(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Uma das mais inusitadas aventuras da minha vida (vocês, leitores já perceberam como ela é rica, em acontecimentos intrigantes) começou surpreendentemente, numa manhã de domingo, na Avenida Paulista, onde às vezes costumo passear, ou ir ao MASP, para visitar o próprio museu, e também confesso, a feirinha de antiguidades, que fica no chamado vão livre.
Andava eu distraída pela calçada, prazerosamente, aproveitando o sol de inverno, da linda manhã de frio seco, quando fui esbarrada e senti uma mão feminina no meu braço, puxando-me. Assustadíssima, levei uns segundos para entender o que se passava, pois me ocorrera, é claro, tratar-se de um assalto, ou um “trombadinha”. Entretanto vi-me frente a uma encantadora figura de garota, de delicada feminilidade, razoavelmente bem vestida (talvez com roupas um tanto justas) que, com lindos olhos assustados, me pedia socorro, baixinho, sussurrante, olhando para os lados. Pensei, imediatamente nalgum tipo de golpe, eu estava mais assustada ainda. Mas logo a moça fez-me entender que estava sendo perseguida por um ex-namorado. E que pedia minha proteção, por eu ser uma pessoa distinta, que o intimidaria. Em resumo, ele não se atreveria a se aproximar. Deixei que ela enfiasse o seu braço no meu e fomos andando apressadamente, olhando para os lados, temerosas.
Descemos a escada para o subsolo e fomos direto para o Degas, o restaurante do museu onde pegamos uma mesa, e sentadas, pude conferir o belo rosto, da guria encantadora, que eu tinha à minha frente.
Ela estendeu-me a mão por cima da mesa, uma bela mão com unhas longas, tratadas, e apresentou-se com um sorriso lindo, mostrando os dentes magníficos, fortes:
—Prazer, meu nome é Lea. Lea Leandro— disse ela com macia voz ligeiramente grave— Estou muito grata a você. Sabe, você é maravilhosa! A mulher mais bonita que eu jamais vi. Posso ser sua amiga? Olhe, não tenha mais medo não, meu-ex não ousaria vir aqui. Nós despistamos ele. Graças a você. Você é maravilhosa, sabia ?– ela repetiu.
—O prazer é meu, Lea – disse eu, retribuindo o sorriso.– Principalmente agora que o susto já passou. Sabe, quase desmaiei, pensei estar sendo assaltada. Tu não imaginas o que me passou na cabeça em um segundo. Mas agora, estou aliviada olhando um rosto como o teu, que me parece honesto, e... encantador.
Lea, deu uma gargalhadinha, soergueu-se por cima da mesa, e beijou-me a face, decidida, mas delicadamente. Fiquei encantada, um pouco surpresa, com essa demonstração tão espontânea de carinho um pouco precoce, pois não nos conhecíamos ainda, e eu sabia que os paulistas não são tão atirados assim. Começamos a conversar.
Passaram-se horas, pedimos apenas uma cerveja, e não vimos o tempo passar mergulhadas nas palavras e nos olhos uma da outra. Eu a sentia muito próxima, eu a estava adorando, e sentia que podia me apaixonar por ela. Talvez isso já estivesse acontecendo. Quanto a ela, parecia jogar charme, eu não estava muito certa do que se passava verdadeiramente com ela. Havia um certo mistério naquela criatura. Parecia demasiado autônoma para a sua idade, pois era quase uma adolescente. Entretanto, as coisas que dizia desvelavam uma espécie de mundo marginal, obscuro, fascinante de uma maneira ambígua, para mim, que vinha de um universo rural, e tão distante daquilo tudo. Saímos, afinal, depois dela fazer questão de pagar a conta, e fomos andando, andando por aquela Paulista, que agora me parecia latente de surpresas.
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Convidei-a subir comigo. Sou definitivamente imprudente... Mas eu estava fascinada e enternecida por aquela criatura especial, que me falava coisas de um mundo desconhecido, que eu visualizava como um filme estranho, “underground” e contemporâneo, que me atraía tanto, como provinciana que realmente sou, apesar de já ter estudado na Europa.
Lea tomou-me o braço e passamos pelo porteiro, que nos lançou um olhar curioso. Seu Ermírio nada disse, enquanto erguia-se da sua cadeira e vinha abrir a porta do elevador, solícito como sempre. Mas olhava muito para Lea, eu notei. Pensei em apresentá-la ao porteiro, mas algo me deteve. Deixei pra lá, e apenas agradeci.
