terça-feira, 25 de março de 2008

Pas-de-deux

( Conto de Alma Welt )

Tendo passado por uma temporada intensa de pintura, resolvo parar para conviver um pouco mais com o ser humano e interagir (essa palavra da moda) com ele, e suas imprevisíveis circunstâncias. Para isso, sento-me para escrever. É como me sinto agindo, vivendo no mundo e relacionando-me com o outro. Perdoem-me, meus leitores: são vocês os meus interlocutores ideais. Convivendo com vocês, no papel, não me sinto solitária, mas observada, “voyeurizada”,por assim dizer, enquanto escolho (realmente escolho? ) meus parceiros de aventuras. Às vezes me ocorre que sou escolhida por eles, essa é a verdade. Tudo pode ocorrer quando me sento à mesa para escrever...como, por exemplo, agora, que ouço, vindo do papel, o interfone, interrompendo este prólogo.
Levanto-me para atender e ouço a voz do seu Ermírio, dizendo que um vizinho do outro bloco do condomínio, quer falar-me e pede-me licença para subir, se possível. Digo ao seu Ermírio que sim, que o deixe subir. Visto rapidamente meus jeans, já que estou somente de calcinha. Quase esqueço de vestir também uma camiseta, quando a sineta do apê toca. Estou curiosa, quem será e o que quer esse vizinho?
Ao abrir a porta, deparo-me com um jovem alto, esguio mas musculoso, nitidamente gay, com um rosto belo e trejeitos discretamente femininos. Sua elegância de movimentos conquistou-me imediatamente. Reconheci nele um bailarino profissional, não tivesse eu mesma estudado ballet tantos anos.
—Alma–ele entrou dizendo—sou seu vizinho de condomínio, mas do outro bloco. Meu apartamento está de frente para o seu, num ligeiro ângulo, mas posso ver o que se passa na sua sala, no seu apartamento todo, na verdade. Espero que você me perdoe, mas venho observando você há algum tempo, desde que me mudei para cá, e estou encantado com o que tenho visto.
–Tu te referes à minha pintura?—indaguei curiosa e divertida, e também vagamente preocupada. Afinal, tenho o hábito de me locomover nua ou só de calcinha pelo apê, e jamais uso sutiãs. Além disso, meu quarto...
—Não, Alma. Na verdade, reparo menos na sua pintura em si, não é a minha “praia”. Mas a sua relação com ela, Alma, em forma e movimento... do seu corpo. Alma, eu a observo freqüentemente dançando em frente a telas, no cavalete, com o pincel e a paleta nas mãos, dando largas pinceladas, com gestos lindos, afastando-se na ponta dos pés, em sapatilhas de ballet, numa coreografia expontânea, que me encanta, embora clássica nos seus fundamentos, percebe-se. Você é bailarina, Alma. E das boas. Fico a observá-la quase todos os dias, muitos minutos seguidos, vendo-a dançar músicas que adivinho, porque o som não chega bem até ali. Estou encantado com a pintora que dança a sua pintura, no palco do seu ateliê, num solo diante de sua tela, no cavalete. Tive uma idéia. Você me deu essa idéia de presente, Alma, para uma coreografia original. Alma, você aceitaria dançar comigo essa coreografia, que já está, quase inteira, formada em minha mente? Venha comigo ao meu estúdio. Tenho um estúdio aqui perto, na Augusta, e você verá o que quero fazer. Você aceitaria ser minha “partner”? Tem que ser você, Alma. Somente você, não pode ser outra bailarina. Preciso de uma pintora de verdade... que realmente dance. Ou uma bailarina que pinte. Você virá, agora, já?
—Meu amigo, tu ainda nem me disseste o teu nome, ou eu não o captei no recado do porteiro. Ah! Serge? Como Lifar? Que inspirador!... Sim, Serge, irei contigo. Estou também encantada com as tuas palavras...e com essa idéia de coreografia. Como não pensei nisso antes?(na verdade eu já pensara vagamente nisso e até comentei-o na minha novela “Ariadne”)—Mas, Serge, devo levar minhas sapatilhas, agora mesmo?
