos frustradas e... desesperadas. Choramos abraçadas durante todo o percurso até a estação, e só desgrudei dela quando o trem começou a deslocar-se comigo nos braços da minha amada. Em seguida, em prantos, na plataforma levei os dedos às narinas e senti ainda os seus cheiros, com o prêmio adicional de uma nova fragrância, a do buraquinho traseiro de minha priminha adorada.
Depois de um mês, recebi pelo correio, o primeiro frasco, lacrado, de nossa correspondência intima, cujo gargalo, eu percebi, apresentava aquele perfume adicional.
Nosso pacto dourado!
27/10/2005
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Dias gloriosos, mistérios gozosos II (O retorno de Dora)
(dos Contos Proibidos, de Alma Welt)
Um ano se passou desde as primeiras férias de Dora entre nós, na estância. Agora eu recebia a notícia de sua vinda para a temporada de Dezembro e Janeiro. Durante o ano nós trocamos nossa peculiar correspondência, os pequenos frascos com o sumo de nossas bexigas, e alguns odores extras. Fomos buscá-la, Rôdo e eu, na charrete com Galdério. Nós estávamos um ano mais velhos e eu planejava compartilhá-la com meu querido irmão para assistir e decifrar certos enigmas para mim. Eu queria ver como se processava a penetração, e antegozava a visão explícita de meu amado irmão possuindo minha priminha amada. Era só uma questão de convencer Dora, o que me parecia fácil. Talvez bastasse apenas um pedido meu. Afinal, ela achara meu irmão “lindo” à primeira vista, na temporada anterior, e só não rolara um namoro, porque meu irmão afastou-se percebendo minha atração por minha prima. Rôdo sempre foi desprendido e generoso comigo, seu verdadeiro amor, essa é que é a verdade.
Na plataforma, eu estava em grande expectativa sobre a impressão que eu teria ao rever minha prima. Estaria ela tão bonita quanto no verão passado? Teria ela mudado em relação a mim? Afinal nossa troca de frascos parara havia três meses. Eu temia que ela tivesse mudado e renegasse toda a nossa experiência, toda a nossa peculiar relação.
Quando Dora desceu, do vagão, eu senti que ela, embora mais linda ainda, mudara por dentro. Ela abraçou-me ligeiramente constrangida, e aquilo apertou-me o coração. Teria eu que seduzi-la novamente, começar da estaca zero? Olhei-a nos olhos interrogativamente, mas ela desviou os seus. Por que então voltara? Eu estava, no mínimo, curiosa.
Não me deterei no percurso de retorno, na charrete, em que ela evitou ficar de mãos dadas comigo. Em compensação olhava de soslaio para Rôdo, que começou a exercitar o seu charme. Ah! Vocês não vão poder me excluir, nem tentem, pensava eu.
Afinal, no casarão, depois dela instalar-se no quarto de hóspedes, que estranhei, pois pensava que ela ficaria novamente no meu quarto, no mínimo como boas amigas e primas. Por que razão Dora estava me rejeitando? Isso eu iria descobrir logo. Naquela noite mesmo, invadi o seu quarto, e interroguei-a sem rodeios:
—O quê está acontecendo, Dora, por quê estás tão distante? O que lhe fiz para me tratares assim? Esqueceste do nosso pacto? Há três meses não me escreves e não me mandaste teu frasco...O que está acontecendo?
Minha prima, com seus belos olhos esquivos, levantou as palmas em minha direção num gesto inequívoco de repulsa e disse:
—Alma, não recomecemos. Aquilo tudo foi uma loucura. Não sei como conseguiste tudo aquilo de mim. Eu era muito tonta, muito infantil. Tu me seduziste, e abusaste de mim. És estranha, não sei como...
Fiquei desolada, decepcionada. Eu a seduzira? Contra a sua vontade? Ela não me amara? Não estava apaixonada por mim? Não! Havia alguma intromissão ali! Alguém fizera a sua cabeça, um psicanalista, ou um padre, talvez. Afinal ela era da parte católica, açoriana, da família de minha mãe. Saí de seu quarto em lágrimas, de dor e de revolta.
Ah! Sua pequena hipócrita, estás renegando tudo o que houve entre nós( eu pensava). Não, não te livrarás de mim tão facilmente. Conheço minha força, minha beleza. Logo estarás de joelhos diante mim. E digo mais: dentro daquele box, nuínhas as duas!
Foi um longo processo, daí por diante para reconquistar a pequena relutante, apóstata do nosso “pacto dourado”. Eu teria que usar meus mais sutis poderes de sedução. Foi aí que nasceu o meu truque (que eu iria usar tantas vezes depois, na vida) do banho de piscina, nua, de madrugada, nas claras noites de lua cheia. Eu já conhecia desde menina o poder da minha beleza. Era sempre com ela que eu podia contar, como primeiro e último recurso. Minha inteligência e meus dons de artista colaboravam, é claro, mas nada se compara à beleza, e à sensualidade de um corpo nu que se sabe belo. A visão dos meus seios brancos e de minha bunda maravilhosa, a levaria de volta àquelas tentações a que ela outrora sucumbira (por assim dizer). A mulher beijada uma vez por outra mulher, nos lábios, não se esquece jamais. Nós mulheres fomos feitas umas para as outras. Os homens são adoráveis intrusos... ou invasores. Não nos conhecem.
Na primeira noite da minha evolução natatória, ao luar, não pude concluir que ela tivesse levantado do seu leito, para olhar-me através de alguma fresta da janela, apesar das fortes e barulhentas braçadas de nadadora veloz, que dei na piscina. Tive de repetir a performance durante uma semana. Armava também pequenas armadilhas para que ela me encontrasse nua, inadvertidamente. Até que uma manhã, percebendo que ela vinha me procurar no quarto para um simples recado de Matilde, eu pus-me nua apressadamente, no box do banheiro, acocorada, iniciando um caprichado e sibilante xixi. Ela parou diante da porta aberta e titubeou, ficou corada como da primeira vez, fez menção de sair, dando-me as costas, mas voltou. Parada ali, na minha frente, olhando-me fixamente, ofegante, seu olhar afinal a traiu como a respiração. A tentação se instalara, novamente, afinal.
Minha prima, no auge de sua beleza, não mais uma menina, subitamente levantou o seu vestido e retirou-o pela cabeça, descendo a calcinha a seguir e descalçando com os pés suas sandálias. Então começou a urinar de pé, sem sequer abrir as pernas e encaminhou-se para mim, que ergui-me no box, imitando-a, enquanto dois rios desciam banhando nossas brancas, longas e belas pernas, de mulheres em plenitude que assim se encontravam sem mais falsos pudores, sem reservas novamente, como as crianças que fôramos no verão passado...
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Hoje voltei a lembrar-me de um episódio luminoso, de minha adolescência. Tal lembrança me veio, num momento íntimo, no banheiro, ao fazer xixi, voluptuosamente. A sensação de prazer com a micção e seu barulhinho sibilado, remeteu-me a uma certa passagem quando, eu tinha mais ou menos quatorze anos, e recebemos na estância uma priminha, por parte da família de minha mãe, para passar as férias conosco. Dora, a menina da mesma idade que eu, assim que chegou, mostrou-se fascinada por sua “prima alemã”, que era eu. Sendo ela morena, e linda, com duas tranças pretas, enroladas na cabeça, seu pescoço comprido como o meu, de bailarina, me atraiu, além de outros detalhes de sua beleza, como, por exemplo, o narizinho de ponta quadrada, gracioso. Mas a atração irresistível estabeleceu-se entre nós ao compartilharmos o banheiro para fazer xixi, antes de pormo-nos no leito para palrar, antes do sono, encantadas uma com a outra. Foi o seguinte:
Dora, conversando sem parar teve vontade de fazer xixi, e pondo a mão ali, em seu púbis correu de repente para o banheiro de pernas meio fechadas, com urgência de urinar. Sem pensar, eu corri atrás e quando ela abaixou a calcinha, imediatamente, como um reflexo, eu pus minha mão direita entre suas pernas antes que ela se sentasse, para colher em minha mão a sua urina quente, quase fumegante. Este ato, nos deixou perplexas as duas... e encantadas. Como explicar tal gesto... instintivo? Nunca pude compreender a mim mesma nesses impulsos, verdadeiras “pulsões” sexuais, que embora misteriosas e desconcertantes, parecem obedecer a uma lógica interior mais profunda, pois me causam imenso prazer e aceitação posterior, sem maiores conflitos (uma vez muitos anos mais tarde comentei com meu psicanalista esse episódio, e outros parecidos, e ele os classificou de urolagnia ou urofilia, uma espécie branda de perversão. Lembro-me de que já da primeira vez, imediatamente levei a mão molhada às narinas, aspirei como um perfume. A seguir, diante do olhar estupefato da guria, lambi minha mão com infinito prazer. Dora ficou muito assustada com aquilo e disse que achava que eu era louca, que aquilo era nojento. Mas a verdade, é que ela ficou fascinada e quis repetir a experiência comigo, todas as vezes que íamos ao banheiro. Eu passei, instintivamente, a influenciá-la nessa espécie estranha de prazer, e logo, ela, a princípio relutante, experimentou meu xixi, imitando-me, ainda com receio, rindo muito. Daí por diante começou a festa do xixi, para nós duas, cada vez mais ousadas. Quando tomávamos banhos juntas, ao chuveiro ou na banheira fazíamos maravilhosas variações, por exemplo, fechávamos a torneira para banharmo-nos mutuamente sob nossas pequenas duchas douradas, deliciosas, apesar de muito quentes, naquele verão do nosso “despertar dourado”, com passei a chamá-lo em código.
Naquelas férias inteiras, nós desfrutamos do prazer de nosso banho de xixi, todos os dias. Eu me punha agachada no box, para ela urinar sobre mim, da cabeça os pés. Cada vez mais ávida, eu me punha de boca aberta diante do seu esguichinho, e aproximava-me até colar meus lábios na maravilhosa “xantinha” rosada de minha prima. Eu já começava a beber a sua urina, a medida que me sentia mais e mais apaixonada. Depois, ela me imitava, com igual paixão.
Logo, como era de se esperar ( muitos anos depois eu soube), como toda parafilia isso tornou-se uma obsessão naquela temporada, e o fetichismo da urina acompanhava uma paixão crescente, que passou a adquirir um timbre doloroso, diante da perspectiva do final das férias e de nossa separação inexorável. Então fizemos um pacto.
No dia de levar minha prima à estaçãozinha de trem, nós, naquela manhã, atingimos um paroxismo urológico, que nós fez beber mutuamente todo o sumo maravilhoso, o néctar de nossas bexigas. Por minha vez, introduzi, exasperada, os dedos na sua vagina, e a seguir no seu ânus, para nosso espanto. Tal variação era novidade para nós, e tardia: não havia mais tempo pra desenvolvê-la. Sentimo-nos frustradas e... desesperadas. Choramos abraçadas durante todo o percurso até a estação, e só desgrudei dela quando o trem começou a deslocar-se comigo nos braços da minha amada. Em seguida, em prantos, na plataforma levei os dedos às narinas e senti ainda os seus cheiros, com o prêmio adicional de uma nova fragrância, a do buraquinho traseiro de minha priminha adorada.
Depois de um mês, recebi pelo correio, o primeiro frasco, lacrado, de nossa correspondência intima, cujo gargalo, eu percebi, apresentava aquele perfume adicional.
Nosso pacto dourado!
27/10/2005
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Dias gloriosos, mistérios gozosos II (O retorno de Dora)
(dos Contos Proibidos, de Alma Welt)
Um ano se passou desde as primeiras férias de Dora entre nós, na estância. Agora eu recebia a notícia de sua vinda para a temporada de Dezembro e Janeiro. Durante o ano nós trocamos nossa peculiar correspondência, os pequenos frascos com o sumo de nossas bexigas, e alguns odores extras. Fomos buscá-la, Rôdo e eu, na charrete com Galdério. Nós estávamos um ano mais velhos e eu planejava compartilhá-la com meu querido irmão para assistir e decifrar certos enigmas para mim. Eu queria ver como se processava a penetração, e antegozava a visão explícita de meu amado irmão possuindo minha priminha amada. Era só uma questão de convencer Dora, o que me parecia fácil. Talvez bastasse apenas um pedido meu. Afinal, ela achara meu irmão “lindo” à primeira vista, na temporada anterior, e só não rolara um namoro, porque meu irmão afastou-se percebendo minha atração por minha prima. Rôdo sempre foi desprendido e generoso comigo, seu verdadeiro amor, essa é que é a verdade.
Na plataforma, eu estava em grande expectativa sobre a impressão que eu teria ao rever minha prima. Estaria ela tão bonita quanto no verão passado? Teria ela mudado em relação a mim? Afinal nossa troca de frascos parara havia três meses. Eu temia que ela tivesse mudado e renegasse toda a nossa experiência, toda a nossa peculiar relação.
Quando Dora desceu, do vagão, eu senti que ela, embora mais linda ainda, mudara por dentro. Ela abraçou-me ligeiramente constrangida, e aquilo apertou-me o coração. Teria eu que seduzi-la novamente, começar da estaca zero? Olhei-a nos olhos interrogativamente, mas ela desviou os seus. Por que então voltara? Eu estava, no mínimo, curiosa.
Não me deterei no percurso de retorno, na charrete, em que ela evitou ficar de mãos dadas comigo. Em compensação olhava de soslaio para Rôdo, que começou a exercitar o seu charme. Ah! Vocês não vão poder me excluir, nem tentem, pensava eu.
Afinal, no casarão, depois dela instalar-se no quarto de hóspedes, que estranhei, pois pensava que ela ficaria novamente no meu quarto, no mínimo como boas amigas e primas. Por que razão Dora estava me rejeitando? Isso eu iria descobrir logo. Naquela noite mesmo, invadi o seu quarto, e interroguei-a sem rodeios:
—O quê está acontecendo, Dora, por quê estás tão distante? O que lhe fiz para me tratares assim? Esqueceste do nosso pacto? Há três meses não me escreves e não me mandaste teu frasco...O que está acontecendo?
Minha prima, com seus belos olhos esquivos, levantou as palmas em minha direção num gesto inequívoco de repulsa e disse:
—Alma, não recomecemos. Aquilo tudo foi uma loucura. Não sei como conseguiste tudo aquilo de mim. Eu era muito tonta, muito infantil. Tu me seduziste, e abusaste de mim. És estranha, não sei como...
Fiquei desolada, decepcionada. Eu a seduzira? Contra a sua vontade? Ela não me amara? Não estava apaixonada por mim? Não! Havia alguma intromissão ali! Alguém fizera a sua cabeça, um psicanalista, ou um padre, talvez. Afinal ela era da parte católica, açoriana, da família de minha mãe. Saí de seu quarto em lágrimas, de dor e de revolta.
Ah! Sua pequena hipócrita, estás renegando tudo o que houve entre nós( eu pensava). Não, não te livrarás de mim tão facilmente. Conheço minha força, minha beleza. Logo estarás de joelhos diante mim. E digo mais: dentro daquele box, nuínhas as duas!
Foi um longo processo, daí por diante para reconquistar a pequena relutante, apóstata do nosso “pacto dourado”. Eu teria que usar meus mais sutis poderes de sedução. Foi aí que nasceu o meu truque (que eu iria usar tantas vezes depois, na vida) do banho de piscina, nua, de madrugada, nas claras noites de lua cheia. Eu já conhecia desde menina o poder da minha beleza. Era sempre com ela que eu podia contar, como primeiro e último recurso. Minha inteligência e meus dons de artista colaboravam, é claro, mas nada se compara à beleza, e à sensualidade de um corpo nu que se sabe belo. A visão dos meus seios brancos e de minha bunda maravilhosa, a levaria de volta àquelas tentações a que ela outrora sucumbira (por assim dizer). A mulher beijada uma vez por outra mulher, nos lábios, não se esquece jamais. Nós mulheres fomos feitas umas para as outras. Os homens são adoráveis intrusos... ou invasores. Não nos conhecem.
