(dos Contos Pampianos de Alma Welt)
Quando guria, na nossa estância, no pampa infinito, eu adorava o vento, e o sentia como um amigo muito próximo, que de certa forma me amava, como eu a ele. Sim, o pampeiro era uma espécie de namoradinho sorrateiro, que brincava de levantar-me as saias, talvez de uma maneira nada ingênua.
Por isso eu fazia jus à sua malícia, e andava sem calcinha sob a saia, toda a vez que sentia o pampeiro começar suas peraltices. Pode parecer estranho, mas a verdade é que a minha sensualidade começou muito cedo, embora não desprovida de uma grande candura. Eu convidava meu irmãozinho Rôdo, que pegava pela mão, assim que começava a ventania. Ele adorava o nosso ritual, igualmente, que ele associava à visão das partes geralmente ocultas de sua irmã, embora meu pai nos pusesse sempre para tomar banho juntos, na banheira, justamente para incentivar a naturalidade em nós e, se possível, a ausência de malícia. Já contei, em outros momentos, as experimentações pedagógicas avançadas de meu pai.
É preciso que eu conte, que desde pequenina, eu me acostumara a urinar, em plena pradaria, acocorada de preferência sobre pequenas flores rasteiras, que eu regava, observada, com descaso, pelo meu irmãozinho. Mas, parece que por volta dos dez anos, esse ato começou a interessar meu irmão que, nesses momentos, tirava imediatamente seu pintinho para fora da braguilha e me acompanhava, num pequeno ritual urinário que para nós tinha um sentido ligeiramente mágico: nós acreditávamos que estávamos regando as flores e as ervinhas, ou mesmo que as fecundávamos. Nós corríamos descalços pela pradaria, pois para além do jardim, e das flores pudicas de minha mãe, nos sentindo livres de seu olhar vigilante, onde eu podia tirar meus lindos e absurdos sapatinhos de verniz, e correr sentindo a energia da terra, das ervas, e mesmo das flores, que subia pelas solas dos nossos pés. Nós entrávamos no ribeirão, nuzinhos, pois fora do alcance do olhar de quase todas as pessoas ( estávamos proibidos de nos banhar no açude, na verdade mais pelo perigo, pois ali se afogara já uma criança, filha de um peão, cuja mãe, enlouqueceu, depois disso).
Ah! Mas, quando começavam as rajadas, desde que não fossem, naturalmente, do frio minuano, eu ficava eufórica, e corria chamando Rôdo, para fruirmos as carícias do vento no rosto, e também sob minhas saias! Era mais uma dessas coisas que irritavam minha mãe, que me acusava de “excêntrica”, palavra estranha, com a qual nunca me acostumei, pelo tom pejorativo que ela tinha ao pronunciá-la. Mas, isso faz parte do extenso catálogo de implicâncias e mágoas em relação à Mutti, que eu procurava apagar, pela minha vocação, irresistível, da felicidade. Quanto ao meu irmão, nunca precisei perguntar se ele era feliz, pois isso seria desmerecer a sua força, que era uma verdade que me deslumbrava desde guris. Vocês, meus leitores, podem imaginar, o que é sentir essa segurança em nosso irmão, tanto quanto em nosso pai? Por isso, talvez, o espírito castrador de minha mãe nos foi, afinal, inócuo, e nada pôde contra o espírito de liberdade, inato e incentivado pelo Vati, em nós.
Uma deslumbrante manhã de verão, eu andava com Rôdo pelos campos, alegres, mas em silêncio, como era nosso costume, para fruir todas as maravilhosas sensações da natureza ao nosso redor, e sob nossos pés, quando, subitamente, começou o pampeiro com suas rajadas, de viés, brincalhonas e maliciosas, levantando-me a saia. Eu já estava preparada, isto é, nua por baixo, e deixei-me acariciar, sem sequer tentar fazer descer minha anágua. Foi então que, pela primeira vez, vi um brilho estranho no olhar de meu irmão, que, (pasmem!) me pareceu de ciúmes. Ele precipitou-se imediatamente sobre mim, me atirou com ele sobre o solo segurando-me os punhos sobres ervas, como se eu fosse reagir. Mas, eu! Eu não reagiria nunca a uma coisa assim, vinda de meu irmão, cuja virilidade precoce eu admirava tanto. Ele ficou olhando meu rosto, principalmente meus lábios, com os seus muito próximos, e, ofegante como eu, beijou-me longamente com certa violência. Embora estranhando um pouco, sua afoiteza, me excitara de imediato, e deixei-o fazer pela primeira vez o que veio em seguida: ele foi descendo, descendo, com seus lábios roçando todo o percurso e... beijou a minha “xotinha”. Beijou-a apaixonadamente, e, um dia, eu soube: instintivamente, pois, nosso sexo é uma boca com belos lábios apetitosos, feitos para o beijo. Eu quase desmaiei de prazer e enternecimento pelo pequeno ciumento! Sim, porque, sutilmente, eu detectara esse seu ciúme em relação ao nosso vento brincalhão.
Daí por diante, eu passei a jogar com essa “rivalidade”, pequena fêmea que eu era, dizendo-me “a namorada do vento”, com o intuito de repetir, o que de fato acontecia, ao infinito, aquela cena de domínio e afirmação do pequeno macho, o gauchinho, que acompanharia com seu maravilhoso e legítimo desejo toda a nossa bela vida juntos.
10/05/2006
terça-feira, 25 de março de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário