terça-feira, 25 de março de 2008

Sedução

(dos Contos Secretos, de Alma Welt)

Não há nada mais misterioso, nas relações humanas, do que o processo de sedução. A pura atração exercida por alguém, homem ou mulher, nem sempre de maneira imediata, mas gradativa, insinuante, insidiosa. O que faz com que alguém fique, assim, fascinado, envolvido, hipnotizado? Trata-se da beleza, esse misterioso atributo, indefinível? Nem sempre. Não há maior mistério para o ser humano, que o próprio ser humano.

Não. Trata-se, talvez da inteligência. Sim, porque a própria beleza já foi uma vez definida por um arguto jornalista, como “um pacote de inteligência física”. A beleza seria então, a inteligência suprema dos seres e... das coisas.

Ana Júlia entrou em minha casa com ótimas recomendações e uma advertência a mim, por parte de uma amiga do sul. Uma mulata clara, graciosa, mignon, de pele brilhante e cabelo de ondas miúdas. E seus lábios? Cheios, perfeitos, feitos para o beijo. Olhos amendoados, típicos de sua mestiçagem. Quanto à advertência de minha amiga? Que eu tomasse cuidado, pois a mulatinha era sedutora.

Não tenho marido e nem sequer namorado ou namorada, no momento, eu argumentei, fingindo-me de desentendida. Não, não, disse minha amiga, cuide-se. Ela seduz, quem estiver por perto, convivendo com ela, no cotidiano.

Eu queria pagar para ver. Se essa moça tinha esse dom, então era mais preciosa ainda, já que as referências quanto às suas outras competências eram satisfatórias, elogiosas mesmo.

Ana Júlia instalou-se no quartinho de empregada, do meu atelìê- apartamento, e estava encarregada da cozinha e da faxina. Eu cansara de cozinhar para mim mesma, e de comer em restaurante, que interrompia o meu trabalho, cortava o meu dia. Seu tempero era ótimo, dizia a minha amiga, pois era mineira, a mulatinha.

Começamos a conviver no espaço exíguo, limitado, do apartamento. Duas mulheres bonitas, vindas de origens muito diversas, de culturas muito diferentes. Mas a verdade é que, logo de saída, Ana Júlia é que parecia fascinada pela excessiva brancura da minha pele e pelo dourado do meu cabelo. Um dia, dando um suspiro, enquanto eu pintava, passou a mão, por trás, no meu cabelo, dizendo:

—Dona Alma, que bonito é o seu cabelo, desculpe-me “tocar ele”. Não resisti. É de ouro?

Virei-me para ela, e encontrei a absoluta ingenuidade e honestidade daquela pergunta, em seus olhos. Quero dizer: fiquei encantada. Essa moça se expressara, mais ou menos, assim... como diria? Como uma índia, talvez. Ao reparar nos seus olhos, percebi a absoluta beleza daquela alma. Clara, límpida, infantil. Por quê então minha amiga tinha me alertado sobre o seu poder... de sedução? Não é a sedução algo associado ao caviloso, subterrâneo, perigoso?

—Ana Júlia—eu disse—fala-me um pouco de ti. De onde vieste, quem são os teus pais. Onde nasceste?

—Ah! Dona Alma, vim de uma cidadezinha à toa. Quem sou eu? Não perca tempo, não, com a minha vidinha. Eu não sei nada, dona Alma, a senhora sim, é uma princesa, deve ter vindo de um alto reino. E o jeito que a senhora fala, dona Alma, nunca vi igual!

Olhei-a novamente, com atenção, e ela me pareceu mais bela ainda, enxugando as mãos no seu avental, enquanto falava, parada em minha frente no meio do ateliê. Passei a mão no seu rosto, num gesto de carinho que me surgiu naturalmente.

Ela então, segurou a minha mão, ou melhor, capturou-a com a sua, enquanto ainda tocava a sua face e, virando-a, beijou-me a palma. E saiu correndo para a cozinha.

Eu começava a entender o que a minha amiga queria dizer, com aquilo...

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A convivência com a minha empregada, era a cada dia mais prazerosa e encantadora. Ela era uma excelente cozinheira e seu tempero era mesmo soberbo. Assim, o seu comportamento inusitado, para uma empregada, não chegava a comprometer a parte estritamente profissional. Eu é que às vezes interrompia o seu trabalho, para conversar com ela, e fruir os encantos de sua personalidade cândida, inocente, e de tão sedutora reverência à minha pessoa. Sim, comecei a perceber, que nisto estava a chave da sedução que minha amiga lhe atribuía. Ser cortejada por um ser tão honesto assim, constituía algo, no mínimo, lisonjeiro. Ela me olhava com um encantamento que parecia superar o meu. Poderia isto transformar-se numa mútua paixão, apesar do abismo cultural e social entre nós? Ela dizia:

—Dona Alma, eu ficaria horas só vendo a senhora pintar. E adoraria saber o que é que a senhora tanto escreve. Ouvi dizer que a senhora é poeta. Eu nunca vi uma mulher poeta antes, e queria saber como são os seus versos, o que é que a senhora fala neles. É de amor que a senhora fala? Ah! A senhora deve amar muito, mas deve ser mais amada ainda, embora eu nunca tenha visto um namorado seu, por aqui. Mas eu vejo o jeito que as pessoas que vêm aqui comprar seus quadros, olham para a senhora. A senhora não tem um namorado? Desculpe eu perguntar.

Eu olhava bem nos seus olhos límpidos, e afagava-lhe o rosto. Começava a ter vontade de beijá-la.

Comecei a ter sonhos com ela, não propriamente eróticos, mas enigmáticos, que evocavam alguma coisa referente às nossas conversas. As imagens começaram a se intensificar à noite, nos meus sonhos, e invadiam meus devaneios, de dia. Sim, eu fora seduzida.

Mas, então a sedução é isso? Nosso reflexo no olhar cristalino de outro ser, espelho narcísico, ideal? Apaixonamo-nos pela nossa própria imagem cristalizada, purificada na retina reverente da paixão alheia? Eu estava apaixonada por Ana Júlia, ou por sua adoração por mim? É difícil para mim saber, até hoje.

Então num fim de tarde, no fim do seu expediente de trabalho, depois de uma pausa encantadora que tivéramos, tomando um café juntas, Ana Júlia comunicou-me que seu chuveiro estava com problemas, no seu banheirinho, e ela teria que ir para cama sem se banhar. Eu protestei imediatamente e ofereci-lhe meu banheiro. Fiz mais, disse que ia premiá-la pelos seu dedicado e eficiente trabalho, e que iria preparar-lhe um banho na minha banheira. Por sua vez, ela, deslumbrada, quis declinar da minha oferenda. Mas eu insisti, e fui conduzindo-a para o meu banheiro, jocosamente despindo-a aos poucos no caminho. Ela ria, pondo a mão na boca, envergonhada e feliz. Ali naquele belo e amplo recinto, mantido sempre limpíssimo e brilhante por ela mesma, eu acabei de despi-la. Ela, emocionada, tremia ao ver-se desnudada por sua patroa. Quis ainda uma vez protestar, mas calou-se e entregou-se diante do meu simples gesto de tocar os seus lábios levemente com meus dedos e um leve schhhhhhh, dos meus lábios. Trêmula, ela deixou-se tocar por minhas mãos que a conduziram, e instaram a entrar na banheira que eu já deixara previamente enchendo de água quente. Seu lindo corpo moreno, um pouco judiado, contrastava com aquela banheira alvíssima, e ela sentou-se lentamente, talvez estranhando um pouco a temperatura da água, com um gritinho de medo. Ela nunca entrara numa banheira em sua vida, ela me confessou.

E eu comecei a banhá-la, lentamente, acariciando sua pele com minhas mãos finas, que as tintas e os solventes não logravam tornar ásperas. Com a ajuda de uma esponja, eu a banhava de verdade, com o meu mais perfumado sabonete, e... a acariciava,longamente... amorosamente.

Ela se entregava em minhas mãos, nas mãos de sua patroa seduzida, enquanto suas lágrimas corriam, desciam e juntavam-se às minhas, enternecidas, naquela água espumosa e perfumada, onde eu, igualmente nua, iria em breve me juntar a ela.

18/05/2006

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