Na primeira noite da minha evolução natatória, ao luar, não pude concluir que ela tivesse levantado do seu leito, para olhar-me através de alguma fresta da janela, apesar das fortes e barulhentas braçadas de nadadora veloz, que dei na piscina. Tive de repetir a performance durante uma semana. Armava também pequenas armadilhas para que ela me encontrasse nua, inadvertidamente. Até que uma manhã, percebendo que ela vinha me procurar no quarto para um simples recado de Matilde, eu pus-me nua apressadamente, no box do banheiro, acocorada, iniciando um caprichado e sibilante xixi. Ela parou diante da porta aberta e titubeou, ficou corada como da primeira vez, fez menção de sair, dando-me as costas, mas voltou. Parada ali, na minha frente, olhando-me fixamente, ofegante, seu olhar afinal a traiu como a respiração. A tentação se instalara, novamente, afinal.
Minha prima, no auge de sua beleza, não mais uma menina, subitamente levantou o seu vestido e retirou-o pela cabeça, descendo a calcinha a seguir e descalçando com os pés suas sandálias. Então começou a urinar de pé, sem sequer abrir as pernas e encaminhou-se para mim, que ergui-me no box, imitando-a, enquanto dois rios desciam banhando nossas brancas, longas e belas pernas, de mulheres em plenitude que assim se encontravam sem mais falsos pudores, sem reservas novamente, como as crianças que fôramos no verão passado...
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A Pianista
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Retomo a minha vida no Brasil., em meu ateliê da rua Oscar Freire. Aqui sinto-me realmente em casa. Creio que não poderia viver muito tempo longe das margens da rua Augusta, esse “rio” inglório, que, no entanto me é tão familiar, como se estivessem aqui as minhas raízes.
Um amigo gaiato, um dia, a propósito disso, disse, parodiando o postulado eclesiástico : “Ex Iardinis nulla salvis.” Fora dos Jardins não há salvação. É claro que Jardins não deve ser “Iardinis”, mas a paráfrase é cômica. Ah! Doce amigo! Ah! amigos e amigas da minha vida. Como os amo, eu, que no entanto sou tão solitária. Essa é a contradição da minha vida: não poder viver nem sem, nem com o ser humano muito perto. Tal como o alcoólatra avançado, em relação ao álcool. Remédio e veneno, ao mesmo tempo. E como amam esse veneno! Como amo o ser humano, do qual sinto que devo me defender, não ferozmente, mas suavemente... para poder continuar falando dele... e para ele, e ouvindo-o com paixão... e desconfiança.
Não quero mais envolver-me amorosamente, por um bom tempo. Se possível. Eis que toca o interfone.
–Sim, pode subir. Obrigada, seu Ermírio.( seu Ermírio é um novo porteiro, nordestino, muito simpático, que me pediu para escrever versos de cordel, o que farei, certamente. )
Abro a porta para uma moça encantadora, de olhos cor de mel, rosto como um camafeu,. cerca de 28 anos, muito branca, leitosa... e voluptuosa em sua sensualidade contida. Sim, porque essa moça é mineira, como ela se define, após cinco minutos de conversa. E... uma pianista!. Chama-se Tereza. Ela diz:
–Hesitei um pouco, Alma, em procurá-la. Estive na Alemanha, tocando. É a terra ideal da Música. Sobretudo para o piano. Fui bem acolhida. Voltando, ouvi falar muito de você, da sua arte... e da sua beleza. A semana passada fui ver a sua exposição. Assim que a vi, na galeria, Alma, quase tive medo de você, e uma enorme atração... e admiração. Eu estava no seu vernissage. Você brilhava, era uma estrela. Não ousei aproximar-me. A noite era sua e eu queria observá-la, incógnita. Foi o que fiz a noite inteira. Voltei no dia seguinte à galeria, para olhar melhor os seus quadros. Maravilhosos! E eu passei a querer vê-la em seu ateliê e ... fazê-la ouvir-me tocar, para si.
Olhei Tereza, seus olhos brilhavam, ela estava emocionada. Toquei suavemente o seu rosto. Essa moça me conquistara imediatamente. Será que foi por causa de suas homenagens à minha pessoa? Não, ela me atrairia mesmo sem isso... Esse rosto tão doce. Essa nostalgia no olhar, que parece sonhar com a terra prometida... do amor, ou da musica. Esse rosto espiritualizado, de artista. Sim, eu queria ouvi-la tocar. Imediatamente, se possível. Disse-lhe:
—Sim, quero ouvi-la tocar. Sinto-me honrada, por isso. Estou ansiosa. Quando? Quando posso ouvi-la?
Ela olhou em volta e disse: — Você não tem um piano aqui, que pena. Seria sublime, neste momento, após ter-me tocado o rosto...Mas... você não pode vir comigo agora? Venha, venha até o meu piano. Vou tocar para você, só para você.
—Sim, Tereza, deixe-me tirar esta roupa de trabalho. Estou suja de tinta. Espere um pouco.– Entrei no meu quarto e me troquei rapidamente. Percebi-me escolhendo uma bela roupa e passando um leve baton. Porque estou me enfeitando? Bem, o momento exige. É um momento precioso, de homenagem e encantamento. Merece o meu cuidado. Uma pianista... e concertista internacional! Como a minha vida é maravilhosa, por esses privilégios! Devo ser grata!
Saímos juntas e descemos no elevador, olhando-nos nos olhos em silêncio. A esta altura, sinto conhecê-la há séculos, e parece ... que ela a mim.
Entramos em seu carro e tocamos para o Jardim Europa. Paramos em frente a uma belíssima casa em estilo normando, com o telhado azul, de ardósia. Ao abrir a porta já avisto o enorme piano de cauda. Tereza encaminha-se rapidamente para ele, abre a tampa do teclado, senta-se na banqueta, mas logo levanta-se, encabulada e pergunta: —Você quer alguma coisa, Alma? Uma água, um suco, ou um café? E o que você gostaria de ouvir?
–Não, Tereza, quero somente ouvi-la. Toque... o que você escolher para mim.
Ela abaixou os olhos, pousou os dedos sobre as teclas e tocou. Tocou divinamente um prelúdio de Chopin, que eu ouvia desde a infância. Aquilo me fez dar um gemido e um soluço. As lágrimas saltaram. Tereza tocou e tocou. Deu todo um concerto para mim. Satie, Ravel, Fauré, mais Chopin, Debussy, depois Poulenc. Eu estava no céu. Quando ela parou, eu chorava tanto, que ela ficou preocupada, e levantou-se da banqueta e correu a abraçar-me.
Ficamos abraçadas muito tempo, em lágrimas, as duas. Sempre fui muito chorona. Mas de emoção, de ternura, de alegria! A arte é tudo, o amor é tudo, o resto é nada...
Afinal, com os ombros úmidos, nos desenlaçamos e olhamo-nos sorrindo, muito tempo. Tínhamos nos encontrado.
Perguntei: –Tereza, com quem você mora aqui? Essa é a casa dos seus pais?
—Não, Alma, moro aqui com o meu marido. Não uso aliança, pois modifica o peso da minha mão, ao tocar. Há quem diga que isso é um absurdo... ou o cúmulo da sutileza técnica... mas é assim, comigo. Quanto a ele, não está no momento. Ele passa o dia no Banco, ou na Bolsa de Valores. Só volta à noite. Temos o resto da tarde para nos conhecermos. Depois se você quiser ficar para jantar... meu marido, William, é americano, mas muito cortês. Certamente gostará de conhecê-la. Eu já falei de você para ele, mas ele não viu a sua exposição. Ele não tem tempo para muita coisa.. Na verdade, só para o dinheiro. Eu não me importo. Ele me deu esse maravilhoso piano e posso tocar à vontade. Ele não interfere. E ainda paga-me as passagens de avião, hotéis e tudo o mais para os meus concertos. Na verdade não posso me queixar de nada. A não ser de uma certa solidão espiritual e artística, nesta casa. Você sabe, dinheiro e arte fazem uma união espúria, mas antiga e necessária. Cresci tocando um piano de armário, na fazenda, em Minas. Mas desde que sentei frente a um Steinway negro... não posso deixar por menos. Você sabe... mas, Alma, deixe-me contar algo importante: pedi a Billy que me dê um quadro seu de presente. Um grande quadro, que já escolhi. Ele negociará com você. Não quero que ele regateie, eu morreria de vergonha. Quero que ele pague o que você pedir. Nem um tostão a menos.
—Tereza, disse eu- pressinto que será penosa essa transação. Não sou boa comerciante. Não aceito que pechinchem, nem sei cobrar bem o meu trabalho. Por isso, os marchands fazem isso por mim. Vou lhe dizer o que fazer: trocar o meu trabalho pelo seu. A minha arte pela sua. Dê-me mais um concerto como esse, e escolha o quadro que você quiser. É o mais justo... e satisfatório. E assim não meteremos dinheiro no meio desse nosso encontro tão bonito.
Tereza sorriu e segurou a minha mão. Eu senti que naquele momento eu subira ainda mais no seu conceito. Seus olhos brilhavam.
.....................................................................................
Ficamos esperando o rei Billy, bebericando. Pontual, ele chegou num carro com motorista, e com a indefectível pasta de homem de negócios. Esperávamos na sala, um pouco solenemente... e coradas. Billy olhou-nos, pousou a pasta na mesinha de centro, e trauteando uma cançoneta, estendeu-me a mão, ao mesmo tempo que me olhava e beijava sua esposa no rosto. Reparei nos traços de ave rapinante, e nos seus olhos azuis acinzentados. Não deixava de ser um belo tipo. Não como Tom Cruise, mas...
Tova então disse:
–Billy, esta é Alma, a artista de que lhe falei. Fui buscá-la no seu ateliê. Billy, Billy, você precisa ver o seu ateliê, que lindo, que quadros! Por falar nisso, já escolhi o quadro que quero. E você não precisa se preocupar. Já me entendi com Alma quanto ao pagamento.
Billy ficou de olho parado. Olhou-a e a mim, por um momento, depois disse, com aquele sotaque carregadíssimo dos americanos:
–Bem, Tereza, posso saber os termos dessa transação? Sim porque ainda não fui informado do preço da obra, formas de pagamento, descontos, e tudo o mais, não é mesmo? Mas não falemos disso agora. Vamos jantar primeiro. Alma, você vai experimentar a minha receita de hamburguer. Você vai gostar. Acomode-se. Tereza, mande servir o jantar – disse ele, conduzindo-nos para a mesa.
O repasto transcorreu agradavelmente, em termos, pois o Billy era reticente e irônico. Tinha um olhar de raposa e estava louco para me espicaçar. Como sempre faço nessas situações, desarmo meu oponente reunindo toda candura de que posso dispor, e adiciono uma pitada de ambigüidade. Os predadores se desnorteiam. Já não sabem se sou uma ingênua total ou uma irônica mais sutil que eles. Sempre dá resultado.
Mas, o Billy sentindo em mim uma presa difícil, ficou mais instigado ainda. Como bom banqueiro fora do expediente, resolveu tentar me comprar, só por dever de ofício... e para comprovar sua visão do mundo que se resumia numa única premissa: Todo mundo tem seu preço... e só os loucos não podem ser comprados. Tive pena da pobre Tereza, que eu agora percebia prisioneira de uma armadilha configurada por um grande Steinway negro, e um estoque inesgotável de partituras, além, é claro, de contratos com teatros e salas de concerto famosos, no mundo todo. Olhei Tereza, e ela sorria tristemente... a bela refém da arte, suave lírio de Minas.
Alma—disse Billy —O que você faz para viver? Me desculpe perguntar. Sim porque é impossível viver de arte, mormente neste país. Veja Tereza, tem meu patrocínio, naturalmente. Claro que ela merece tudo isso. É uma grande pianista, como você, provavelmente, já pôde perceber. Mas e você, Alma, já tem algum patrocinador? Pode-se ir muito longe com isso. Você sabe, os artistas precisam de partituras e pianos, de tintas e de telas, não é mesmo? Tenho muito afeto por vocês artistas e até os invejo, um pouco. Vocês criam, não é mesmo? Vocês têm esse dom. Nós, homens de negócios, só transformamos, ou transferimos. Nada criamos, na verdade. Vocês têm o sopro divino. Ninguém pode tirar isso de vocês. Mas, sem um bom empurrão, o boneco de Deus pode permanecer imóvel, paralisado. É preciso pegar no tranco, como diz o povo, não é mesmo? O que quer você , Alma, da vida? Fale-me de você.
–Billy – disse eu- da vida eu quero a Vida, a Arte e a Natureza. “O amor que move o sol e as estrelas.” E como já tenho tudo isso, nada mais quero, que ambição, deslocada, se não é pecado, é defeito de caráter, não é mesmo?
—Não, não é mesmo, Alma. Nunca ouvi falar que ambição fosse defeito de caráter. Meus pais eram bons puritanos e cresci ouvindo deles: “Billy você não tem ambição o bastante, Billy. Você precisa tê-la em dobro, menino. Não se pode crescer, não se vai longe sem ambição, Billy. Essa lição, afinal me serviu e... veja onde estou. Tenho o meu próprio império e até mesmo minha própria pianista, não é mesmo, Tereza? No bom sentido, naturalmente. Note que pus no mesmo pé, o império e a pianista, e sua música. É motivo de orgulho, claro, ter-me casado com Tereza e... ela não pode se queixar de falta de incentivo, não é mesmo, Tetê?
Tereza permanecia calada, com um sorriso triste, meio constrangido até, percebendo, provavelmente, o equívoco de um combate assim entre dois contendores com armas tão diferentes. Eu descortinava naquele momento, toda a história patética e melancólica, da pequena prisioneira na torre do grão-duque, que passava o dia a cantar, ou melhor, a tocar seu instrumento, na esperança do cavaleiro andante passar embaixo, no sopé da torre, para começar a verdadeira vida, do amor, senão da arte. Meu coração encheu-se de compaixão pela bela princesinha, e eu quis por um momento, não ser mulher e artista, mas um cavaleiro armado da cabeça aos pés. Por empatia, imediatamente me senti muito próxima de Tereza e resolvida a salvá-la por amor. Sempre fui doida. Respondi a Billy, em lugar dela:
–Billy, creio que Tereza deve estar muito contente com o seu patrocínio e até mesmo grata, não é mesmo? A gratidão é a virtude dos nobres. Quem disse isso? Bem, não importa. Mas você conhece a fábula do lobo e do cachorro. Aquela, da marca da coleira. Pois é, também não vem ao caso — (eu, de repente, me arrependi do que estava falando. Eu certamente estaria magoando a pobre Tereza. Eu não deveria subestimá-la para defender-me de Billy. Isso não seria bonito ou válido. No entanto continuei):– Bem, devo ser uma loba sarnenta, não é mesmo? É tarde demais para ser um pastor alemão. Mas, falemos de Arte: Tereza tocou divinamente, hoje. Senti-me muito honrada, com um concerto completo só para mim. Jamais podia esperar uma coisa dessa em minha vida. Por isso quero trocar a minha maior e melhor tela por um novo concerto, já que o de hoje me foi ofertado de graça. Não sou tão generosa quanto ela, pois se o fosse já lhe teria ofertado também uma tela.
Tereza ficou um tanto espantada e confusa, mas abriu afinal a boca, já que esteve calada o tempo todo até agora.
—Alma, Billy, parem com isso! Vocês estão duelando há quase uma hora. Nunca vi coisa igual. E o pior é que me elegeram para pivô dessa discussão velada. Não concordo nem com um nem com outro. Não vejo as coisas assim... Mas confesso que estou perturbada com esse diálogo de vocês. Não quero que nada perturbe a torre de marfim que construí para poder exercer a minha arte. A música para mim é tudo. Eis a questão. Os mestres precisam ser celebrados. Nós, músicos, somos seus sacerdotes, apenas isso. Devemos cultuá-los, para que não morram nunca. Para que sua música não morra. Veja o que aconteceu aos antigos deuses. Os homens deixaram de cultuá-los, eles não morreram mas adoeceram e se transformaram em neuroses. As doenças do espírito. Não é isso que Jung dizia? Mais ou menos isso, me parece. Sou uma sacerdotisa da Música, se não uma Vestal dos grandes Mestres porque durmo com o Billy. O resto não me interessa. Mas agradeço o seu carinho, Alma, e o seu “patrocínio”, senhor meu marido. Agora vamos à sobremesa, que está divina. Comamos e bebamos, que amanhã, talvez morramos. Lembram-se da cantata Carmina Burana?
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Depois de ter sido levada até o meu prédio por Billy e Tetê, e me despedido deles como novos amigos, fui deitar-me. Mas somente depois de digerir com a mente os acontecimentos e diálogos, pude afinal conciliar o sono, murmurando Tereza...Tetê...
