terça-feira, 25 de março de 2008

Manchas no leito

(dos Contos Secretos de Alma Welt)


Luíza, minha “mãe-preta” mineira que se tornou das mais gratas aquisições de minha experiência paulistana, minha diarista, idosa, querida, toma ares vigilantes sobre mim de uma maneira enternecedora pois atesta a sua afeição, o seu carinho. Ela examina com a atenção as manchas no meu lençol e parece saber distinguir a passagem de homens ou mulheres por ali. Sim, pois minha vida amorosa, sexual mesmo (vamos usar as palavras sem falsos pudores), lhe parece promíscua apesar dela não conhecer propriamente esta palavra. Luiza se escandaliza em silêncio.

Ontem à noite, estando menstruada mantive relações com meu namorado, o que fez uma tremenda sujeira em meus lençóis que não tive tempo de jogar na máquina de lavar antes dela chegar. Um verdadeiro mapa sanguinolento que plasmou todos os nossos movimentos e fantasias de uma maneira escabrosa para o olhar da minha faxineira e... camareira. Ao lembrar da minha magnífica noite, por uma associação de pensamentos, de ordem literária recordei o fato de que entre os judeus, por exemplo, a mulher menstruada é considerada “impura” e rejeitada durante esse período por seu marido ou amante. Por quê, diabos, o sangue da mulher deveria ser impuro? Há homens que se atraem especialmente por esse sangue ou esse período, tanto mais que ele significa segurança contra uma fecundação indesejada, embora nas últimas décadas, dado histórico novo, devemos nos preocupar com a AIDS, é claro. Mas vocês, meus leitores, sabem como é difícil precaver-se quando se está apaixonada. Queremos nos confundir, fundir mesmo, com o nosso amante, e nisso consiste o perigo. A troca de fluidos, volúpia suprema dos amantes, passou a ser quase proibitiva, o que torna nossa época no mínimo trágica, ao meu ver. Não podemos nos esquecer, por outro lado, de que essa tragédia da nossa época já assentava num dado mais escabroso ainda: a existência da bomba atômica, espada de Damocles sobre a cabeça da humanidade inteira.

Mas não era minha intenção filosofar, ao iniciar esta narrativa. Tenho o mau costume de divagar. Retomo pois o fio da meada: as manchas no leito.

Durante uma semana sujei os meus lençóis de maneira renitente, viciosa. Eu não podia deter o processo mesmo sabendo o quanto isso escandalizava minha boa faxineira que me olhava com um olhar severo. Um dia, ela, não agüentando mais, disse:

—Alma, minha filha, você suja muito os lençóis! Compre um absorvente, minha filha, e evite namorar por enquanto, me desculpe dizer isso, mas você não acha que é muita sujeira e que seu namorado vai acabar se enojando e desrespeitando você?

Por um momento tive vergonha e empalideci. A ponderação de Luiza tinha sua base racional e talvez mesmo cultural. Não sei como os negros se comportam nesse período mas me pareceu que a restrição de Luiza tinha uma razão higiênica e prática. Eu “sujava” muito os lençóis. Mas porque razão eu nunca senti o sangue humano como sujeira? O meu próprio sangue me enternecia, narcisista que sou, consciente demais de minha própria beleza que me faz, por isso mesmo, cultuar a matéria que para mim é um reflexo maravilhoso do espírito. A carne, o corpo humano, já foi comparado metaforicamente a um templo da alma. Essa metáfora me parece boa e procedente. Quem vê corpo vê espírito. Quem vê cara, então... Nosso coração transparece nos olhos e os meus me comovem.

Assim, pedi desculpas a Luiza mas disse-lhe que eu mesma lavaria meus lençóis na máquina e que preferia não tocar mais naquele assunto para faze-lo retornar à minha intimidade. Parece que a boa mulher não entendeu muito a minha resposta. Mas eu a abracei e dei-lhe um beijo no rosto por puro carinho ao mesmo tempo que para mostrar-lhe que eu não me magoara com suas bem intencionadas palavras.

Então, as manchas nos lençóis começaram a se diversificar em suas cores apresentando algumas amarronzadas. Luiza não se agüentou, novamente, e uma manhã confrontou-me:

—Alma, o que é isso agora? (ela me mostrava um traço marrom no lençol, que ela esticava em sua mão)—Você, minha filha , não toma jeito, não é? (ela deu uma risadinha que abrandou a censura). — Eu sei o que é isso. Meu marido tinha essa mania, por isso dei graças a Deus quando ele foi embora com outra. Eu já não podia nem sentar –(demos uma grande gargalhada, juntas).

—Luiza, querida (eu dizia, abraçando-a em meio às gargalhadas), você também? Não podia nem sentar!

Abraçada à minha querida mãe-preta eu tinha lágrimas nos olhos de tanto rir e... também de enternecimento por essa pobre mulher cujo abismo cultural e social fora transposto numa fração de segundo entre nós com o desvelar de um pequeno segredo picaresco, comum, revelado afinal pelas manchas denunciadoras nos meus indiscretos lençóis.

12/05/2006

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