—Sim Alma, bem lembrado, e leve também um pincel. Vamos fazer um teste, ou mesmo um ensaio, logo de saída. Tanto pensei nesta coreografia, que ela está praticamente pronta. Além disso, chegando lá, você terá outra surpresa. Vamos?
Acompanhei-o. Andamos somente um quarteirão e subindo uma escada para uma sobreloja, vi-me num salão de espelhos e barras, perfeito, de uma academia de ballet. Perguntei:
—Serge, tu também és bailarino clássico? Essas barras, esses espelhos...
— Sim, Alma, tenho formação clássica. Mas aqui fazemos uma coisa mista. E sobretudo dança expressionista e de vanguarda, mas sempre com a nossa base clássica, que nos dá mais fundamento, não é verdade?
—Serge, Serge, que maravilha! Sempre sonhei em voltar à dança...e agora, assim com a perspectiva de uni-la à pintora. Estou deslumbrada. Que outra surpresa me reservas?
—Veja, Alma— disse ele, abrindo uma porta lateral e puxando para o meio do salão um cavalete de pintura, escuro, com rodinhas. Em seguida foi apanhar um tela em branco e colocou-a sobre ele.
—Alma, falta a paleta, e as cores. Pegue o seu pincel. Basta um por agora, a menos que você necessite vários, não é? Venha, ponha as suas sapatilhas e faça para mim, por enquanto, o que você costuma fazer em frente ao seu cavalete, no ateliê.
Vesti as sapatilhas, cruzando as fitas meticulosamente. Emocionada, com o coração batendo forte, com o pincel na mão, ponho-me a concentrar-me por vários segundos, diante do cavalete, a uma distância de dez passos. Estou ofegante. Ele põe Debussy no aparelho. Pélleas et Mélisande. Então dou uma corridinha e ataco a tela com uma pincelada imaginária, já que estou sem a paleta e as tintas. Serge bate palmas, e vem recolher-me em meu recuo, segurando-me pela cintura. Começamos a dançar um pas-de-deux instintivo, em que me divido entre um amante, ou o marchand ideal, e a obra em processo. Um quadro nascerá desta dança, num ato de fusão, afinal, entre música e pintura. E também de amor e erotismo envolvidos na ação de pintar. Meu Deus, será a coroação dos meus sonhos... da arte total. Música, dança, pintura...e a poesia que brota disso tudo. Amor e arte, unidos, enfim!
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Serge e eu ensaiamos todos os dias, durante muitas horas. Ele é um maravilhoso bailarino, além de coreógrafo. Ensina-me a usar a base clássica da minha formação, mas com uma incrível liberdade de expressão, vinda da escola Laban, unida ao seu próprio estilo que vem desenvolvendo. Começo a perceber que estou nas mãos de um gênio da dança, coisa que eu não esperava. Devo colocar-me em suas mãos, sei que preciso confiar totalmente nele, mesmo porque ele sabe muito bem o que quer e freqüentemente mostra-se autoritário e impaciente, quando tendo a fazer puro clássico. Ele quer um balé expressivo misto, e simbolista ao mesmo tempo. Mas a originalidade maior ainda está por vir. Ele garante que a surpresa se dará no próprio dia da estréia, e que o improviso virá somente disso, nunca dos passos propriamente, que ele quer coreografados rigorosamente. Percebe-se que é um profissional, que odeia o diletantismo. O improviso deverá ser incidental, mas previsto, no meio da coreografia cuidadosamente marcada.
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Dançamos por horas, todos os dias, no estúdio de Serge. Seus colegas e discípulos param tudo para ver-nos ensaiar. Freqüentemente batem palmas. Algumas bailarinas jovens, belas, sentem-se um tanto enciumadas, eu percebo. Procuram chamar a atenção de Serge, nos intervalos, mas ele está concentrado demais, e obcecado com o número que concebeu. As mais generosas aplaudem nas pausas, ou no final do ensaio. Algumas vem abraçar-me e beijar-me, perguntando: “Alma, de onde você surgiu? Porque não ouvimos falar de você, antes?” Sorrio e faço um gesto vago com as mãos: “Estava pintando...”eu respondo.