Uma vez no estúdio, a grande sala que eu chamo assim, recoberta das minhas telas, por todo lado, a maioria no chão, Lea começou a rir de prazer, com a mão na boca como uma criança. Fiquei mais enternecida ainda e abraçamo-nos rodando felizes no meio de todas aquelas cores, todas aquelas telas que eu sentia como se me apresentassem a ela, à minha nova amiga, da única maneira que ela poderia realmente me entender. Uma ponte, eu pensava, entre os nossos universos. Era isso!
De repente, ali, no meio da sala, paramos, emudecemos nossas exclamações, nosso riso, tacitamente demo-nos as mãos, e eu levei-a ao meu quarto, onde diante da minha imensa cama, pus-me a despi-la enquanto ela me olhava fixamente, com um semi-sorriso enigmático. Ela deixou-se despir passivamente, enquanto eu o fazia quase maternalmente, como uma mãe que despe a sua filha, depois de um baile, ou da escola. Lea sorria, como uma esfinge, enquanto eu descia sua saia, suas meias de lã muito compridas, até as coxas, revelando suas lindas pernas. Tirei-lhe o sutiã, e acariciei seus seios pequeninos, adolescentes, que mal despontavam, beijei-lhes demoradamente as aréolas rosadas, enquanto ela suspirava, começando a tremer, parecendo muito emocionada. Então, afinal comecei a abaixar sua calcinha e... tive um sobressalto!
Surpresa, eu estava diante de um pequeno pênis, de prepúcio fechado, caidinho, mas que ameaçava erguer-se diante dos meus olhos quase arregalados. E ainda por cima eu o tinha na mão, pois esperava estar com ela sobre uma “chantinha” primorosa e... tinha me precipitado!
Olhei profundamente os olhos de Lea, e percebi o seu embaraço, e a sua emoção. Ela devia estar, desde o princípio, temerosa deste momento comigo, e, na verdade, disfarçara tão bem! Seus olhos úmidos revelavam isso.
Então, eu subitamente enchi-me de uma imensa ternura por ela, por ele, o jovem Leandro e sua Lea, e fui então me abaixando, ajoelhando, aos seus pés, e aproximando lentamente meu rosto, meus lábios, do pequeno pênis que subia orgulhosamente, entre minhas mãos, beijei-lhe a ponta mal descoberta, sensível, vermelha como sangue.
Aquela noite, entre lágrimas e risos, eu, Alma Welt, fui possuída de todas as formas por Lea e Leandro, com muitas camisinhas, é claro.
E dei um jeito maravilhoso, que improvisei e não revelarei aqui, de possuí-los também.
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Lea Leandro II
Dos “Contos Secretos”, de Alma Welt
Lea veio morar comigo, depois do nosso primeiro dia... e noite. É preciso contar que ao acordarmos naquela manhã de segunda, o encanto não se esgotara, e ele, ou ela (preciso decidir) quis possuir-me mais uma vez e ser possuída por mim antes de deixar-me.
Daí por diante, começamos a nos encontrar diariamente (ele me procurava). Eu acariciava, docemente aquele pequeno membro viril, que crescia, dignamente, e a sua cabeça extraordinariamente vermelha, quando o prepúcio era obrigado a recuar, extremamente insinuante, me convidava a beijá-lo demoradamente, e sendo muito sensível, fazia meu amiguinho contorcer-se. Ele então me possuía lindamente.
Depois, as posições se invertiam e era a vez de eu possuí-lo, com um enorme falo que compramos juntos, com a sua orientação, num sex-shop do bairro, que adorei conhecer. Sua bundinha redonda se oferecia, adoravelmente arrebitada, o anus rosado exposto, que eu lubrificava segundo as suas experientes instruções, e que ele o oferecia ao meu olhar curioso. Então, com aquele pênis dionisíaco, priápico, eu o possuía.
Afinal, consultando um catálogo que trouxéramos da loja, verificamos que havia um modelo muito mais caro, mas que continha um dispositivo na base, para ser cheio de leite quente, ou um creme semi-líquido qualquer, como chantilly, por exemplo. Foi a solução: agora eu podia satisfazer o meu pequeno andrógino, que me dava tanto prazer e a quem eu queria retribuir.
