terça-feira, 25 de março de 2008

O canto do pássaro desconhecido

(dos Contos Pampianos, de Alma Welt )

Vou agora contar algo que nunca antes revelei, por demasiado forte ou escabroso, na minha movimentada vida amorosa, da qual, vocês, meus leitores, tiveram já amostras, embora um tanto filtradas, apesar de tudo.
Naquele verão dos meus dezessete anos, durante férias na nossa estância, eu estava no auge de minha beleza e... sensualidade. Rôdo voltara da Europa, onde estivera em intercâmbio, e ele, que havia crescido comigo em grande cumplicidade, pareceu deslumbrado e atraído de uma nova forma por mim, a irmã adorada por ele. Seus hormônios dos dezesseis anos estavam naturalmente alvoroçados, e a atração que sempre teve por mim não pode encontrar mais freios suficientemente fortes. A coisa se passou assim:
Rôdo, recomeçou a “inventar” pequenas aventuras como aquelas que nos motivavam na nossa infância, mas que agora não eram mais convincentes: ir buscar uma vitela desgarrada no pasto, ou a descoberta de uma flor ou de uma borboleta desconhecida. Eu sorria, enternecida ou intrigada, mas comecei a desconfiar ou mesmo a temer algo... Meu instinto feminino, me alertava, para uma possível armadilha. De quê ? Logo eu iria saber.
Meu irmão veio ao meu quarto para convidar-me a acompanhá-lo ao bosque pois queria mostrar-me um pássaro cantor maravilhoso, nunca antes visto por nós, que ele descobrira e queria que eu compartilhasse de sua descoberta e prazer. Confesso que desta vez, justamente, não desconfiei de nada. Meu inconsciente me traía? É possível. O fato é que o acompanhei à hora combinada, no dia seguinte bem cedo, que era a hora que, segundo ele, o pássaro entoava o seu mais belo canto.
Na noite que antecedeu a nossa incursão, tive um sonho erótico e inquietante, que deveria servir-me de alerta, mas que se desvaneceu ao acordar. Lembro-me que me banhei e me trajei com um gracioso vestido fino sobre a pele, e não vesti calcinha por baixo. Por quê razão? Bem isso era comum em mim, e fazia parte da impressão de liberdade que eu sentia com isso, mas também da minha sensualidade, característica e hábito que mantenho ainda hoje. Naquele dia isso se constituiria em elemento facilitador. Ou provocante... eu iria descobrir.
Depois de um chimarrão um tanto rápido, caminhei em direção ao bosque para encontrar-me com Rôdo.
No meio da pequena clareira que conhecíamos tão bem, tive ainda a ingenuidade de me pôr atenta para algum canto novo de pássaro. Logo percebi a aproximação de alguém pelo bosque e me pus atenta com o coração subitamente acelerado. A expectativa que se formara desde o dia anterior, minando-me começou a desmontar o meu auto-controle e a pôr-me num estado próximo do pânico. Não suportei e saí correndo, desvairada, sem coragem de olhar para trás. Mas, o mais perturbador é que meu medo era da perseguição de meu irmão desconhecido, o jovem macho, que me espreitava na floresta e que me invadiria, eu pressentia, de uma maneira nova, produzindo uma nova dor, insuportável. De onde me vinham aqueles pensamentos? Muitos anos mais tarde meu analista iria decifrar o enigma.
Corri e corri, desorientada, em pânico crescente, até que tropecei na relva e cai de bruços, em estado de choque com o impacto. Senti então que alguém levantava minha saia e abria minhas nádegas, levantando minhas ancas por baixo, pondo-me de quatro Senti, então uma dor imensa, como um ferro em brasa me invadindo, mais surpresa e assustada ainda, pois na esperava algo assim, por ali... território ainda desconhecido por mim. O invasor permaneceu por um tempo infinito de dor entrando e saindo de dentro de mim, até que a dor desapareceu e comecei a sentir uma espécie de prazer doloroso. Então nesse momento, desmaiei.
Acordei no sofá da sala, com o rosto do meu irmão sobre mim, e assustei-me de novo. Ele fazia schhhhhh... schhhhh... com o dedo em meus lábios, com um ar condoído e preocupado. Então perguntou:
—Alma, irmãzinha, o quê ocorreu, alguém te fez mal? Tu não foste ao nosso encontro! Foi Matilde quem te encontrou, desmaiada na pradaria. Ela chamou Galdério que te trouxe nos braços até aqui. Agora Matilde não pára de chorar, lá na cozinha. O que aconteceu?
Tu te lembras?

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28/10/2005

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