Acordei com uma sensação de fome, e instintivamente levei a mão ao pescoço. Sorri aliviada e fui fazer o café, para em seguida poder começar a pintar.
Depois de uma hora de trabalho, o telefone toca. É Tetê, com sua voz macia, sussurrante, que pergunta-me se passei bem a noite. Diz que quer ver-me hoje, se possível. Digo a ela que hoje não posso, pois tenho que terminar umas telas encomendadas, mas que a sua encaminharei para sua casa brevemente. Vou cuidar da embalagem e do despacho, o frete será pago pelo banqueiro, certamente. Tereza pareceu ficar um pouco frustrada. Pelo jeito quer mesmo ver-me ainda hoje. Digo então, que venha ao meu ateliê no fim da tarde, assim não perderia o dia de trabalho.
Passo um dia maravilhoso, pintando ao som das minhas árias favoritas das óperas que amo. Parei de pintar com o Lamento de Federico, da L’arlesiana de Francesco Cilea (è la solita storia del pastore ...) que me confrange o coração com uma estranha nostalgia. Começo a chorar copiosamente. Isso me acontece freqüentemente. Choro demais, de comoção, com a beleza, com a poesia, com o sentimento do mundo, do amor. E sinto uma dor profunda pelo sentimento do belo. Por que sou assim, por que a vida me dói, suavemente, sobretudo pela sua beleza? Uma saudade, uma nostalgia de não sei quê, rege minha vida. Será de vidas e amores passados? Certamente que sim. Ai, quanta dor, quantas perdas, quanta beleza fruída... e perdida. Nesses momentos queria também morrer, não de qualquer desespero, mas de suave tristeza, “malinconia”.
Afinal, no fim da tarde, tendo o dia rendido boas pinceladas e um satisfatório avanço nas telas começadas, toca o interfone, e, atendendo, mando subir minha nova amiga. Percebo, com certa surpresa, meu coração bater mais forte , quando abro a porta para recebê-la.
Tereza entra, suave, deslizando... Abraçamo-nos e reparo na sua boquinha de lábios túmidos, sensuais. Não resisto, beijo-a nos lábios. Ela sorri e retribui. Em seguida atraio-a com meus lábios, rodando as duas pelo ateliê numa estranha valsa, até a porta do quarto.
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De repente tive vontade de rir, pensando em Billy. Ele não poderia comprar-nos. O que tínhamos uma com a outra, ele jamais poderia ter. Era também inexprimível. Nada comparável a uma relação homem-mulher, mas muito mais sutil e profunda.
Eu sentia agora que deveria reinvindicar essa jovem, como minha. Seria mais belo, e também mais divertido. Eu iria disputá-la com Billy. Diria a ele:
“–Billy, sua mulher agora me pertence. Ela não quer mais a sua coleira, eu a retirei, e agora ela passeia livre pelo meu atelier. Ali não há um Steinway negro, mas ela dedilha meu corpo como uma virtuose, e a musica escorre”. Ai, que fantasia imaginar-me dizendo isso ao banqueiro!...
Não, não direi nada. A hora é de ação. Firmar o meu domínio pela minha sensualidade. Deixar que ele veja com os seus, o mel dos olhos de sua mulher sobre esta pintora aqui. Ah! Como tudo isso me diverte. Não! Como tudo isso me entusiasma! Nunca antes senti a dubiedade de um amor assim...
Olhei novamente Tereza nos olhos e certifiquei-me de que eu não me iludia. O mel de seus olhos realmente escorria. Essa moça me amava. Ela estava apaixonada como eu. Derrubaríamos o Banco.
.....................................................................................
Tereza não voltou para casa. Permaneceu vivendo comigo por dois anos Circulávamos nos “meios”, incomodando os escribas e os fariseus. Inseparáveis, nos vernissages, nos concertos e nas festas. Acompanhava-a também, nos seus concertos, em geral beneficentes. Por alguma razão as portas dos grandes teatros e salas de concerto estavam agora fechadas para ela. Claro que nós sabíamos por quê. Além disso não havia mais Steinway negro, senão seu velho piano de estante, que era o que cabia em meu ateliê. Ainda assim eu continuava consciente do grande privilégio de ter essa maravilhosa pianista tocando enquanto eu pintava. Eu a amava e era feliz. No entanto, o primeiro ano foi de guerra psicológica por parte de Billy. Chegou a ameaçar-me, mas envergonhou-se logo. Suas armas eram eficazes em relação aos homens, nunca contra uma mulher como eu. Sentiu-se impotente depois de várias tentativas, súplicas, ameaças, vociferações, vergonhas, tentativas de suborno. Sobretudo isso. Até chegar na indefectível “proposta indecente”:
–Alma, quero fazer-lhe uma oferta. Dou-lhe 1 milhão de reais se você me devolver Tereza, e mais 1 milhão, se vocês vierem juntas para mim. Que tal? É irrecusável!
Apreciei o seu cinismo. Respondi-lhe:
–Billy, posso responder por mim, não por Tereza. Comigo ela é livre, pode escolher. Por mim a resposta é não. Você já leu a fábula, já sabe. Mas, realmente não posso responder por Tereza. Se ela quiser voltar para você, nada poderei fazer. Não faço uso do poder. Tetê começa a se sentir triste longe do seu piano. Na verdade não poderei retê-la por mais muito tempo. Eu a vejo chorar, às escondidas, à noite. E se ouvimos música em rádio ou em CD, ela soluça de cortar o coração. Ela precisa tocar o seu piano, ou vai fenecer. Precisa também daquelas grandes platéias. Já não posso satisfazê-la, apesar de nos amarmos tanto. Se você disser a palavra certa, se tocar o seu coração, ela irá com você. Mas lembre-se: Tereza é uma jóia rara. Você tem de respeitá-la, acima de tudo. E servi-la, sim . Servi-la. Pois ela é uma princesa da música, essa é a pura verdade.
Billy olhou-me longamente, e percebi-o, pela primeira vez, comovido. Senti que esse americano durão, esse homem de negócios, fora atingido. Estava derrotado. Paradoxalmente, poderia agora conquistar sua vitória.
Com certa humildade, afinal, agradeceu-me, beijando-me o rosto, coisa inusual entre esses yanques. Toquei minha face com a mão, onde ele a beijara, e senti que eu, afinal, perdera Tereza.
Naquela noite, Tetê fez a sua mala. Abraçamo-nos em lágrimas e levei-a até o Billy que a esperava na portaria. Eles partiram sem nenhuma palavra mais entre nós três. Tudo já fora dito.
Tudo já fora sentido. Por um momento, Tereza me pareceu uma menininha buscada pelo seu pai, um pouco envergonhada. Mas eu sabia que seu piano a esperava e também as salas de concerto do mundo.
FIM
Retomo a minha vida no Brasil., em meu ateliê da rua Oscar Freire. Aqui sinto-me realmente em casa. Creio que não poderia viver muito tempo longe das margens da rua Augusta, esse “rio” inglório, que, no entanto me é tão familiar, como se estivessem aqui as minhas raízes.
Um amigo gaiato, um dia, a propósito disso, disse, parodiando o postulado eclesiástico : “Ex Iardinis nulla salvis.” Fora dos Jardins não há salvação. É claro que Jardins não deve ser “Iardinis”, mas a paráfrase é cômica. Ah! Doce amigo! Ah! amigos e amigas da minha vida. Como os amo, eu, que no entanto sou tão solitária. Essa é a contradição da minha vida: não poder viver nem sem, nem com o ser humano muito perto. Tal como o alcoólatra avançado, em relação ao álcool. Remédio e veneno, ao mesmo tempo. E como amam esse veneno! Como amo o ser humano, do qual sinto que devo me defender, não ferozmente, mas suavemente... para poder continuar falando dele... e para ele, e ouvindo-o com paixão... e desconfiança.
Não quero mais envolver-me amorosamente, por um bom tempo. Se possível. Eis que toca o interfone.
–Sim, pode subir. Obrigada, seu Ermírio.( seu Ermírio é um novo porteiro, nordestino, muito simpático, que me pediu para escrever versos de cordel, o que farei, certamente. )
Abro a porta para uma moça encantadora, de olhos cor de mel, rosto como um camafeu,. cerca de 28 anos, muito branca, leitosa... e voluptuosa em sua sensualidade contida. Sim, porque essa moça é mineira, como ela se define, após cinco minutos de conversa. E... uma pianista!. Chama-se Tereza. Ela diz:
–Hesitei um pouco, Alma, em procurá-la. Estive na Alemanha, tocando. É a terra ideal da Música. Sobretudo para o piano. Fui bem acolhida. Voltando, ouvi falar muito de você, da sua arte... e da sua beleza. A semana passada fui ver a sua exposição. Assim que a vi, na galeria, Alma, quase tive medo de você, e uma enorme atração... e admiração. Eu estava no seu vernissage. Você brilhava, era uma estrela. Não ousei aproximar-me. A noite era sua e eu queria observá-la, incógnita. Foi o que fiz a noite inteira. Voltei no dia seguinte à galeria, para olhar melhor os seus quadros. Maravilhosos! E eu passei a querer vê-la em seu ateliê e ... fazê-la ouvir-me tocar, para si.
Olhei Tereza, seus olhos brilhavam, ela estava emocionada. Toquei suavemente o seu rosto. Essa moça me conquistara imediatamente. Será que foi por causa de suas homenagens à minha pessoa? Não, ela me atrairia mesmo sem isso... Esse rosto tão doce. Essa nostalgia no olhar, que parece sonhar com a terra prometida... do amor, ou da musica. Esse rosto espiritualizado, de artista. Sim, eu queria ouvi-la tocar. Imediatamente, se possível. Disse-lhe:
—Sim, quero ouvi-la tocar. Sinto-me honrada, por isso. Estou ansiosa. Quando? Quando posso ouvi-la?
Ela olhou em volta e disse: — Você não tem um piano aqui, que pena. Seria sublime, neste momento, após ter-me tocado o rosto...Mas... você não pode vir comigo agora? Venha, venha até o meu piano. Vou tocar para você, só para você.
—Sim, Tereza, deixe-me tirar esta roupa de trabalho. Estou suja de tinta. Espere um pouco.– Entrei no meu quarto e me troquei rapidamente. Percebi-me escolhendo uma bela roupa e passando um leve baton. Porque estou me enfeitando? Bem, o momento exige. É um momento precioso, de homenagem e encantamento. Merece o meu cuidado. Uma pianista... e concertista internacional! Como a minha vida é maravilhosa, por esses privilégios! Devo ser grata!
Saímos juntas e descemos no elevador, olhando-nos nos olhos em silêncio. A esta altura, sinto conhecê-la há séculos, e parece ... que ela a mim.
Entramos em seu carro e tocamos para o Jardim Europa. Paramos em frente a uma belíssima casa em estilo normando, com o telhado azul, de ardósia. Ao abrir a porta já avisto o enorme piano de cauda. Tereza encaminha-se rapidamente para ele, abre a tampa do teclado, senta-se na banqueta, mas logo levanta-se, encabulada e pergunta: —Você quer alguma coisa, Alma? Uma água, um suco, ou um café? E o que você gostaria de ouvir?
–Não, Tereza, quero somente ouvi-la. Toque... o que você escolher para mim.
Ela abaixou os olhos, pousou os dedos sobre as teclas e tocou. Tocou divinamente um prelúdio de Chopin, que eu ouvia desde a infância. Aquilo me fez dar um gemido e um soluço. As lágrimas saltaram. Tereza tocou e tocou. Deu todo um concerto para mim. Satie, Ravel, Fauré, mais Chopin, Debussy, depois Poulenc. Eu estava no céu. Quando ela parou, eu chorava tanto, que ela ficou preocupada, e levantou-se da banqueta e correu a abraçar-me.
Ficamos abraçadas muito tempo, em lágrimas, as duas. Sempre fui muito chorona. Mas de emoção, de ternura, de alegria! A arte é tudo, o amor é tudo, o resto é nada...
Afinal, com os ombros úmidos, nos desenlaçamos e olhamo-nos sorrindo, muito tempo. Tínhamos nos encontrado.
Perguntei: –Tereza, com quem você mora aqui? Essa é a casa dos seus pais?
—Não, Alma, moro aqui com o meu marido. Não uso aliança, pois modifica o peso da minha mão, ao tocar. Há quem diga que isso é um absurdo... ou o cúmulo da sutileza técnica... mas é assim, comigo. Quanto a ele, não está no momento. Ele passa o dia no Banco, ou na Bolsa de Valores. Só volta à noite. Temos o resto da tarde para nos conhecermos. Depois se você quiser ficar para jantar... meu marido, William, é americano, mas muito cortês. Certamente gostará de conhecê-la. Eu já falei de você para ele, mas ele não viu a sua exposição. Ele não tem tempo para muita coisa.. Na verdade, só para o dinheiro. Eu não me importo. Ele me deu esse maravilhoso piano e posso tocar à vontade. Ele não interfere. E ainda paga-me as passagens de avião, hotéis e tudo o mais para os meus concertos. Na verdade não posso me queixar de nada. A não ser de uma certa solidão espiritual e artística, nesta casa. Você sabe, dinheiro e arte fazem uma união espúria, mas antiga e necessária. Cresci tocando um piano de armário, na fazenda, em Minas. Mas desde que sentei frente a um Steinway negro... não posso deixar por menos. Você sabe... mas, Alma, deixe-me contar algo importante: pedi a Billy que me dê um quadro seu de presente. Um grande quadro, que já escolhi. Ele negociará com você. Não quero que ele regateie, eu morreria de vergonha. Quero que ele pague o que você pedir. Nem um tostão a menos.
—Tereza, disse eu- pressinto que será penosa essa transação. Não sou boa comerciante. Não aceito que pechinchem, nem sei cobrar bem o meu trabalho. Por isso, os marchands fazem isso por mim. Vou lhe dizer o que fazer: trocar o meu trabalho pelo seu. A minha arte pela sua. Dê-me mais um concerto como esse, e escolha o quadro que você quiser. É o mais justo... e satisfatório. E assim não meteremos dinheiro no meio desse nosso encontro tão bonito.
Tereza sorriu e segurou a minha mão. Eu senti que naquele momento eu subira ainda mais no seu conceito. Seus olhos brilhavam.
.....................................................................................
Ficamos esperando o rei Billy, bebericando. Pontual, ele chegou num carro com motorista, e com a indefectível pasta de homem de negócios. Esperávamos na sala, um pouco solenemente... e coradas. Billy olhou-nos, pousou a pasta na mesinha de centro, e trauteando uma cançoneta, estendeu-me a mão, ao mesmo tempo que me olhava e beijava sua esposa no rosto. Reparei nos traços de ave rapinante, e nos seus olhos azuis acinzentados. Não deixava de ser um belo tipo. Não como Tom Cruise, mas...
Tova então disse:
–Billy, esta é Alma, a artista de que lhe falei. Fui buscá-la no seu ateliê. Billy, Billy, você precisa ver o seu ateliê, que lindo, que quadros! Por falar nisso, já escolhi o quadro que quero. E você não precisa se preocupar. Já me entendi com Alma quanto ao pagamento.
Billy ficou de olho parado. Olhou-a e a mim, por um momento, depois disse, com aquele sotaque carregadíssimo dos americanos:
–Bem, Tereza, posso saber os termos dessa transação? Sim porque ainda não fui informado do preço da obra, formas de pagamento, descontos, e tudo o mais, não é mesmo? Mas não falemos disso agora. Vamos jantar primeiro. Alma, você vai experimentar a minha receita de hamburguer. Você vai gostar. Acomode-se. Tereza, mande servir o jantar – disse ele, conduzindo-nos para a mesa.
O repasto transcorreu agradavelmente, em termos, pois o Billy era reticente e irônico. Tinha um olhar de raposa e estava louco para me espicaçar. Como sempre faço nessas situações, desarmo meu oponente reunindo toda candura de que posso dispor, e adiciono uma pitada de ambigüidade. Os predadores se desnorteiam. Já não sabem se sou uma ingênua total ou uma irônica mais sutil que eles. Sempre dá resultado.
Mas, o Billy sentindo em mim uma presa difícil, ficou mais instigado ainda. Como bom banqueiro fora do expediente, resolveu tentar me comprar, só por dever de ofício... e para comprovar sua visão do mundo que se resumia numa única premissa: Todo mundo tem seu preço... e só os loucos não podem ser comprados. Tive pena da pobre Tereza, que eu agora percebia prisioneira de uma armadilha configurada por um grande Steinway negro, e um estoque inesgotável de partituras, além, é claro, de contratos com teatros e salas de concerto famosos, no mundo todo. Olhei Tereza, e ela sorria tristemente... a bela refém da arte, suave lírio de Minas.