Assim transcorriam meus novos dias e noites com aquela maravilhosa ninfeta, andrógina, que tinha quase todos os atributos da feminilidade, acrescentada do seu estranho, mas eficiente penisinho que eu também adorava, pois me servia a contento.
Mas, infelizmente, o anátema do paraíso perdido começava a se manifestar, com a insatisfação crescente do meu pequeno fauno, ou ninfa, que ansiava desfrutar dos privilégios “passivos” da feminilidade, conforme ela imaginava e via em mim, preenchida voluptuosamente, com camisinha, claro, satisfeita, plena, embora não lambuzada. Leandro começou a falar numa “operação transexual”.
Eu estava horrorizada, apreensiva, com aquela perspectiva desesperada, dolorosa, que eu via que mais cedo ou mais tarde eu não poderia evitar.
O pior é que, já sendo sustentado por mim, para evitar que voltasse para as ruas, eu tinha que tentar satisfazê-lo, à sua libido, que era toda mental, numa constante fantasia feminina, no que ela tem de mais patético. Lea, dentro dele, ansiava pela feminilidade total nos braços de um homem viril, que o possuísse até o aniquilamento, já que a maternidade, privilégio máximo e final, lhe estava interdita para sempre, embora eu tentasse dissuadi-lo e consolá-lo com a doutrina das reencarnações, sobre a qual eu discorria, e que eu realmente abraçara.
Lea Leandro agora parecia cada vez mais obcecado, e começou a sair novamente para as ruas, para fazer dinheiro e economizá-lo com o propósito da operação. Eu estava desolada. Eu temia a conseqüência final de tudo aquilo, além de sofrer tremendamente com a prostituição de Lea... e de Leandro. Eu tentava evitar o contato íntimo com ele, quando voltava das ruas, cheirando a homem. Eu me preservava, temerosa da doença maligna, que ela podia contrair com aquela espantosa promiscuidade das ruas, ele, que nem usava mais camisinha lá fora, numa espécie de vertigem suicida. Eu estava encrencada. Aquilo estava ficando doloroso demais. Eu não podia mais satisfazê-lo, e ele agora parecia enciumado, invejoso da minha feminilidade integral. Começou a maltratar-me.
Então, um dia, quis obrigar-me a chupá-lo, após ser possuído por mim com aquele grande falo. Sua insatisfação, exasperada, fez com que começasse a gritar e chorar, batendo no meu rosto, e na minha bunda tão branca, que ficou avermelhada e dolorida. Ele começava a ficar histérico. Exigia que eu lhe desse o dinheiro para a operação, e que lhe apresentasse um cirurgião competente para a operação. Eu estava sem saída, sofria intensamente com aquilo tudo, condoída com a tragédia do pequeno andrógino que eu acolhera no meu seio, no meu lar, e que apesar do meu amor, eu não conseguia satisfazer.
Então, um dia, decidi, capitulei: dei-lhe o dinheiro, que ele não conseguia economizar, fiz mais: procurei, encontrei e apresentei-lhe um cirurgião competente, que ouvindo minha longa estória, concordou em operar Leandro.
Depois das primeiras consultas, o doutor chamou-me, e me deu satisfações dos seus exames e prognósticos de Lea Leandro, como se eu fosse sua mãe, ou irmã mais velha. Estava tudo bem. Milagrosamente o seu teste de HIV deu negativo, e ele podia ser operado. Foi marcado dia e hora para a primeira de uma série de operações que se seguiram.
Estive com ele o tempo todo, segurando sua mão, e encorajando-o até a sua entrada na sala de operação. E depois, no seu doloroso e comovido despertar, lá estava eu à sua cabeceira. Lea, que não era mais Leandro, segurava minha mão e chorava longamente, de dor, de alívio e... esperança.
Era só o começo de uma nova via-crucis. Para nós duas.
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Não me deterei sobre as três operações que se seguiram, com os longos e dolorosos pós-operatórios para Lea. Eu a servia e mimava. Parei de pintar por temporadas inteiras e submetia-me aos caprichos da minha amiguinha. Lea foi se restabelecendo. Eu lhe mudava os curativos, e observava sua nova vagina, que no começo me impressionava negativamente, mas com o passar do tempo, as plásticas e cicatrização, depois de desinchada, foi ficando com um aspecto bem jeitoso. O doutor caprichara, e com o tempo ficou bastante bonita. Lea ficou radiante e parecia recuperar sua alegria. Mas algo nela mudara. Sua feminilidade, seus modos, agora pareciam mais acintosos e... quis voltar às ruas. Tivemos uma violenta discussão:
—Mas Lea, agora és uma mulher, precisas ter dignidade. Além disso, já tens a mim. Eu gosto de ti, mulher. Eu te amo, não vês, criatura?