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Rosalinda, a melhor dançarina da academia, olha-me com hostilidade e ciúmes. Diz que não sou do métier. Que sou pintora, vá lá, ou o que for, mas...bailarina? Onde estava eu nos últimos anos? Em que academia estudei, quem foram os meus mestres? Como enfeiticei Serge, assim, a ponto dele não mais se importar com as outras, parecendo tomado por esse “número”, por essa criação da qual faço parte inerente? Ela sabe que não poderei ser substituída, e isso é o que mais lhe dói: não poder derrubar-me, para fazer ela mesma este papel. É preciso saber pintar. Serge guarda esse dado importante da coreografia, para o próprio dia da estréia... e ele sabe que farei jus a ele. Rosalinda morde os lábios e empurra com raiva o cavalete para o seu canto, no final dos meus ensaios com o jovem mestre.
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Ao meu ateliê, Serge vem agora regularmente, para chamar-me a acompanhá-lo ao estúdio. Ou mesmo para observar-me pintar no meu habitat. Então danço para ele a nossa coreografia, e ele enlaça-me amorosamente a cintura, prosseguindo os ensaios. Peço, então, a ele que façamos assim: ensaiemos aqui mesmo, para fugir ao ciúme de Rosalinda e de algumas outras. E também de algumas bajuladoras.
Serge está entusiasmado e tem o olhar brilhante. Se sente inspirado, como eu. Haveremos de fazer uma estréia lindíssima. E o quadro nascerá, eu sei, inteiro, durante o nosso pas-de-deux. Essa será a surpresa para o público, e talvez, para mim mesma. Pintar um quadro inteiro, enorme, durante os poucos minutos de dança. Espero que Deus me ilumine e inspire, porque não terei outra chance como essa. É preciso que o quadro fique tão lindo quanto a nossa dança, com os mesmos ritmos e a mesma atmosfera: dança em formas e cores sobre o espaço do plano vertical. Uma experiência única na história do ballet, pois só eu , Alma Welt, pintora, poeta e bailarina, poderei fazê-lo!
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Meu partner vem se mostrando cada vez mais gentil e doce comigo. Isso não o impede de ser enérgico nos ensaios, quando é preciso corrigir-me. Mas noto-lhe a extrema ternura no olhar, e nos seus toques na minha cintura e nos meus braços e mãos. Esse homem extraordinário, tão feminino e ao mesmo tempo tão firme, cuja liderança é indisputável... Hoje à tarde demorou a soltar-me a cintura após pousar-me no chão, num determinado momento da coreografia. A estória inerente a essa dança, uma vez que, profundamente espiritual e simbólica, narra uma fábula de origem antiga, uma mistura do mito de Orfeu com o de Pigmalião e Galatéia. Tudo isso transposto para o ambiente de um ateliê de pintora contemporânea, abstracionista, como eu mesma sou nos últimos anos. Sinto-me, na verdade, como que biografada, além de coreografada.
Como dizia, Serge demorou a soltar-me a cintura depois de ter-me feito como que escorrer pelo seu peito. Emocionados e ofegantes, beijamo-nos profundamente. Então, ele me levantou novamente e carregou-me para o meu quarto e jogou-me na cama. Este movimento não estava previsto.