Alma—disse Billy —O que você faz para viver? Me desculpe perguntar. Sim porque é impossível viver de arte, mormente neste país. Veja Tereza, tem meu patrocínio, naturalmente. Claro que ela merece tudo isso. É uma grande pianista, como você, provavelmente, já pôde perceber. Mas e você, Alma, já tem algum patrocinador? Pode-se ir muito longe com isso. Você sabe, os artistas precisam de partituras e pianos, de tintas e de telas, não é mesmo? Tenho muito afeto por vocês artistas e até os invejo, um pouco. Vocês criam, não é mesmo? Vocês têm esse dom. Nós, homens de negócios, só transformamos, ou transferimos. Nada criamos, na verdade. Vocês têm o sopro divino. Ninguém pode tirar isso de vocês. Mas, sem um bom empurrão, o boneco de Deus pode permanecer imóvel, paralisado. É preciso pegar no tranco, como diz o povo, não é mesmo? O que quer você , Alma, da vida? Fale-me de você.
–Billy – disse eu- da vida eu quero a Vida, a Arte e a Natureza. “O amor que move o sol e as estrelas.” E como já tenho tudo isso, nada mais quero, que ambição, deslocada, se não é pecado, é defeito de caráter, não é mesmo?
—Não, não é mesmo, Alma. Nunca ouvi falar que ambição fosse defeito de caráter. Meus pais eram bons puritanos e cresci ouvindo deles: “Billy você não tem ambição o bastante, Billy. Você precisa tê-la em dobro, menino. Não se pode crescer, não se vai longe sem ambição, Billy. Essa lição, afinal me serviu e... veja onde estou. Tenho o meu próprio império e até mesmo minha própria pianista, não é mesmo, Tereza? No bom sentido, naturalmente. Note que pus no mesmo pé, o império e a pianista, e sua música. É motivo de orgulho, claro, ter-me casado com Tereza e... ela não pode se queixar de falta de incentivo, não é mesmo, Tetê?
Tereza permanecia calada, com um sorriso triste, meio constrangido até, percebendo, provavelmente, o equívoco de um combate assim entre dois contendores com armas tão diferentes. Eu descortinava naquele momento, toda a história patética e melancólica, da pequena prisioneira na torre do grão-duque, que passava o dia a cantar, ou melhor, a tocar seu instrumento, na esperança do cavaleiro andante passar embaixo, no sopé da torre, para começar a verdadeira vida, do amor, senão da arte. Meu coração encheu-se de compaixão pela bela princesinha, e eu quis por um momento, não ser mulher e artista, mas um cavaleiro armado da cabeça aos pés. Por empatia, imediatamente me senti muito próxima de Tereza e resolvida a salvá-la por amor. Sempre fui doida. Respondi a Billy, em lugar dela:
–Billy, creio que Tereza deve estar muito contente com o seu patrocínio e até mesmo grata, não é mesmo? A gratidão é a virtude dos nobres. Quem disse isso? Bem, não importa. Mas você conhece a fábula do lobo e do cachorro. Aquela, da marca da coleira. Pois é, também não vem ao caso — (eu, de repente, me arrependi do que estava falando. Eu certamente estaria magoando a pobre Tereza. Eu não deveria subestimá-la para defender-me de Billy. Isso não seria bonito ou válido. No entanto continuei):– Bem, devo ser uma loba sarnenta, não é mesmo? É tarde demais para ser um pastor alemão. Mas, falemos de Arte: Tereza tocou divinamente, hoje. Senti-me muito honrada, com um concerto completo só para mim. Jamais podia esperar uma coisa dessa em minha vida. Por isso quero trocar a minha maior e melhor tela por um novo concerto, já que o de hoje me foi ofertado de graça. Não sou tão generosa quanto ela, pois se o fosse já lhe teria ofertado também uma tela.
Tereza ficou um tanto espantada e confusa, mas abriu afinal a boca, já que esteve calada o tempo todo até agora.
—Alma, Billy, parem com isso! Vocês estão duelando há quase uma hora. Nunca vi coisa igual. E o pior é que me elegeram para pivô dessa discussão velada. Não concordo nem com um nem com outro. Não vejo as coisas assim... Mas confesso que estou perturbada com esse diálogo de vocês. Não quero que nada perturbe a torre de marfim que construí para poder exercer a minha arte. A música para mim é tudo. Eis a questão. Os mestres precisam ser celebrados. Nós, músicos, somos seus sacerdotes, apenas isso. Devemos cultuá-los, para que não morram nunca. Para que sua música não morra. Veja o que aconteceu aos antigos deuses. Os homens deixaram de cultuá-los, eles não morreram mas adoeceram e se transformaram em neuroses. As doenças do espírito. Não é isso que Jung dizia? Mais ou menos isso, me parece. Sou uma sacerdotisa da Música, se não uma Vestal dos grandes Mestres porque durmo com o Billy. O resto não me interessa. Mas agradeço o seu carinho, Alma, e o seu “patrocínio”, senhor meu marido. Agora vamos à sobremesa, que está divina. Comamos e bebamos, que amanhã, talvez morramos. Lembram-se da cantata Carmina Burana?
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Depois de ter sido levada até o meu prédio por Billy e Tetê, e me despedido deles como novos amigos, fui deitar-me. Mas somente depois de digerir com a mente os acontecimentos e diálogos, pude afinal conciliar o sono, murmurando Tereza...Tetê...
Acordei com uma sensação de fome, e instintivamente levei a mão ao pescoço. Sorri aliviada e fui fazer o café, para em seguida poder começar a pintar.
Depois de uma hora de trabalho, o telefone toca. É Tetê, com sua voz macia, sussurrante, que pergunta-me se passei bem a noite. Diz que quer ver-me hoje, se possível. Digo a ela que hoje não posso, pois tenho que terminar umas telas encomendadas, mas que a sua encaminharei para sua casa brevemente. Vou cuidar da embalagem e do despacho, o frete será pago pelo banqueiro, certamente. Tereza pareceu ficar um pouco frustrada. Pelo jeito quer mesmo ver-me ainda hoje. Digo então, que venha ao meu ateliê no fim da tarde, assim não perderia o dia de trabalho.
Passo um dia maravilhoso, pintando ao som das minhas árias favoritas das óperas que amo. Parei de pintar com o Lamento de Federico, da L’arlesiana de Francesco Cilea (è la solita storia del pastore ...) que me confrange o coração com uma estranha nostalgia. Começo a chorar copiosamente. Isso me acontece freqüentemente. Choro demais, de comoção, com a beleza, com a poesia, com o sentimento do mundo, do amor. E sinto uma dor profunda pelo sentimento do belo. Por que sou assim, por que a vida me dói, suavemente, sobretudo pela sua beleza? Uma saudade, uma nostalgia de não sei quê, rege minha vida. Será de vidas e amores passados? Certamente que sim. Ai, quanta dor, quantas perdas, quanta beleza fruída... e perdida. Nesses momentos queria também morrer, não de qualquer desespero, mas de suave tristeza, “malinconia”.
Afinal, no fim da tarde, tendo o dia rendido boas pinceladas e um satisfatório avanço nas telas começadas, toca o interfone, e, atendendo, mando subir minha nova amiga. Percebo, com certa surpresa, meu coração bater mais forte , quando abro a porta para recebê-la.
Tereza entra, suave, deslizando... Abraçamo-nos e reparo na sua boquinha de lábios túmidos, sensuais. Não resisto, beijo-a nos lábios. Ela sorri e retribui. Em seguida atraio-a com meus lábios, rodando as duas pelo ateliê numa estranha valsa, até a porta do quarto.
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De repente tive vontade de rir, pensando em Billy. Ele não poderia comprar-nos. O que tínhamos uma com a outra, ele jamais poderia ter. Era também inexprimível. Nada comparável a uma relação homem-mulher, mas muito mais sutil e profunda.
Eu sentia agora que deveria reinvindicar essa jovem, como minha. Seria mais belo, e também mais divertido. Eu iria disputá-la com Billy. Diria a ele:
“–Billy, sua mulher agora me pertence. Ela não quer mais a sua coleira, eu a retirei, e agora ela passeia livre pelo meu atelier. Ali não há um Steinway negro, mas ela dedilha meu corpo como uma virtuose, e a musica escorre”. Ai, que fantasia imaginar-me dizendo isso ao banqueiro!...
Não, não direi nada. A hora é de ação. Firmar o meu domínio pela minha sensualidade. Deixar que ele veja com os seus, o mel dos olhos de sua mulher sobre esta pintora aqui. Ah! Como tudo isso me diverte. Não! Como tudo isso me entusiasma! Nunca antes senti a dubiedade de um amor assim...
Olhei novamente Tereza nos olhos e certifiquei-me de que eu não me iludia. O mel de seus olhos realmente escorria. Essa moça me amava. Ela estava apaixonada como eu. Derrubaríamos o Banco.
.....................................................................................
Tereza não voltou para casa. Permaneceu vivendo comigo por dois anos Circulávamos nos “meios”, incomodando os escribas e os fariseus. Inseparáveis, nos vernissages, nos concertos e nas festas. Acompanhava-a também, nos seus concertos, em geral beneficentes. Por alguma razão as portas dos grandes teatros e salas de concerto estavam agora fechadas para ela. Claro que nós sabíamos por quê. Além disso não havia mais Steinway negro, senão seu velho piano de estante, que era o que cabia em meu ateliê. Ainda assim eu continuava consciente do grande privilégio de ter essa maravilhosa pianista tocando enquanto eu pintava. Eu a amava e era feliz. No entanto, o primeiro ano foi de guerra psicológica por parte de Billy. Chegou a ameaçar-me, mas envergonhou-se logo. Suas armas eram eficazes em relação aos homens, nunca contra uma mulher como eu. Sentiu-se impotente depois de várias tentativas, súplicas, ameaças, vociferações, vergonhas, tentativas de suborno. Sobretudo isso. Até chegar na indefectível “proposta indecente”:
–Alma, quero fazer-lhe uma oferta. Dou-lhe 1 milhão de reais se você me devolver Tereza, e mais 1 milhão, se vocês vierem juntas para mim. Que tal? É irrecusável!
Apreciei o seu cinismo. Respondi-lhe:
–Billy, posso responder por mim, não por Tereza. Comigo ela é livre, pode escolher. Por mim a resposta é não. Você já leu a fábula, já sabe. Mas, realmente não posso responder por Tereza. Se ela quiser voltar para você, nada poderei fazer. Não faço uso do poder. Tetê começa a se sentir triste longe do seu piano. Na verdade não poderei retê-la por mais muito tempo. Eu a vejo chorar, às escondidas, à noite. E se ouvimos música em rádio ou em CD, ela soluça de cortar o coração. Ela precisa tocar o seu piano, ou vai fenecer. Precisa também daquelas grandes platéias. Já não posso satisfazê-la, apesar de nos amarmos tanto. Se você disser a palavra certa, se tocar o seu coração, ela irá com você. Mas lembre-se: Tereza é uma jóia rara. Você tem de respeitá-la, acima de tudo. E servi-la, sim . Servi-la. Pois ela é uma princesa da música, essa é a pura verdade.
Billy olhou-me longamente, e percebi-o, pela primeira vez, comovido. Senti que esse americano durão, esse homem de negócios, fora atingido. Estava derrotado. Paradoxalmente, poderia agora conquistar sua vitória.
Com certa humildade, afinal, agradeceu-me, beijando-me o rosto, coisa inusual entre esses yanques. Toquei minha face com a mão, onde ele a beijara, e senti que eu, afinal, perdera Tereza.
Naquela noite, Tetê fez a sua mala. Abraçamo-nos em lágrimas e levei-a até o Billy que a esperava na portaria. Eles partiram sem nenhuma palavra mais entre nós três. Tudo já fora dito.
Tudo já fora sentido. Por um momento, Tereza me pareceu uma menininha buscada pelo seu pai, um pouco envergonhada. Mas eu sabia que seu piano a esperava e também as salas de concerto do mundo.
FIM
A pintora pinta
A pintora pinta
Ainda sou jovem.. Reconheço meu próprio talento e sou grata por isso. No entanto, a solidão me pesa como um fardo inexplicável sob o qual me debato.
Alguém disse que “uma mulher bonita é a namorada lésbica de si mesma”. Não sei... Não sou suficientemente narcisista. Ou, talvez, minha auto-estima ande meio baixa. Mas, basta de considerações ociosas. Limitar-me-ei, se possível, a narrar os acontecimentos daquele dia, que marcaram para sempre a minha vida, senão a minha arte.
Visto-me caprichosamente após o banho demorado, que encheu de vapor todo meu ateliê, deixando minhas telas com um aspecto flou e suave, emergindo de brumas que lhes caem tão bem.
Sinto uma estranha volúpia em pentear-me e vestir-me cercada por esta neblina propiciatória de não sei o quê, que se prepara em meu destino.
Eu que não gosto de enfeites, hoje, me enfeito e coloco brincos nos buraquinhos quase fechados dos lóbulos de minhas orelhas delicadas. Por que digo isso? Estou ficando vaidosa... Até agora só me interessavam as projeções externas de minha personalidade, isto é, meus quadros, única beleza a espelhar minha alma feminina. Anima Mundi, vocês sabem...
Saio, afinal, trancando a porta do meu querido ateliê, meu porto seguro, qualquer que seja o resultado dessa excursão ao mundo exterior.
Este pensamento me acalma. Afinal, sou um pouco insegura e tímida por me sentir muito vulnerável, num certo sentido.
Alguém também disse que as mulheres pertencem a duas estirpes distintas. As filhas de Eva e as filhas de Lilith. Estas últimas são as mulheres fatais, as vamps, as destruidoras pelas quais os homens se apaixonam com resultados desastrosos. Meu irmão mais moço, ele próprio vítima de uma delas, disse-me ainda jovem, quase adolescente, numa espantosa intuição, algo que me fez pensar: “As mulheres não gostam verdadeiramente de sexo. Só o fazem por amor ou por dinheiro”. Tanto cinismo e desencanto num jovem!... No entanto, ele acertou, não em cheio, creio, mas pela metade. Certamente existem aquelas que amam o sexo pelo sexo. Filhas de Eva Sublevada. Mas, ah!, estas são as grandes perseguidas. Temidas pelos homens, freqüentemente estigmatizadas e tantas vezes destruídas. Cá estou eu, novamente, filosofando...
Como dizia, bem, não pertenço certamente à estirpe maldita de Lilith, embora também não consiga me imaginar companheira ou servidora de um homem. Todavia, ocorrem-me sonhos durante à noite, de estranha sujeição erótica, de penetração e doce repleção, às raias do aniquilamento prazeroso, se posso dizer assim. Sim, uma voluptuosa dissipação da minha vontade, numa entrega tão profunda que me faz acordar molhada, surpresa e confusa. Serei eu assim? Quem é essa mulher em quem me transfiguro em meus sonhos, quase tão estranha para mim como a minha própria e sempre surpreendente imagem no espelho? E quem são esses homens sem rosto em meus agradáveis e perturbadores delírios?
Com esses pensamentos, dirijo-me à galeria de arte que me foi recomendada por uma vizinha, senhora mais velha que nela trabalha como gerente. Essa senhora me encontra no elevador e corteja-me com um vago tom nostálgico, como se olhasse na tela de seu próprio passado, com carinho e ternura meio melancólicos. Bem, vamos em frente...
Chego à galeria num momento embaraçoso para a minha amiga. O marchand, com voz áspera, discute com ela num tom contido, mas agressivo, que funciona como um látego, pareceu-me.
Tremendamente embaraçada, sirvo para interromper a constrangedora contenda, separando os dois oponentes. Ela se dirige a mim com os olhos cheios d’água, tão magoada que logo suspeitei uma paixão oculta.
—“ Esse homem é um cavalo!”, desabafou ela num soluço.
Beijei-a no rosto, abracei-a, consolando-a sem palavras, consternada, seguindo com o rabo dos olhos o patrão que se afastava aborrecido por ter sido flagrado em crueldade. Estremeci, observando-lhe o andar felino, a silhueta elegante, máscula, um pouco sinistra com seus óculos escuros, que lhe davam, juntamente com seu terno italiano, o aspecto de um glamuroso gangster de cinema, enquanto ele entrava e sumia em seu escritório.