—Para você, é fácil, não é, Alma? Você não precisa provar nada, você nasceu mulher, e linda. Eu tive que me construir. Quero aproveitar, quero que me vejam! Quero exibir-me, quero que o mundo me veja. Vou escancarar, não tente me deter. Quero dar até morrer!
Ela se vulgarizava, mais que nunca. Eu a estava vendo, talvez, como realmente era. Uma mulher vulgar e desesperada. Mas não! Uma vez, eu tinha detectado algo adorável, uma candura de menina, quando a conheci. Uma pureza intacta, mesmo no seu desenfreado erotismo, que me apaixonara. Eu não ia me conformar! Eu ia lutar por ela! Essa menina linda não ia se tornar uma prostituta, não sob os meus olhos!
Foi então que o primeiro cliente foi pego... na minha cama.
Eu cheguei da rua, e ouvi ruídos e risadas no meu quarto. Com o coração aos saltos precipitei-me para aquela porta e deparei-me com a cena: Lea nua com as pernas bem altas, apoiadas nos ombros de um rapaz, que lhe introduzia um membro descomunal, inaugurando, talvez, sua vagina, que, eu percebi, escorria esperma copiosamente, como ela queria, como ela gostava. Lea avistou-me e estendeu um braço para mim, chamando-me, com uma gargalhada. Eu, então fugi, corri para o ateliê em lágrimas, o coração aos pulos. Minha Lea, minha Lea, fizera isso comigo! Trouxera um cliente, um desconhecido, para minha casa, me expondo desse jeito!
Furiosa, precipitei-me para o interfone na cozinha, para falar com o seu Ermírio, na portaria.
—Seu Ermírio! Sou eu, Alma. Como o senhor deixa um desconhecido subir assim, sem minha autorização, seu Ermírio? Como? Ela disse isso? Mas, seu Ermírio! Suba aqui, venha me ajudar a tirar esse homem daqui, depois conversamos.
Seu Ermírio logo estava dentro da minha sala, pois deixei a porta escancarada. Coincidentemente o moço desconhecido saiu naquele momento, do quarto, botando a camisa para dentro da calça.
Não me deterei sobre as cenas constrangedoras que se seguiram, penosas para todos. Lea foi descomposta, na frente do seu Ermírio e ficou arrasada, encerrando-se no quarto. Seu Ermírio abanava a cabeça e dizia:
—Dona Alma, eu não sabia que ela era... ela me enrolou, dona Alma. A garota disse que o rapaz era um primo da senhora, lá do sul. Eu estranhei, mas acabei deixando subir. A Lea já está morando há tempo com a senhora... eu não sabia... Me desculpe. Mas agora não podemos mais permitir. O que a senhora vai fazer, com a garota? É melhor “mandar ela” embora, não é? Quando começa assim, dona Alma... Tive uma prima lá na Bahia, que começou assim. Meu tio “expulsou ela” de casa. Agora está na zona. É assim que acaba, dona Alma.
Senti um novo aperto no coração, ao ouvir aquelas palavras. Eu não podia abandonar Lea. Eu tinha que lutar para salvá-la de si mesma. Mas, ah! E se eu estivesse sendo ingênua, já que Lea sempre fora assim, essa é que era a verdade. Eu já a conhecera na prostituição, tinha que me lembrar disso. Eu é que era incorrigivelmente romântica, e a tinha, para mim, como uma pequena dama das camélias, não tísica, mas viciada naquilo tudo, como a outra não parecia ter sido. Afinal, não estávamos no século XIX.
Fechei a porta à saída do seu Ermírio, e dirigi-me ao quarto, ao encontro de Lea, que encontrei sentada na cama, quieta, mas com uma alentadora lágrima escorrendo no rosto. Ela ainda se magoava. Sim, ela tinha vergonha na cara. Ela tinha salvação. E eu... eu ainda a queria para mim.
Só para mim!
terça-feira, 25 de março de 2008
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