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Acordo com o Serge vestindo-se, com aqueles gestos elegantes, que não se espera de um homem. Seu torso maravilhoso, de musculatura definida como uma escultura grega. Suas nádegas perfeitas, pequenas, mas redondas, deliciosas. Ah! Quanto as mordisquei ontem à noite! Esse corpo sem nenhum pelo, pois que , na verdade ele o depila, inteiro, inclusive seu púbis, para que não o incomode ou apareça sob as finas malhas. Percorri esse corpo todo com meus lábios. E ele abandonou-se de maneira encantadora, quase feminina, ou andrógina, melhor dizendo. No entanto, sua virilidade nada deixou a desejar. E espantei-me dele esconder sob as malhas apertadas, um volume tão grande. Tratou-me com extraordinária gentileza e ternura, e abarcou-me inteira ao possuir-me, seus lábios percorrendo meu rosto, meus olhos, boca e orelhas. Também já percorrera o meu corpo todo com sua boca, com sua língua ávida, mas com que doçura! É o amante ideal. É o hermafrodita viril, a quem falta somente, na verdade, os atributos físicos femininos Estes estão subjacentes, ou embutidos na sua carne, e visíveis na sua alma. Sinto-me apaixonada por Serge, por esse homem perfeito. Um homem sensível, como queria Anaïs Nin.
Puxo-o pelo ombros, de volta para cama, para dar-me a ele, para toma-lo mais uma vez, antes de começarmos o dia e a nossa eterna dança. Eu o amo, tenho certeza. E ele...deve amar-me também.
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—Alma, Alma, estamos prontos. Vamos mostrar nossa obra. Está tudo contratado. Tudo preparado. É o Municipal, com grande orquestra. Temos todo apoio, patrocínio estadual e particular. Agora é tudo ou nada! Você está pronta como bailarina. Está pronta também como pintora? Lembre-se, você terá somente o tempo de duração do nosso pas-de-deux, para fazer um quadro completo, inteiro, uma pintura abstrata, que ilustre o que acontece com os nossos personagens. Movimentos e sentimentos traduzidos simultaneamente nos nossos gestos e nas cores da sua tela. Você está pronta, Alma?
—Sim, Serge, claro que estou. Tudo isso que estamos representando, nada mais é que a verdade. Tudo isso está acontecendo conosco, meu amor. É uma continuidade. Sinto-me assim, apaixonada, como a personagem, a pintora, que sou eu mesma. Tenho que cuidar apenas para não ter um orgasmo e desmaiar em cena. Ou será isso igualmente válido?—(sorri e fui beijada mais uma vez pelo jovem mestre de dança.)
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Véspera do dia da estréia. Passei a noite com Serge em minha cama. Ele possuiu-me inúmeras vezes (assim me pareceu), e eu a ele, de algum modo, outras tantas. Espero que ele não fique exausto. Devemos dar o melhor dos nossos corpos e das nossas almas, nesta estréia.
A noite deste dia será a última antes do espetáculo no Municipal. Passo o dia de molho, languidamente, guardando minhas forças. No fim da tarde saio para dar um pulo na academia, para ver Serge, por pura ansiedade. Quero perguntar a ele algumas coisas, algumas dúvidas que me ocorreram. Subo os degraus da escada do estúdio, num horário de fim de expediente. Empurro a porta e vejo-me no salão onde, numa explosão de espelhos, vejo refletida a cena inesperada e chocante: Serge está nu, de quatro sobre um colchonete, com um jovem bailarino, seu discípulo, agarrado a ele por trás. Ele geme, o meu Serge e entrega-se como nunca, como nunca comigo, que não tenho aquele atributo, agora vejo, essencial. Sobrepondo por segundos meu choque, minha estupefação, o fascínio da cena me toma inteira, e permaneço extática, siderada. Meu cérebro parou, por assim dizer, por um segundo, e eu vi o Hermafrodita, deflorado, invadido, validado enfim, para a eternidade. Percebi os detalhes, a entrega total, o Homem Ideal possuído por outro homem, igualmente hermafrodita. Não poderia lutar. Nada poderia contra isso. Contra esse arremedo próximo da perfeição. Contra esse legítimo desespero.
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Aquela noite eu dançaria a Pintora, com um êxtase amoroso, que plasmou-se em tudo, nos meus movimentos e na grande tela crua, na pintura que formou-se ali inteira, magicamente, diante dos olhos do público.
Os gestos, a dança amorosa, e os aplausos, passariam. A tela, no entanto, em sua maravilha, ficaria para sempre, permeada da dor que emanava de mim, pelo meu corpo, através do meu pincel.

FIM

21/06/2004

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