Minha amiga desculpou-se pela situação, envergonhada pelas lágrimas que lhe borravam a maquiagem e pediu licença para retocá-la no toalete. Deixou-me sozinha na galeria subitamente deserta, para meu alívio, pois podia agora admirar os quadros do acervo, expostos.
Demorei-me em frente de um maravilhoso Portinari: Futebol dos meninos de Brodowski, hoje numa famosa coleção particular. Estava encantada com a predominância dos terras, do tom avermelhado do solo da região do pintor, quando ouvi atrás de mim a voz do marchand, italianada, mas macia e aveludada, estranhamente gentil e sedutora, em contraste com a cena que eu presenciara ao entrar. Perguntava-me o que eu mais apreciava naquela pintura e logo pondo-se ao meu lado passou a mão sensualmente na superfície do quadro, descrevendo-o com sugestivas e singelas metáforas. Reparei nas suas mãos grandes e fortes, mais de artista do que de comerciante, antes de ousar olhá-lo nos olhos. Quando o fiz, senti imediatamente o impacto da doce perdição que me aguardava, através dos olhos negros, másculos e penetrantes debaixo das grossas sobrancelhas de italiano das montanhas, raça de pastores dos Abruzzi. O nariz romano antigo, como uma águia, capturava junto com os olhos tudo ao seu redor. Grande e inato predador em eterna auto-contenção. Esse era o seu dilema. Um homem forte e violento que queria ser bom a todo o custo, domando-se a si mesmo.
Fui envolvida pelo arsenal de suas palavras, olhares e gestos que me amoleceram, embalaram, cativaram. Estava perdida desde então.
Fui convidada a jantar em sua casa aquela noite. Ele adorava cozinhar como bom italiano, e prepararia algo especial para celebrar o nosso conhecimento e depois me mostraria sua coleção particular de obras de arte, da qual falou lindamente, com amor e admiração pelos pintores. Calei-me quanto a minha condição de pintora profissional, mas novata. Estava deslumbrada com a consideração que aquele homem importante e experiente me dispensava. Eu não levava em conta, então, por ingenuidade, acreditem, minha feminilidade e beleza. Pensava em mim, sobretudo, como artista, louca ambição desde minha infância solitária.
Minha amiga saiu, afinal, do toalete e surpresa nos encontrou embevecidos, olhos nos olhos, já em silêncio cúmplice, não sabíamos de quê. Só lhe restava retirar-se, já que era quase fim do expediente, o que fez sem despedir-se, confusa, pareceu-me. Não havia lugar para mais nada nem ninguém a partir daquele momento.
A paixão nos tomara. Começariam o êxtase e os tormentos que a acompanham. Não podia mais me refugiar no meu ateliê. Disse-lhe que o encontraria em sua casa, cujo endereço me deu por escrito, mas saindo com esforço, fui fazer hora numa casa de chá próxima, cismando e sonhando como uma sonâmbula diurna. Não me lembro do que pedi, nem quanto tempo se passou. Solicitei, afinal, a conta a um garçom encantado que me olhava com curiosidade e saindo dirigi-me para casa do “meu” marchand, que me esperava em pleno preparo de um maravilhoso jantar, cheio de sutilezas e iguarias, na mais autêntica tradição rural de sua região de montanhas.
Recebeu-me na cozinha e logo dispensou seu empregado que me abrira a porta. Notei este fato que me pareceu natural e que já não mais podia me assustar, desde que ele mantivesse aquela doçura surgida em nosso encontro. Era um perfeito cavalheiro. Mais do que isso era já um homem apaixonado, eu sentia. Só nos restava trilhar a estrada de enlevo e prazeres que se nos oferecia a partir do nosso encontro providencial.
O jantar transcorreu cheio de encantamento, mas eu reparava menos na comida e no vinho maravilhoso do que nos seus olhos, sua voz e suas palavras. Eu estava inebriada. Não podia conceber tantos prazeres simultâneos.
Ao terminar o vinho, perdoem-me o romantismo, eu queria docemente morrer em seus braços. Mas sabia que isso tudo era somente o prólogo, isto é, o jantar, e que a sobremesa era certamente eu mesma.
Essa idéia me fez sorrir deliciada, mesmo antes dele afastar a toalha com pratos e tudo até a metade da mesa e, num gesto súbito, agarrando-me pela cintura alçar-me sobre esta parte descoberta da mesa, quase derrubando os candelabros de velas acesas que nos iluminava e escondia em sombras instigantes. Eu estava agradavelmente surpresa, sem susto, como se aquilo fosse esperado após tal jantar. Levantou-me a comprida saia indiana que eu usava, fina sobre a pele, arrancou-me a calcinha e levantando minhas pernas sobre a mesa abriu-as sem que eu ousasse resistir. Oh! Doce estupro consentido. Oh! Querida dor tão longamente acalentada em meus sonhos. Eu estava no paraíso e minha virgindade, acreditem, era oferecida no altar adequado à nossa luxúria e sofisticação: a mesa da cozinha de um repasto celestial.
Após um tempo infinito de dores e sublime prazer, saiu de dentro de mim, manchado de meu sangue que escorria da borda da mesa entre minhas pernas para o chão de ladrilhos. Estava enternecido como eu com este sangue e sugestivamente degustou o fim de sua taça de vinho tinto com um olhar de pura malícia inocente.
Nós teríamos a noite toda em sua cama para tingir os lençóis inteiramente com este vinho da nossa paixão. Acordaríamos nus e manchados nos braços um do outro. Nos banharíamos, em seguida, juntos, na banheira e ele me lavaria como um bebê, suavemente, encantadoramente. Depois, trocamos os lençóis para voltar para a cama, pois ele queria trazer-me o café da manhã de sua especialidade. Desconfiei, então, de tanta harmonia, de tanto savoir faire. Bem, afinal, ele era um homem experiente. Melhor não pensar nisso...
Permanecemos naquela cama por três dias e três noites inteiros. Eu me sentia parir ao contrário, introjetando uma criança, um homem, um deus. Entusiasmo!
Após esse tempo, no amanhecer do quarto dia anunciou-me pesaroso e constrangido sua partida para Roma, a negócios, com sua ex-mulher italiana, mãe de seus filhos. Não poderia levar-me, mas propunha-se a pagar minha passagem no mesmo vôo, se possível, desde que disfarçássemos até lá chegar e instalar-me num hotel, esperando suas visitas. Aquilo causou-me confusão e mal-estar. Não esperava por isso. Vi-me subitamente como a “outra”, vislumbrava um futuro angustiante, de esperas e clandestinidade. Não estava preparada para tão grande decepção. Pus-me subitamente furiosa, gritei, esmurrei-lhe o peito e fui humilhantemente calada por uma nova penetração, que me causou doída satisfação e embaraço. Nada podia fazer. Era impotente perante o destino, e o destino era aquele homem. Aquietei-me, temerosa de mim mesma: eu me desconhecia. Segurei-o dentro de mim com uma misteriosa sucção que ele, surpreso, notou. Tentou desprender-se rindo, acabamos gargalhando juntos, interrompidos por nossos beijos sufocantes, avassaladores.
Depois, vestimo-nos e fui levada de carro até a porta do meu prédio, onde o porteiro atrevidamente perguntou-me se eu tinha viajado, e onde estava a minha bagagem. Não dei, naturalmente, nenhuma satisfação, entrei no elevador e subi para o meu refúgio traído, meu doce ateliê, fiel e acolhedor, para toda uma vida.
Ao entrar deparei com a tabuleta por mim pregada no corredor junto à porta, com a inscrição do primeiro dos dez mandamentos do Pintor, de Salvador Dali:
“Pintor, pinta”!
Sorri melancolicamente consolada e preparei-me para enfrentar uma grande tela em branco.
Ainda sou jovem.. Reconheço meu próprio talento e sou grata por isso. No entanto, a solidão me pesa como um fardo inexplicável sob o qual me debato.
Alguém disse que “uma mulher bonita é a namorada lésbica de si mesma”. Não sei... Não sou suficientemente narcisista. Ou, talvez, minha auto-estima ande meio baixa. Mas, basta de considerações ociosas. Limitar-me-ei, se possível, a narrar os acontecimentos daquele dia, que marcaram para sempre a minha vida, senão a minha arte.
Visto-me caprichosamente após o banho demorado, que encheu de vapor todo meu ateliê, deixando minhas telas com um aspecto flou e suave, emergindo de brumas que lhes caem tão bem.
Sinto uma estranha volúpia em pentear-me e vestir-me cercada por esta neblina propiciatória de não sei o quê, que se prepara em meu destino.
Eu que não gosto de enfeites, hoje, me enfeito e coloco brincos nos buraquinhos quase fechados dos lóbulos de minhas orelhas delicadas. Por que digo isso? Estou ficando vaidosa... Até agora só me interessavam as projeções externas de minha personalidade, isto é, meus quadros, única beleza a espelhar minha alma feminina. Anima Mundi, vocês sabem...
Saio, afinal, trancando a porta do meu querido ateliê, meu porto seguro, qualquer que seja o resultado dessa excursão ao mundo exterior.
Este pensamento me acalma. Afinal, sou um pouco insegura e tímida por me sentir muito vulnerável, num certo sentido.
Alguém também disse que as mulheres pertencem a duas estirpes distintas. As filhas de Eva e as filhas de Lilith. Estas últimas são as mulheres fatais, as vamps, as destruidoras pelas quais os homens se apaixonam com resultados desastrosos. Meu irmão mais moço, ele próprio vítima de uma delas, disse-me ainda jovem, quase adolescente, numa espantosa intuição, algo que me fez pensar: “As mulheres não gostam verdadeiramente de sexo. Só o fazem por amor ou por dinheiro”. Tanto cinismo e desencanto num jovem!... No entanto, ele acertou, não em cheio, creio, mas pela metade. Certamente existem aquelas que amam o sexo pelo sexo. Filhas de Eva Sublevada. Mas, ah!, estas são as grandes perseguidas. Temidas pelos homens, freqüentemente estigmatizadas e tantas vezes destruídas. Cá estou eu, novamente, filosofando...
Como dizia, bem, não pertenço certamente à estirpe maldita de Lilith, embora também não consiga me imaginar companheira ou servidora de um homem. Todavia, ocorrem-me sonhos durante à noite, de estranha sujeição erótica, de penetração e doce repleção, às raias do aniquilamento prazeroso, se posso dizer assim. Sim, uma voluptuosa dissipação da minha vontade, numa entrega tão profunda que me faz acordar molhada, surpresa e confusa. Serei eu assim? Quem é essa mulher em quem me transfiguro em meus sonhos, quase tão estranha para mim como a minha própria e sempre surpreendente imagem no espelho? E quem são esses homens sem rosto em meus agradáveis e perturbadores delírios?
Com esses pensamentos, dirijo-me à galeria de arte que me foi recomendada por uma vizinha, senhora mais velha que nela trabalha como gerente. Essa senhora me encontra no elevador e corteja-me com um vago tom nostálgico, como se olhasse na tela de seu próprio passado, com carinho e ternura meio melancólicos. Bem, vamos em frente...
Chego à galeria num momento embaraçoso para a minha amiga. O marchand, com voz áspera, discute com ela num tom contido, mas agressivo, que funciona como um látego, pareceu-me.
Tremendamente embaraçada, sirvo para interromper a constrangedora contenda, separando os dois oponentes. Ela se dirige a mim com os olhos cheios d’água, tão magoada que logo suspeitei uma paixão oculta.
—“ Esse homem é um cavalo!”, desabafou ela num soluço.
Beijei-a no rosto, abracei-a, consolando-a sem palavras, consternada, seguindo com o rabo dos olhos o patrão que se afastava aborrecido por ter sido flagrado em crueldade. Estremeci, observando-lhe o andar felino, a silhueta elegante, máscula, um pouco sinistra com seus óculos escuros, que lhe davam, juntamente com seu terno italiano, o aspecto de um glamuroso gangster de cinema, enquanto ele entrava e sumia em seu escritório.
Minha amiga desculpou-se pela situação, envergonhada pelas lágrimas que lhe borravam a maquiagem e pediu licença para retocá-la no toalete. Deixou-me sozinha na galeria subitamente deserta, para meu alívio, pois podia agora admirar os quadros do acervo, expostos.
Demorei-me em frente de um maravilhoso Portinari: Futebol dos meninos de Brodowski, hoje numa famosa coleção particular. Estava encantada com a predominância dos terras, do tom avermelhado do solo da região do pintor, quando ouvi atrás de mim a voz do marchand, italianada, mas macia e aveludada, estranhamente gentil e sedutora, em contraste com a cena que eu presenciara ao entrar. Perguntava-me o que eu mais apreciava naquela pintura e logo pondo-se ao meu lado passou a mão sensualmente na superfície do quadro, descrevendo-o com sugestivas e singelas metáforas. Reparei nas suas mãos grandes e fortes, mais de artista do que de comerciante, antes de ousar olhá-lo nos olhos. Quando o fiz, senti imediatamente o impacto da doce perdição que me aguardava, através dos olhos negros, másculos e penetrantes debaixo das grossas sobrancelhas de italiano das montanhas, raça de pastores dos Abruzzi. O nariz romano antigo, como uma águia, capturava junto com os olhos tudo ao seu redor. Grande e inato predador em eterna auto-contenção. Esse era o seu dilema. Um homem forte e violento que queria ser bom a todo o custo, domando-se a si mesmo.
Fui envolvida pelo arsenal de suas palavras, olhares e gestos que me amoleceram, embalaram, cativaram. Estava perdida desde então.
Fui convidada a jantar em sua casa aquela noite. Ele adorava cozinhar como bom italiano, e prepararia algo especial para celebrar o nosso conhecimento e depois me mostraria sua coleção particular de obras de arte, da qual falou lindamente, com amor e admiração pelos pintores. Calei-me quanto a minha condição de pintora profissional, mas novata. Estava deslumbrada com a consideração que aquele homem importante e experiente me dispensava. Eu não levava em conta, então, por ingenuidade, acreditem, minha feminilidade e beleza. Pensava em mim, sobretudo, como artista, louca ambição desde minha infância solitária.
Minha amiga saiu, afinal, do toalete e surpresa nos encontrou embevecidos, olhos nos olhos, já em silêncio cúmplice, não sabíamos de quê. Só lhe restava retirar-se, já que era quase fim do expediente, o que fez sem despedir-se, confusa, pareceu-me. Não havia lugar para mais nada nem ninguém a partir daquele momento.
A paixão nos tomara. Começariam o êxtase e os tormentos que a acompanham. Não podia mais me refugiar no meu ateliê. Disse-lhe que o encontraria em sua casa, cujo endereço me deu por escrito, mas saindo com esforço, fui fazer hora numa casa de chá próxima, cismando e sonhando como uma sonâmbula diurna. Não me lembro do que pedi, nem quanto tempo se passou. Solicitei, afinal, a conta a um garçom encantado que me olhava com curiosidade e saindo dirigi-me para casa do “meu” marchand, que me esperava em pleno preparo de um maravilhoso jantar, cheio de sutilezas e iguarias, na mais autêntica tradição rural de sua região de montanhas.
Recebeu-me na cozinha e logo dispensou seu empregado que me abrira a porta. Notei este fato que me pareceu natural e que já não mais podia me assustar, desde que ele mantivesse aquela doçura surgida em nosso encontro. Era um perfeito cavalheiro. Mais do que isso era já um homem apaixonado, eu sentia. Só nos restava trilhar a estrada de enlevo e prazeres que se nos oferecia a partir do nosso encontro providencial.
O jantar transcorreu cheio de encantamento, mas eu reparava menos na comida e no vinho maravilhoso do que nos seus olhos, sua voz e suas palavras. Eu estava inebriada. Não podia conceber tantos prazeres simultâneos.
Ao terminar o vinho, perdoem-me o romantismo, eu queria docemente morrer em seus braços. Mas sabia que isso tudo era somente o prólogo, isto é, o jantar, e que a sobremesa era certamente eu mesma.
