(dos “Contos Secretos”, de Alma Welt )
Subi a pé, com a minha mochila, a alameda ladeada de pinheiros e sebes floridas, que era a entrada da pousada que a minha amiga tanto recomendara. Eu já estava encantada desde logo, com o cenário magnífico dessa região serrana, que eu escolhera para o meu descanso, para as férias que eu me dera, da minha pintura...e talvez também da minha literatura. Ah! Eu não sabia, certamente, o que me esperava, embora o que viria a ocorrer, tenha sido uma das muitas aventuras a que me submeti, nesta vida, pelo simples fato de carregar comigo, aonde for, a minha beleza, esta é que é a verdade.
No pequeno saguão, encantador, ao balcão fui atendida por uma bela moça, estranha, peculiar, que me chamou a atenção. Pedi a ela, sorrindo, um quarto de frente para a floresta, que ficava nos fundos. Ela não me retribuiu o sorriso, o que estranhei. Essa moça não é simpática, pensei. Ou é triste. Acompanhei-a até o quarto, que ela abriu mostrando-me os confortos, o frigo-bar e a televisão. Mas eu só queria conferir a maciez da cama e a vista, belíssima, que se descortinava dali. Ela entregou-me a chave e saiu, desejando-me, de maneira formal, uma boa estadia. Joguei-me na cama, imediatamente, e adormeci.
Lembro-me de que sonhei que andava por um bosque muito silencioso, e comecei a ficar com mêdo, pois percebi-me perdida. Meu maior receio era da noite que se aproximava, e que me encontraria ali. Ah! A noite da floresta, temerosa, ancestral, que assombra os sonhos das crianças...e os nossos sonhos de adultos (que não crescemos jamais em nossas almas!)
Nada ocorreu no sonho, pois a simples angústia do extravio, foi o suficiente para acordar-me, ligeiramente curiosa pela continuação do sonho interrompido. O que iria ocorrer? Sempre acreditei que os sonhos são mensagens, para as nossas vidas. De algo ocorrido, ou a ocorrer, contendo a verdadeira resposta, mas cifrada, para o sentido profundo do nosso momento existencial.
De qualquer modo, o sonho interrompido motivou-me a penetrar naquela floresta, ali atrás da pousada Desci, passei pela portaria, e deixando a chave no balcão perguntei à recepcionista, a bela moça séria, se eu podia andar pelo bosque. A moça olhou-me com um estranho olhar, inquieto, mas disse que sim, que eu poderia. mas somente acompanhada do guarda-caça. Que eu aguardasse, ela iria chamá-lo.
Esperei alguns minutos e ela reentrou, acompanhada de um jovem alto e forte, de aspecto extremamente viril, com um olhar de águia, de olhos pretos.
O guarda-caça botou aqueles olhos predadores sobre mim, e eu estremeci. Pensei logo em desistir da aventura. Com aquele homem, com um olhar assim, não convinha entrar numa floresta, eu pensei. A noite do seu olhar cairia sobre mim, perdendo-me naquele bosque, pensei, com minha indefectível veia poética. Mas tive vergonha de recuar e segui-o como se não tivesse hesitações.
Apresentou-se como Rolando, e conhecedor daquela mata desde a sua infância, e afirmou que a sua natureza não tinha segredos para ele, salvo... não completou a sua frase, o que foi o bastante para inquietar-me, ao contrário do que ele deveria desejar. Entretanto segui-o, já que estava com meu tênis de andarilha, e os jeans com que chegara até ali. Ele olhou-me, num certo momento dos pés à cabeça, como para inspecionar-me,. dizendo estar contente de eu não carregar nada, e muito menos uma maldita máquina fotográfica. Ele não gostava de parar para posar ao lado de turistas, e toda aquela baboseira que acompanha as sessões turísticas de fotografias, com os “cheese” e “olha o passarinho!”.
Deu a entender que eu era a única hóspede da pousada nesse momento, já que estávamos fora de temporada, e isso produziu em mim uma súbita consciência de perigo, ou de temeridade, pois eu ia entrar numa floresta com um completo desconhecido.
Andamos em silêncio, durante o início de nossa penetração no bosque. Eu procurava fruir a beleza do lugar, aquela atmosfera quase sagrada que se experimenta numa floresta, com seu silêncio solene, cheio de sutis ruídos de invisíveis animaizinhos. Insetos e passarinhos faziam-se ouvir mais e mais, à medida que progredíamos na nossa incursão, como se um alarme geral estivesse começando. Eu estaria embevecida, e comovida mesmo, se uma apreensão sub-reptícia em mim não teimasse em se insinuar naquela caminhada em terreno desconhecido, primitivo, primal.
Então...começou a acontecer. Rolando parou, subitamente e voltou-se para mim. O seu olhar aquilino ficou novamente evidente, e eu tremi. Mas era tarde, ele olhou em torno rapidamente, o que aumentou a minha suspeita. Virei-me com um gemido, quase um grito, e comecei a correr a esmo, desorientada. Eu sentia que ele vinha no meu encalço, e ouvia seu resfolegar às minhas costas. Uma angústia, um medo ancestral, me tomou, minhas pernas fraquejaram e eu tropecei, cai de bruços, com um grito abafado talvez por uma mão, e num acesso de terror, desfaleci.
Acordei na minha cama, no quarto da pousada, com uma mão carinhosa, que enxugava meus lábios e minha testa com uma toalha. Fazendo um pequeno esforço pude focalizar a vista no belo rosto, que então me pareceu meigo, da recepcionista da pousada, depois eu soube sua co-proprietária com aquele guarda-caça, seu irmão. Instintivamente levei minha mão ao meu sexo procurando senti-lo, e corei diante daquela desconhecida.
Jamais saberei o que realmente aconteceu. Não tive ânimo de procurar saber. Aquele casal de irmãos era muito lacônico, o que de certo modo reafirma meus temores. Mas estou confusa, nada pude constatar.
Pedi a conta e tratei de deixar aquele hotel. Minhas férias teriam sido um fracasso? Eu não estava certa do significado daquilo tudo.
Creio que fui invadida de algum modo, qualquer que seja. Não importa a materialidade ou não dessa invasão.
Uma pequena dor voluptuosa e obscura no meu coração... ou na minha alma, o confirma.
terça-feira, 25 de março de 2008
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