Essa idéia me fez sorrir deliciada, mesmo antes dele afastar a toalha com pratos e tudo até a metade da mesa e, num gesto súbito, agarrando-me pela cintura alçar-me sobre esta parte descoberta da mesa, quase derrubando os candelabros de velas acesas que nos iluminava e escondia em sombras instigantes. Eu estava agradavelmente surpresa, sem susto, como se aquilo fosse esperado após tal jantar. Levantou-me a comprida saia indiana que eu usava, fina sobre a pele, arrancou-me a calcinha e levantando minhas pernas sobre a mesa abriu-as sem que eu ousasse resistir. Oh! Doce estupro consentido. Oh! Querida dor tão longamente acalentada em meus sonhos. Eu estava no paraíso e minha virgindade, acreditem, era oferecida no altar adequado à nossa luxúria e sofisticação: a mesa da cozinha de um repasto celestial.
Após um tempo infinito de dores e sublime prazer, saiu de dentro de mim, manchado de meu sangue que escorria da borda da mesa entre minhas pernas para o chão de ladrilhos. Estava enternecido como eu com este sangue e sugestivamente degustou o fim de sua taça de vinho tinto com um olhar de pura malícia inocente.
Nós teríamos a noite toda em sua cama para tingir os lençóis inteiramente com este vinho da nossa paixão. Acordaríamos nus e manchados nos braços um do outro. Nos banharíamos, em seguida, juntos, na banheira e ele me lavaria como um bebê, suavemente, encantadoramente. Depois, trocamos os lençóis para voltar para a cama, pois ele queria trazer-me o café da manhã de sua especialidade. Desconfiei, então, de tanta harmonia, de tanto savoir faire. Bem, afinal, ele era um homem experiente. Melhor não pensar nisso...
Permanecemos naquela cama por três dias e três noites inteiros. Eu me sentia parir ao contrário, introjetando uma criança, um homem, um deus. Entusiasmo!
Após esse tempo, no amanhecer do quarto dia anunciou-me pesaroso e constrangido sua partida para Roma, a negócios, com sua ex-mulher italiana, mãe de seus filhos. Não poderia levar-me, mas propunha-se a pagar minha passagem no mesmo vôo, se possível, desde que disfarçássemos até lá chegar e instalar-me num hotel, esperando suas visitas. Aquilo causou-me confusão e mal-estar. Não esperava por isso. Vi-me subitamente como a “outra”, vislumbrava um futuro angustiante, de esperas e clandestinidade. Não estava preparada para tão grande decepção. Pus-me subitamente furiosa, gritei, esmurrei-lhe o peito e fui humilhantemente calada por uma nova penetração, que me causou doída satisfação e embaraço. Nada podia fazer. Era impotente perante o destino, e o destino era aquele homem. Aquietei-me, temerosa de mim mesma: eu me desconhecia. Segurei-o dentro de mim com uma misteriosa sucção que ele, surpreso, notou. Tentou desprender-se rindo, acabamos gargalhando juntos, interrompidos por nossos beijos sufocantes, avassaladores.
Depois, vestimo-nos e fui levada de carro até a porta do meu prédio, onde o porteiro atrevidamente perguntou-me se eu tinha viajado, e onde estava a minha bagagem. Não dei, naturalmente, nenhuma satisfação, entrei no elevador e subi para o meu refúgio traído, meu doce ateliê, fiel e acolhedor, para toda uma vida.
Ao entrar deparei com a tabuleta por mim pregada no corredor junto à porta, com a inscrição do primeiro dos dez mandamentos do Pintor, de Salvador Dali:
“Pintor, pinta”!
Sorri melancolicamente consolada e preparei-me para enfrentar uma grande tela em branco.
A preceptora
(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Preciso contar a vocês, meus leitores, um episódio de minha adolescência, na estância. Tenho hesitado muito em contar este episódio, por motivos que eu mesma não compreendo bem, já que venho revelando nestas narrativas “secretas”, o mais recôndito de minha vida... e de minha alma, de uma maneira, espero, sincera, e não despudorada.
Eu tinha quinze anos, e minha beleza estava no auge, a tal ponto que a mim mesma me espantava... e comovia, como artista nata, que sempre fui. Por esse motivo, eu era homenageada por todos de minha casa, a exceção de Solange, claro, minha irmã mais velha, e talvez de minha própria mãe, que via esse fato, ao que parece, com temor e desconfiança. O certo é que minha mãe, percebendo o teor particularmente sensual da minha beleza juvenil, resolveu tirar-me da escola, pois descobriu que eu corria perigo diante de mim mesma e dos alunos adolescentes, que me assediavam. Resolveu então, que eu passaria a receber aulas particulares, na grande sala da nossa estância, de uma professora que ela contratou e que chamava, de uma maneira um tanto antiga, de “preceptora”.
Essa moça, de uns trinta e poucos anos, morena, magra, de rosto triste, sério, de cabelos presos e roupa sóbria como uma freira, inspiraria confiança em minha mãe. Começaram as aulas, tudo corria normalmente, e dona Luciana era uma excelente professora de diversas matérias, como matemática, geometria, física, etc. Quanto ao português e história, parecia-me que eu já sabia mais do que ela.
O fato é que dona Luciana, cujo semblante fechado, neutro, a princípio não atraía ninguém, foi-se abrindo, ao longo das nossas aulas, e passou a sorrir e a demonstrar um tom crescente de afetividade, até atingir aquilo que chamamos carinho. Ah! Vocês já podem prever o que aconteceu? Claro, vocês já me conhecem. Sim, eu sem querer, ou querendo sem saber, seduzia gradativamente a minha preceptora.
O primeiro sintoma do meu sucesso, foi o pedido que Luciana fez à minha mãe, para transferirmos as aulas para a mansarda do casarão, onde teríamos mais silêncio e concentração para as aulas, já que o salão era constantemente invadido por empregadas, irmãos e empregados da vinha procurando por meu pai, trazendo-lhe problemas, o que dispersava a nossa atenção.
Montamos a nossa sala de aula no sótão, aposento acolhedor, intimista, e com minúscula janela. Eu já percebia o timbre subrreptício dessas manobras, mas, como sempre, sendo da minha mais profunda natureza aliar candura à lucidez, ironia à inocência, deixava-me levar por suas iniciativas, com minha falsa passividade de sempre. Luciana estava cada vez mais apaixonada por mim, essa era a verdade visível a olho nu, pelo menos por mim. Essa moça conseguiria disfarçar isso por muito tempo? Eu me perguntava.
Uma tarde, Luciana, enquanto eu escrevia, fingindo-me concentrada, tamborilava os dedos levemente na mesa, denunciando uma certa tensão. Seu olhar fixo sobre mim, começou a parecer com o de uma ave rapinante, e... ela levantou-se afinal, caminhando decididamente em minha direção. Ergui os olhos, assustada realmente, como se ela fosse bater-me, quando agarrou-me pelos ombros, ergueu-me da carteira, e olhando-me fixamente nos olhos, exclamou:
–Não agüento mais, Alma, eu te amo, guria! Eu te amo! Estou apaixonada por ti!
E beijou-me súbita e ardentemente os lábios. Longamente. Eu permaneci passivamente, de pé, tendo meus lábios sugados, mordidos, por essa boca que percebi bela, também, surpreendentemente doce. Ela não tardou a enfiar sua língua em minha boca, para colher minha saliva, sugar o meu hálito, com uma sede infinita, antiga, que agora finalmente saciava.
Em seguida, empurrou-me para o pequeno catre que havia ali, atrás de um biombo chinês, esdrúxulo, herança da avó Morgado. Aquilo sempre estivera ali, e eu já o conhecia... com Rôdo. Ah! Se minha mãe soubesse! Luciana praticamente jogou-me sobre o catre e começou a despir-me, murmurando:
–“Alma, Alminha, deixa-me ver-te. Deixe-me ver a tua beleza. Essa pele, branca como um lírio. Quero ver-te uma vez, e depois posso até .. morrer. Mostra-me, Alma, mostra-me teu corpo!” – ela começou, imprudentemente, a arrebentar botões, a despojar-me de maneira afoita, do meu vestido. Deixei-a fazer o que quis. Logo eu estava nua, deitada à sua frente, largada, a olhá-la com um olhar que eu mesma gostaria de ver. Mais tarde ela me diria que os meus olhos verdes pareciam os de uma gata, nada inocentes, perigosos, e que brilhavam demais na semi-penunbra daquele canto do sótão. Ela então, arrancou seu próprio vestido, expondo a sua magreza tocante, seu corpo carente, sua fome de amor e carinho visível em seus ossos, em suas costelas, seus joelhos ossudos, suas mãos magras e nervosas, que pareciam renascer para as carícias. Essa mulher desabrochava diante dos meus olhos, suas formas agudas, quebradas, se abrandavam, e eu pude imaginá-la mais roliça, mais cheia e mais feliz. Deixei a sua boca e suas mãos ávidas percorrerem-me toda. Deixei que sua saliva me banhasse, como uma vaca à sua bezerra. Ela me banharia inteira, colocando-me até de bruço, para lamber-me por trás...e atrás. Deixei-a fazer tudo o que quis, gemendo... as duas.
Eu sentia que nutria seu corpo maltratado tanto tempo por ela mesma, ou pelo mundo. Eu sentia, por instinto, que podia assim, com minha volúpia, meu prazer, minha passividade ativa, transformar essa lagarta numa borboleta deslumbrante. Eu sentia o meu poder de jovem ninfa. E jamais me esqueceria... ou me arrependeria desses momentos.
Acariciei-a, então, mais ativamente, seu rosto, seus pequenos seios tardios, virgens, que tremiam, e que eu faria desabrochar.
Ela, a minha preceptora, chorava diante mim, como uma aluna, comovida e grata... para sempre.
Preciso contar a vocês, meus leitores, um episódio de minha adolescência, na estância. Tenho hesitado muito em contar este episódio, por motivos que eu mesma não compreendo bem, já que venho revelando nestas narrativas “secretas”, o mais recôndito de minha vida... e de minha alma, de uma maneira, espero, sincera, e não despudorada.
Eu tinha quinze anos, e minha beleza estava no auge, a tal ponto que a mim mesma me espantava... e comovia, como artista nata, que sempre fui. Por esse motivo, eu era homenageada por todos de minha casa, a exceção de Solange, claro, minha irmã mais velha, e talvez de minha própria mãe, que via esse fato, ao que parece, com temor e desconfiança. O certo é que minha mãe, percebendo o teor particularmente sensual da minha beleza juvenil, resolveu tirar-me da escola, pois descobriu que eu corria perigo diante de mim mesma e dos alunos adolescentes, que me assediavam. Resolveu então, que eu passaria a receber aulas particulares, na grande sala da nossa estância, de uma professora que ela contratou e que chamava, de uma maneira um tanto antiga, de “preceptora”.
Essa moça, de uns trinta e poucos anos, morena, magra, de rosto triste, sério, de cabelos presos e roupa sóbria como uma freira, inspiraria confiança em minha mãe. Começaram as aulas, tudo corria normalmente, e dona Luciana era uma excelente professora de diversas matérias, como matemática, geometria, física, etc. Quanto ao português e história, parecia-me que eu já sabia mais do que ela.
O fato é que dona Luciana, cujo semblante fechado, neutro, a princípio não atraía ninguém, foi-se abrindo, ao longo das nossas aulas, e passou a sorrir e a demonstrar um tom crescente de afetividade, até atingir aquilo que chamamos carinho. Ah! Vocês já podem prever o que aconteceu? Claro, vocês já me conhecem. Sim, eu sem querer, ou querendo sem saber, seduzia gradativamente a minha preceptora.
O primeiro sintoma do meu sucesso, foi o pedido que Luciana fez à minha mãe, para transferirmos as aulas para a mansarda do casarão, onde teríamos mais silêncio e concentração para as aulas, já que o salão era constantemente invadido por empregadas, irmãos e empregados da vinha procurando por meu pai, trazendo-lhe problemas, o que dispersava a nossa atenção.
Montamos a nossa sala de aula no sótão, aposento acolhedor, intimista, e com minúscula janela. Eu já percebia o timbre subrreptício dessas manobras, mas, como sempre, sendo da minha mais profunda natureza aliar candura à lucidez, ironia à inocência, deixava-me levar por suas iniciativas, com minha falsa passividade de sempre. Luciana estava cada vez mais apaixonada por mim, essa era a verdade visível a olho nu, pelo menos por mim. Essa moça conseguiria disfarçar isso por muito tempo? Eu me perguntava.
Uma tarde, Luciana, enquanto eu escrevia, fingindo-me concentrada, tamborilava os dedos levemente na mesa, denunciando uma certa tensão. Seu olhar fixo sobre mim, começou a parecer com o de uma ave rapinante, e... ela levantou-se afinal, caminhando decididamente em minha direção. Ergui os olhos, assustada realmente, como se ela fosse bater-me, quando agarrou-me pelos ombros, ergueu-me da carteira, e olhando-me fixamente nos olhos, exclamou:
–Não agüento mais, Alma, eu te amo, guria! Eu te amo! Estou apaixonada por ti!
E beijou-me súbita e ardentemente os lábios. Longamente. Eu permaneci passivamente, de pé, tendo meus lábios sugados, mordidos, por essa boca que percebi bela, também, surpreendentemente doce. Ela não tardou a enfiar sua língua em minha boca, para colher minha saliva, sugar o meu hálito, com uma sede infinita, antiga, que agora finalmente saciava.
Em seguida, empurrou-me para o pequeno catre que havia ali, atrás de um biombo chinês, esdrúxulo, herança da avó Morgado. Aquilo sempre estivera ali, e eu já o conhecia... com Rôdo. Ah! Se minha mãe soubesse! Luciana praticamente jogou-me sobre o catre e começou a despir-me, murmurando:
–“Alma, Alminha, deixa-me ver-te. Deixe-me ver a tua beleza. Essa pele, branca como um lírio. Quero ver-te uma vez, e depois posso até .. morrer. Mostra-me, Alma, mostra-me teu corpo!” – ela começou, imprudentemente, a arrebentar botões, a despojar-me de maneira afoita, do meu vestido. Deixei-a fazer o que quis. Logo eu estava nua, deitada à sua frente, largada, a olhá-la com um olhar que eu mesma gostaria de ver. Mais tarde ela me diria que os meus olhos verdes pareciam os de uma gata, nada inocentes, perigosos, e que brilhavam demais na semi-penunbra daquele canto do sótão. Ela então, arrancou seu próprio vestido, expondo a sua magreza tocante, seu corpo carente, sua fome de amor e carinho visível em seus ossos, em suas costelas, seus joelhos ossudos, suas mãos magras e nervosas, que pareciam renascer para as carícias. Essa mulher desabrochava diante dos meus olhos, suas formas agudas, quebradas, se abrandavam, e eu pude imaginá-la mais roliça, mais cheia e mais feliz. Deixei a sua boca e suas mãos ávidas percorrerem-me toda. Deixei que sua saliva me banhasse, como uma vaca à sua bezerra. Ela me banharia inteira, colocando-me até de bruço, para lamber-me por trás...e atrás. Deixei-a fazer tudo o que quis, gemendo... as duas.
Eu sentia que nutria seu corpo maltratado tanto tempo por ela mesma, ou pelo mundo. Eu sentia, por instinto, que podia assim, com minha volúpia, meu prazer, minha passividade ativa, transformar essa lagarta numa borboleta deslumbrante. Eu sentia o meu poder de jovem ninfa. E jamais me esqueceria... ou me arrependeria desses momentos.
Acariciei-a, então, mais ativamente, seu rosto, seus pequenos seios tardios, virgens, que tremiam, e que eu faria desabrochar.
Ela, a minha preceptora, chorava diante mim, como uma aluna, comovida e grata... para sempre.
Lea Leandro
(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Uma das mais inusitadas aventuras da minha vida (vocês, leitores já perceberam como ela é rica, em acontecimentos intrigantes) começou surpreendentemente, numa manhã de domingo, na Avenida Paulista, onde às vezes costumo passear, ou ir ao MASP, para visitar o próprio museu, e também confesso, a feirinha de antiguidades, que fica no chamado vão livre.
Andava eu distraída pela calçada, prazerosamente, aproveitando o sol de inverno, da linda manhã de frio seco, quando fui esbarrada e senti uma mão feminina no meu braço, puxando-me. Assustadíssima, levei uns segundos para entender o que se passava, pois me ocorrera, é claro, tratar-se de um assalto, ou um “trombadinha”. Entretanto vi-me frente a uma encantadora figura de garota, de delicada feminilidade, razoavelmente bem vestida (talvez com roupas um tanto justas) que, com lindos olhos assustados, me pedia socorro, baixinho, sussurrante, olhando para os lados. Pensei, imediatamente nalgum tipo de golpe, eu estava mais assustada ainda. Mas logo a moça fez-me entender que estava sendo perseguida por um ex-namorado. E que pedia minha proteção, por eu ser uma pessoa distinta, que o intimidaria. Em resumo, ele não se atreveria a se aproximar. Deixei que ela enfiasse o seu braço no meu e fomos andando apressadamente, olhando para os lados, temerosas.
Descemos a escada para o subsolo e fomos direto para o Degas, o restaurante do museu onde pegamos uma mesa, e sentadas, pude conferir o belo rosto, da guria encantadora, que eu tinha à minha frente.
Ela estendeu-me a mão por cima da mesa, uma bela mão com unhas longas, tratadas, e apresentou-se com um sorriso lindo, mostrando os dentes magníficos, fortes:
—Prazer, meu nome é Lea. Lea Leandro— disse ela com macia voz ligeiramente grave— Estou muito grata a você. Sabe, você é maravilhosa! A mulher mais bonita que eu jamais vi. Posso ser sua amiga? Olhe, não tenha mais medo não, meu-ex não ousaria vir aqui. Nós despistamos ele. Graças a você. Você é maravilhosa, sabia ?– ela repetiu.
—O prazer é meu, Lea – disse eu, retribuindo o sorriso.– Principalmente agora que o susto já passou. Sabe, quase desmaiei, pensei estar sendo assaltada. Tu não imaginas o que me passou na cabeça em um segundo. Mas agora, estou aliviada olhando um rosto como o teu, que me parece honesto, e... encantador.
Lea, deu uma gargalhadinha, soergueu-se por cima da mesa, e beijou-me a face, decidida, mas delicadamente. Fiquei encantada, um pouco surpresa, com essa demonstração tão espontânea de carinho um pouco precoce, pois não nos conhecíamos ainda, e eu sabia que os paulistas não são tão atirados assim. Começamos a conversar.
Passaram-se horas, pedimos apenas uma cerveja, e não vimos o tempo passar mergulhadas nas palavras e nos olhos uma da outra. Eu a sentia muito próxima, eu a estava adorando, e sentia que podia me apaixonar por ela. Talvez isso já estivesse acontecendo. Quanto a ela, parecia jogar charme, eu não estava muito certa do que se passava verdadeiramente com ela. Havia um certo mistério naquela criatura. Parecia demasiado autônoma para a sua idade, pois era quase uma adolescente. Entretanto, as coisas que dizia desvelavam uma espécie de mundo marginal, obscuro, fascinante de uma maneira ambígua, para mim, que vinha de um universo rural, e tão distante daquilo tudo. Saímos, afinal, depois dela fazer questão de pagar a conta, e fomos andando, andando por aquela Paulista, que agora me parecia latente de surpresas.
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Convidei-a subir comigo. Sou definitivamente imprudente... Mas eu estava fascinada e enternecida por aquela criatura especial, que me falava coisas de um mundo desconhecido, que eu visualizava como um filme estranho, “underground” e contemporâneo, que me atraía tanto, como provinciana que realmente sou, apesar de já ter estudado na Europa.
Lea tomou-me o braço e passamos pelo porteiro, que nos lançou um olhar curioso. Seu Ermírio nada disse, enquanto erguia-se da sua cadeira e vinha abrir a porta do elevador, solícito como sempre. Mas olhava muito para Lea, eu notei. Pensei em apresentá-la ao porteiro, mas algo me deteve. Deixei pra lá, e apenas agradeci.
Uma vez no estúdio, a grande sala que eu chamo assim, recoberta das minhas telas, por todo lado, a maioria no chão, Lea começou a rir de prazer, com a mão na boca como uma criança. Fiquei mais enternecida ainda e abraçamo-nos rodando felizes no meio de todas aquelas cores, todas aquelas telas que eu sentia como se me apresentassem a ela, à minha nova amiga, da única maneira que ela poderia realmente me entender. Uma ponte, eu pensava, entre os nossos universos. Era isso!
De repente, ali, no meio da sala, paramos, emudecemos nossas exclamações, nosso riso, tacitamente demo-nos as mãos, e eu levei-a ao meu quarto, onde diante da minha imensa cama, pus-me a despi-la enquanto ela me olhava fixamente, com um semi-sorriso enigmático. Ela deixou-se despir passivamente, enquanto eu o fazia quase maternalmente, como uma mãe que despe a sua filha, depois de um baile, ou da escola. Lea sorria, como uma esfinge, enquanto eu descia sua saia, suas meias de lã muito compridas, até as coxas, revelando suas lindas pernas. Tirei-lhe o sutiã, e acariciei seus seios pequeninos, adolescentes, que mal despontavam, beijei-lhes demoradamente as aréolas rosadas, enquanto ela suspirava, começando a tremer, parecendo muito emocionada. Então, afinal comecei a abaixar sua calcinha e... tive um sobressalto!
Surpresa, eu estava diante de um pequeno pênis, de prepúcio fechado, caidinho, mas que ameaçava erguer-se diante dos meus olhos quase arregalados. E ainda por cima eu o tinha na mão, pois esperava estar com ela sobre uma “chantinha” primorosa e... tinha me precipitado!
Olhei profundamente os olhos de Lea, e percebi o seu embaraço, e a sua emoção. Ela devia estar, desde o princípio, temerosa deste momento comigo, e, na verdade, disfarçara tão bem! Seus olhos úmidos revelavam isso.
Então, eu subitamente enchi-me de uma imensa ternura por ela, por ele, o jovem Leandro e sua Lea, e fui então me abaixando, ajoelhando, aos seus pés, e aproximando lentamente meu rosto, meus lábios, do pequeno pênis que subia orgulhosamente, entre minhas mãos, beijei-lhe a ponta mal descoberta, sensível, vermelha como sangue.
Aquela noite, entre lágrimas e risos, eu, Alma Welt, fui possuída de todas as formas por Lea e Leandro, com muitas camisinhas, é claro.
E dei um jeito maravilhoso, que improvisei e não revelarei aqui, de possuí-los também.
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Lea Leandro II
Dos “Contos Secretos”, de Alma Welt
Lea veio morar comigo, depois do nosso primeiro dia... e noite. É preciso contar que ao acordarmos naquela manhã de segunda, o encanto não se esgotara, e ele, ou ela (preciso decidir) quis possuir-me mais uma vez e ser possuída por mim antes de deixar-me.
Daí por diante, começamos a nos encontrar diariamente (ele me procurava). Eu acariciava, docemente aquele pequeno membro viril, que crescia, dignamente, e a sua cabeça extraordinariamente vermelha, quando o prepúcio era obrigado a recuar, extremamente insinuante, me convidava a beijá-lo demoradamente, e sendo muito sensível, fazia meu amiguinho contorcer-se. Ele então me possuía lindamente.
Depois, as posições se invertiam e era a vez de eu possuí-lo, com um enorme falo que compramos juntos, com a sua orientação, num sex-shop do bairro, que adorei conhecer. Sua bundinha redonda se oferecia, adoravelmente arrebitada, o anus rosado exposto, que eu lubrificava segundo as suas experientes instruções, e que ele o oferecia ao meu olhar curioso. Então, com aquele pênis dionisíaco, priápico, eu o possuía.
Afinal, consultando um catálogo que trouxéramos da loja, verificamos que havia um modelo muito mais caro, mas que continha um dispositivo na base, para ser cheio de leite quente, ou um creme semi-líquido qualquer, como chantilly, por exemplo. Foi a solução: agora eu podia satisfazer o meu pequeno andrógino, que me dava tanto prazer e a quem eu queria retribuir.
Assim transcorriam meus novos dias e noites com aquela maravilhosa ninfeta, andrógina, que tinha quase todos os atributos da feminilidade, acrescentada do seu estranho, mas eficiente penisinho que eu também adorava, pois me servia a contento.
Mas, infelizmente, o anátema do paraíso perdido começava a se manifestar, com a insatisfação crescente do meu pequeno fauno, ou ninfa, que ansiava desfrutar dos privilégios “passivos” da feminilidade, conforme ela imaginava e via em mim, preenchida voluptuosamente, com camisinha, claro, satisfeita, plena, embora não lambuzada. Leandro começou a falar numa “operação transexual”.
Eu estava horrorizada, apreensiva, com aquela perspectiva desesperada, dolorosa, que eu via que mais cedo ou mais tarde eu não poderia evitar.
O pior é que, já sendo sustentado por mim, para evitar que voltasse para as ruas, eu tinha que tentar satisfazê-lo, à sua libido, que era toda mental, numa constante fantasia feminina, no que ela tem de mais patético. Lea, dentro dele, ansiava pela feminilidade total nos braços de um homem viril, que o possuísse até o aniquilamento, já que a maternidade, privilégio máximo e final, lhe estava interdita para sempre, embora eu tentasse dissuadi-lo e consolá-lo com a doutrina das reencarnações, sobre a qual eu discorria, e que eu realmente abraçara.
Lea Leandro agora parecia cada vez mais obcecado, e começou a sair novamente para as ruas, para fazer dinheiro e economizá-lo com o propósito da operação. Eu estava desolada. Eu temia a conseqüência final de tudo aquilo, além de sofrer tremendamente com a prostituição de Lea... e de Leandro. Eu tentava evitar o contato íntimo com ele, quando voltava das ruas, cheirando a homem. Eu me preservava, temerosa da doença maligna, que ela podia contrair com aquela espantosa promiscuidade das ruas, ele, que nem usava mais camisinha lá fora, numa espécie de vertigem suicida. Eu estava encrencada. Aquilo estava ficando doloroso demais. Eu não podia mais satisfazê-lo, e ele agora parecia enciumado, invejoso da minha feminilidade integral. Começou a maltratar-me.
Então, um dia, quis obrigar-me a chupá-lo, após ser possuído por mim com aquele grande falo. Sua insatisfação, exasperada, fez com que começasse a gritar e chorar, batendo no meu rosto, e na minha bunda tão branca, que ficou avermelhada e dolorida. Ele começava a ficar histérico. Exigia que eu lhe desse o dinheiro para a operação, e que lhe apresentasse um cirurgião competente para a operação. Eu estava sem saída, sofria intensamente com aquilo tudo, condoída com a tragédia do pequeno andrógino que eu acolhera no meu seio, no meu lar, e que apesar do meu amor, eu não conseguia satisfazer.
Então, um dia, decidi, capitulei: dei-lhe o dinheiro, que ele não conseguia economizar, fiz mais: procurei, encontrei e apresentei-lhe um cirurgião competente, que ouvindo minha longa estória, concordou em operar Leandro.
Depois das primeiras consultas, o doutor chamou-me, e me deu satisfações dos seus exames e prognósticos de Lea Leandro, como se eu fosse sua mãe, ou irmã mais velha. Estava tudo bem. Milagrosamente o seu teste de HIV deu negativo, e ele podia ser operado. Foi marcado dia e hora para a primeira de uma série de operações que se seguiram.
Estive com ele o tempo todo, segurando sua mão, e encorajando-o até a sua entrada na sala de operação. E depois, no seu doloroso e comovido despertar, lá estava eu à sua cabeceira. Lea, que não era mais Leandro, segurava minha mão e chorava longamente, de dor, de alívio e... esperança.
Era só o começo de uma nova via-crucis. Para nós duas.
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Não me deterei sobre as três operações que se seguiram, com os longos e dolorosos pós-operatórios para Lea. Eu a servia e mimava. Parei de pintar por temporadas inteiras e submetia-me aos caprichos da minha amiguinha. Lea foi se restabelecendo. Eu lhe mudava os curativos, e observava sua nova vagina, que no começo me impressionava negativamente, mas com o passar do tempo, as plásticas e cicatrização, depois de desinchada, foi ficando com um aspecto bem jeitoso. O doutor caprichara, e com o tempo ficou bastante bonita. Lea ficou radiante e parecia recuperar sua alegria. Mas algo nela mudara. Sua feminilidade, seus modos, agora pareciam mais acintosos e... quis voltar às ruas. Tivemos uma violenta discussão:
—Mas Lea, agora és uma mulher, precisas ter dignidade. Além disso, já tens a mim. Eu gosto de ti, mulher. Eu te amo, não vês, criatura?
—Para você, é fácil, não é, Alma? Você não precisa provar nada, você nasceu mulher, e linda. Eu tive que me construir. Quero aproveitar, quero que me vejam! Quero exibir-me, quero que o mundo me veja. Vou escancarar, não tente me deter. Quero dar até morrer!
Ela se vulgarizava, mais que nunca. Eu a estava vendo, talvez, como realmente era. Uma mulher vulgar e desesperada. Mas não! Uma vez, eu tinha detectado algo adorável, uma candura de menina, quando a conheci. Uma pureza intacta, mesmo no seu desenfreado erotismo, que me apaixonara. Eu não ia me conformar! Eu ia lutar por ela! Essa menina linda não ia se tornar uma prostituta, não sob os meus olhos!
Foi então que o primeiro cliente foi pego... na minha cama.
Eu cheguei da rua, e ouvi ruídos e risadas no meu quarto. Com o coração aos saltos precipitei-me para aquela porta e deparei-me com a cena: Lea nua com as pernas bem altas, apoiadas nos ombros de um rapaz, que lhe introduzia um membro descomunal, inaugurando, talvez, sua vagina, que, eu percebi, escorria esperma copiosamente, como ela queria, como ela gostava. Lea avistou-me e estendeu um braço para mim, chamando-me, com uma gargalhada. Eu, então fugi, corri para o ateliê em lágrimas, o coração aos pulos. Minha Lea, minha Lea, fizera isso comigo! Trouxera um cliente, um desconhecido, para minha casa, me expondo desse jeito!
Furiosa, precipitei-me para o interfone na cozinha, para falar com o seu Ermírio, na portaria.
—Seu Ermírio! Sou eu, Alma. Como o senhor deixa um desconhecido subir assim, sem minha autorização, seu Ermírio? Como? Ela disse isso? Mas, seu Ermírio! Suba aqui, venha me ajudar a tirar esse homem daqui, depois conversamos.
Seu Ermírio logo estava dentro da minha sala, pois deixei a porta escancarada. Coincidentemente o moço desconhecido saiu naquele momento, do quarto, botando a camisa para dentro da calça.
Não me deterei sobre as cenas constrangedoras que se seguiram, penosas para todos. Lea foi descomposta, na frente do seu Ermírio e ficou arrasada, encerrando-se no quarto. Seu Ermírio abanava a cabeça e dizia:
—Dona Alma, eu não sabia que ela era... ela me enrolou, dona Alma. A garota disse que o rapaz era um primo da senhora, lá do sul. Eu estranhei, mas acabei deixando subir. A Lea já está morando há tempo com a senhora... eu não sabia... Me desculpe. Mas agora não podemos mais permitir. O que a senhora vai fazer, com a garota? É melhor “mandar ela” embora, não é? Quando começa assim, dona Alma... Tive uma prima lá na Bahia, que começou assim. Meu tio “expulsou ela” de casa. Agora está na zona. É assim que acaba, dona Alma.
Senti um novo aperto no coração, ao ouvir aquelas palavras. Eu não podia abandonar Lea. Eu tinha que lutar para salvá-la de si mesma. Mas, ah! E se eu estivesse sendo ingênua, já que Lea sempre fora assim, essa é que era a verdade. Eu já a conhecera na prostituição, tinha que me lembrar disso. Eu é que era incorrigivelmente romântica, e a tinha, para mim, como uma pequena dama das camélias, não tísica, mas viciada naquilo tudo, como a outra não parecia ter sido. Afinal, não estávamos no século XIX.
Fechei a porta à saída do seu Ermírio, e dirigi-me ao quarto, ao encontro de Lea, que encontrei sentada na cama, quieta, mas com uma alentadora lágrima escorrendo no rosto. Ela ainda se magoava. Sim, ela tinha vergonha na cara. Ela tinha salvação. E eu... eu ainda a queria para mim.
Só para mim!
Uma das mais inusitadas aventuras da minha vida (vocês, leitores já perceberam como ela é rica, em acontecimentos intrigantes) começou surpreendentemente, numa manhã de domingo, na Avenida Paulista, onde às vezes costumo passear, ou ir ao MASP, para visitar o próprio museu, e também confesso, a feirinha de antiguidades, que fica no chamado vão livre.
Andava eu distraída pela calçada, prazerosamente, aproveitando o sol de inverno, da linda manhã de frio seco, quando fui esbarrada e senti uma mão feminina no meu braço, puxando-me. Assustadíssima, levei uns segundos para entender o que se passava, pois me ocorrera, é claro, tratar-se de um assalto, ou um “trombadinha”. Entretanto vi-me frente a uma encantadora figura de garota, de delicada feminilidade, razoavelmente bem vestida (talvez com roupas um tanto justas) que, com lindos olhos assustados, me pedia socorro, baixinho, sussurrante, olhando para os lados. Pensei, imediatamente nalgum tipo de golpe, eu estava mais assustada ainda. Mas logo a moça fez-me entender que estava sendo perseguida por um ex-namorado. E que pedia minha proteção, por eu ser uma pessoa distinta, que o intimidaria. Em resumo, ele não se atreveria a se aproximar. Deixei que ela enfiasse o seu braço no meu e fomos andando apressadamente, olhando para os lados, temerosas.
Descemos a escada para o subsolo e fomos direto para o Degas, o restaurante do museu onde pegamos uma mesa, e sentadas, pude conferir o belo rosto, da guria encantadora, que eu tinha à minha frente.
Ela estendeu-me a mão por cima da mesa, uma bela mão com unhas longas, tratadas, e apresentou-se com um sorriso lindo, mostrando os dentes magníficos, fortes:
—Prazer, meu nome é Lea. Lea Leandro— disse ela com macia voz ligeiramente grave— Estou muito grata a você. Sabe, você é maravilhosa! A mulher mais bonita que eu jamais vi. Posso ser sua amiga? Olhe, não tenha mais medo não, meu-ex não ousaria vir aqui. Nós despistamos ele. Graças a você. Você é maravilhosa, sabia ?– ela repetiu.
—O prazer é meu, Lea – disse eu, retribuindo o sorriso.– Principalmente agora que o susto já passou. Sabe, quase desmaiei, pensei estar sendo assaltada. Tu não imaginas o que me passou na cabeça em um segundo. Mas agora, estou aliviada olhando um rosto como o teu, que me parece honesto, e... encantador.
Lea, deu uma gargalhadinha, soergueu-se por cima da mesa, e beijou-me a face, decidida, mas delicadamente. Fiquei encantada, um pouco surpresa, com essa demonstração tão espontânea de carinho um pouco precoce, pois não nos conhecíamos ainda, e eu sabia que os paulistas não são tão atirados assim. Começamos a conversar.
Passaram-se horas, pedimos apenas uma cerveja, e não vimos o tempo passar mergulhadas nas palavras e nos olhos uma da outra. Eu a sentia muito próxima, eu a estava adorando, e sentia que podia me apaixonar por ela. Talvez isso já estivesse acontecendo. Quanto a ela, parecia jogar charme, eu não estava muito certa do que se passava verdadeiramente com ela. Havia um certo mistério naquela criatura. Parecia demasiado autônoma para a sua idade, pois era quase uma adolescente. Entretanto, as coisas que dizia desvelavam uma espécie de mundo marginal, obscuro, fascinante de uma maneira ambígua, para mim, que vinha de um universo rural, e tão distante daquilo tudo. Saímos, afinal, depois dela fazer questão de pagar a conta, e fomos andando, andando por aquela Paulista, que agora me parecia latente de surpresas.
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Convidei-a subir comigo. Sou definitivamente imprudente... Mas eu estava fascinada e enternecida por aquela criatura especial, que me falava coisas de um mundo desconhecido, que eu visualizava como um filme estranho, “underground” e contemporâneo, que me atraía tanto, como provinciana que realmente sou, apesar de já ter estudado na Europa.
Lea tomou-me o braço e passamos pelo porteiro, que nos lançou um olhar curioso. Seu Ermírio nada disse, enquanto erguia-se da sua cadeira e vinha abrir a porta do elevador, solícito como sempre. Mas olhava muito para Lea, eu notei. Pensei em apresentá-la ao porteiro, mas algo me deteve. Deixei pra lá, e apenas agradeci.
Uma vez no estúdio, a grande sala que eu chamo assim, recoberta das minhas telas, por todo lado, a maioria no chão, Lea começou a rir de prazer, com a mão na boca como uma criança. Fiquei mais enternecida ainda e abraçamo-nos rodando felizes no meio de todas aquelas cores, todas aquelas telas que eu sentia como se me apresentassem a ela, à minha nova amiga, da única maneira que ela poderia realmente me entender. Uma ponte, eu pensava, entre os nossos universos. Era isso!
De repente, ali, no meio da sala, paramos, emudecemos nossas exclamações, nosso riso, tacitamente demo-nos as mãos, e eu levei-a ao meu quarto, onde diante da minha imensa cama, pus-me a despi-la enquanto ela me olhava fixamente, com um semi-sorriso enigmático. Ela deixou-se despir passivamente, enquanto eu o fazia quase maternalmente, como uma mãe que despe a sua filha, depois de um baile, ou da escola. Lea sorria, como uma esfinge, enquanto eu descia sua saia, suas meias de lã muito compridas, até as coxas, revelando suas lindas pernas. Tirei-lhe o sutiã, e acariciei seus seios pequeninos, adolescentes, que mal despontavam, beijei-lhes demoradamente as aréolas rosadas, enquanto ela suspirava, começando a tremer, parecendo muito emocionada. Então, afinal comecei a abaixar sua calcinha e... tive um sobressalto!
Surpresa, eu estava diante de um pequeno pênis, de prepúcio fechado, caidinho, mas que ameaçava erguer-se diante dos meus olhos quase arregalados. E ainda por cima eu o tinha na mão, pois esperava estar com ela sobre uma “chantinha” primorosa e... tinha me precipitado!
Olhei profundamente os olhos de Lea, e percebi o seu embaraço, e a sua emoção. Ela devia estar, desde o princípio, temerosa deste momento comigo, e, na verdade, disfarçara tão bem! Seus olhos úmidos revelavam isso.
Então, eu subitamente enchi-me de uma imensa ternura por ela, por ele, o jovem Leandro e sua Lea, e fui então me abaixando, ajoelhando, aos seus pés, e aproximando lentamente meu rosto, meus lábios, do pequeno pênis que subia orgulhosamente, entre minhas mãos, beijei-lhe a ponta mal descoberta, sensível, vermelha como sangue.
Aquela noite, entre lágrimas e risos, eu, Alma Welt, fui possuída de todas as formas por Lea e Leandro, com muitas camisinhas, é claro.
E dei um jeito maravilhoso, que improvisei e não revelarei aqui, de possuí-los também.
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Lea Leandro II
Dos “Contos Secretos”, de Alma Welt
Lea veio morar comigo, depois do nosso primeiro dia... e noite. É preciso contar que ao acordarmos naquela manhã de segunda, o encanto não se esgotara, e ele, ou ela (preciso decidir) quis possuir-me mais uma vez e ser possuída por mim antes de deixar-me.
Daí por diante, começamos a nos encontrar diariamente (ele me procurava). Eu acariciava, docemente aquele pequeno membro viril, que crescia, dignamente, e a sua cabeça extraordinariamente vermelha, quando o prepúcio era obrigado a recuar, extremamente insinuante, me convidava a beijá-lo demoradamente, e sendo muito sensível, fazia meu amiguinho contorcer-se. Ele então me possuía lindamente.
Depois, as posições se invertiam e era a vez de eu possuí-lo, com um enorme falo que compramos juntos, com a sua orientação, num sex-shop do bairro, que adorei conhecer. Sua bundinha redonda se oferecia, adoravelmente arrebitada, o anus rosado exposto, que eu lubrificava segundo as suas experientes instruções, e que ele o oferecia ao meu olhar curioso. Então, com aquele pênis dionisíaco, priápico, eu o possuía.
Afinal, consultando um catálogo que trouxéramos da loja, verificamos que havia um modelo muito mais caro, mas que continha um dispositivo na base, para ser cheio de leite quente, ou um creme semi-líquido qualquer, como chantilly, por exemplo. Foi a solução: agora eu podia satisfazer o meu pequeno andrógino, que me dava tanto prazer e a quem eu queria retribuir.
Assim transcorriam meus novos dias e noites com aquela maravilhosa ninfeta, andrógina, que tinha quase todos os atributos da feminilidade, acrescentada do seu estranho, mas eficiente penisinho que eu também adorava, pois me servia a contento.
Mas, infelizmente, o anátema do paraíso perdido começava a se manifestar, com a insatisfação crescente do meu pequeno fauno, ou ninfa, que ansiava desfrutar dos privilégios “passivos” da feminilidade, conforme ela imaginava e via em mim, preenchida voluptuosamente, com camisinha, claro, satisfeita, plena, embora não lambuzada. Leandro começou a falar numa “operação transexual”.
Eu estava horrorizada, apreensiva, com aquela perspectiva desesperada, dolorosa, que eu via que mais cedo ou mais tarde eu não poderia evitar.
O pior é que, já sendo sustentado por mim, para evitar que voltasse para as ruas, eu tinha que tentar satisfazê-lo, à sua libido, que era toda mental, numa constante fantasia feminina, no que ela tem de mais patético. Lea, dentro dele, ansiava pela feminilidade total nos braços de um homem viril, que o possuísse até o aniquilamento, já que a maternidade, privilégio máximo e final, lhe estava interdita para sempre, embora eu tentasse dissuadi-lo e consolá-lo com a doutrina das reencarnações, sobre a qual eu discorria, e que eu realmente abraçara.
Lea Leandro agora parecia cada vez mais obcecado, e começou a sair novamente para as ruas, para fazer dinheiro e economizá-lo com o propósito da operação. Eu estava desolada. Eu temia a conseqüência final de tudo aquilo, além de sofrer tremendamente com a prostituição de Lea... e de Leandro. Eu tentava evitar o contato íntimo com ele, quando voltava das ruas, cheirando a homem. Eu me preservava, temerosa da doença maligna, que ela podia contrair com aquela espantosa promiscuidade das ruas, ele, que nem usava mais camisinha lá fora, numa espécie de vertigem suicida. Eu estava encrencada. Aquilo estava ficando doloroso demais. Eu não podia mais satisfazê-lo, e ele agora parecia enciumado, invejoso da minha feminilidade integral. Começou a maltratar-me.
Então, um dia, quis obrigar-me a chupá-lo, após ser possuído por mim com aquele grande falo. Sua insatisfação, exasperada, fez com que começasse a gritar e chorar, batendo no meu rosto, e na minha bunda tão branca, que ficou avermelhada e dolorida. Ele começava a ficar histérico. Exigia que eu lhe desse o dinheiro para a operação, e que lhe apresentasse um cirurgião competente para a operação. Eu estava sem saída, sofria intensamente com aquilo tudo, condoída com a tragédia do pequeno andrógino que eu acolhera no meu seio, no meu lar, e que apesar do meu amor, eu não conseguia satisfazer.
Então, um dia, decidi, capitulei: dei-lhe o dinheiro, que ele não conseguia economizar, fiz mais: procurei, encontrei e apresentei-lhe um cirurgião competente, que ouvindo minha longa estória, concordou em operar Leandro.
Depois das primeiras consultas, o doutor chamou-me, e me deu satisfações dos seus exames e prognósticos de Lea Leandro, como se eu fosse sua mãe, ou irmã mais velha. Estava tudo bem. Milagrosamente o seu teste de HIV deu negativo, e ele podia ser operado. Foi marcado dia e hora para a primeira de uma série de operações que se seguiram.
Estive com ele o tempo todo, segurando sua mão, e encorajando-o até a sua entrada na sala de operação. E depois, no seu doloroso e comovido despertar, lá estava eu à sua cabeceira. Lea, que não era mais Leandro, segurava minha mão e chorava longamente, de dor, de alívio e... esperança.
Era só o começo de uma nova via-crucis. Para nós duas.
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Não me deterei sobre as três operações que se seguiram, com os longos e dolorosos pós-operatórios para Lea. Eu a servia e mimava. Parei de pintar por temporadas inteiras e submetia-me aos caprichos da minha amiguinha. Lea foi se restabelecendo. Eu lhe mudava os curativos, e observava sua nova vagina, que no começo me impressionava negativamente, mas com o passar do tempo, as plásticas e cicatrização, depois de desinchada, foi ficando com um aspecto bem jeitoso. O doutor caprichara, e com o tempo ficou bastante bonita. Lea ficou radiante e parecia recuperar sua alegria. Mas algo nela mudara. Sua feminilidade, seus modos, agora pareciam mais acintosos e... quis voltar às ruas. Tivemos uma violenta discussão:
—Mas Lea, agora és uma mulher, precisas ter dignidade. Além disso, já tens a mim. Eu gosto de ti, mulher. Eu te amo, não vês, criatura?
—Para você, é fácil, não é, Alma? Você não precisa provar nada, você nasceu mulher, e linda. Eu tive que me construir. Quero aproveitar, quero que me vejam! Quero exibir-me, quero que o mundo me veja. Vou escancarar, não tente me deter. Quero dar até morrer!
Ela se vulgarizava, mais que nunca. Eu a estava vendo, talvez, como realmente era. Uma mulher vulgar e desesperada. Mas não! Uma vez, eu tinha detectado algo adorável, uma candura de menina, quando a conheci. Uma pureza intacta, mesmo no seu desenfreado erotismo, que me apaixonara. Eu não ia me conformar! Eu ia lutar por ela! Essa menina linda não ia se tornar uma prostituta, não sob os meus olhos!
Foi então que o primeiro cliente foi pego... na minha cama.
Eu cheguei da rua, e ouvi ruídos e risadas no meu quarto. Com o coração aos saltos precipitei-me para aquela porta e deparei-me com a cena: Lea nua com as pernas bem altas, apoiadas nos ombros de um rapaz, que lhe introduzia um membro descomunal, inaugurando, talvez, sua vagina, que, eu percebi, escorria esperma copiosamente, como ela queria, como ela gostava. Lea avistou-me e estendeu um braço para mim, chamando-me, com uma gargalhada. Eu, então fugi, corri para o ateliê em lágrimas, o coração aos pulos. Minha Lea, minha Lea, fizera isso comigo! Trouxera um cliente, um desconhecido, para minha casa, me expondo desse jeito!
Furiosa, precipitei-me para o interfone na cozinha, para falar com o seu Ermírio, na portaria.
—Seu Ermírio! Sou eu, Alma. Como o senhor deixa um desconhecido subir assim, sem minha autorização, seu Ermírio? Como? Ela disse isso? Mas, seu Ermírio! Suba aqui, venha me ajudar a tirar esse homem daqui, depois conversamos.
Seu Ermírio logo estava dentro da minha sala, pois deixei a porta escancarada. Coincidentemente o moço desconhecido saiu naquele momento, do quarto, botando a camisa para dentro da calça.
Não me deterei sobre as cenas constrangedoras que se seguiram, penosas para todos. Lea foi descomposta, na frente do seu Ermírio e ficou arrasada, encerrando-se no quarto. Seu Ermírio abanava a cabeça e dizia:
—Dona Alma, eu não sabia que ela era... ela me enrolou, dona Alma. A garota disse que o rapaz era um primo da senhora, lá do sul. Eu estranhei, mas acabei deixando subir. A Lea já está morando há tempo com a senhora... eu não sabia... Me desculpe. Mas agora não podemos mais permitir. O que a senhora vai fazer, com a garota? É melhor “mandar ela” embora, não é? Quando começa assim, dona Alma... Tive uma prima lá na Bahia, que começou assim. Meu tio “expulsou ela” de casa. Agora está na zona. É assim que acaba, dona Alma.
Senti um novo aperto no coração, ao ouvir aquelas palavras. Eu não podia abandonar Lea. Eu tinha que lutar para salvá-la de si mesma. Mas, ah! E se eu estivesse sendo ingênua, já que Lea sempre fora assim, essa é que era a verdade. Eu já a conhecera na prostituição, tinha que me lembrar disso. Eu é que era incorrigivelmente romântica, e a tinha, para mim, como uma pequena dama das camélias, não tísica, mas viciada naquilo tudo, como a outra não parecia ter sido. Afinal, não estávamos no século XIX.
Fechei a porta à saída do seu Ermírio, e dirigi-me ao quarto, ao encontro de Lea, que encontrei sentada na cama, quieta, mas com uma alentadora lágrima escorrendo no rosto. Ela ainda se magoava. Sim, ela tinha vergonha na cara. Ela tinha salvação. E eu... eu ainda a queria para mim.
Só para mim!
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