terça-feira, 25 de março de 2008

A pintora pinta

A pintora pinta

Ainda sou jovem.. Reconheço meu próprio talento e sou grata por isso. No entanto, a solidão me pesa como um fardo inexplicável sob o qual me debato.
Alguém disse que “uma mulher bonita é a namorada lésbica de si mesma”. Não sei... Não sou suficientemente narcisista. Ou, talvez, minha auto-estima ande meio baixa. Mas, basta de considerações ociosas. Limitar-me-ei, se possível, a narrar os acontecimentos daquele dia, que marcaram para sempre a minha vida, senão a minha arte.
Visto-me caprichosamente após o banho demorado, que encheu de vapor todo meu ateliê, deixando minhas telas com um aspecto flou e suave, emergindo de brumas que lhes caem tão bem.
Sinto uma estranha volúpia em pentear-me e vestir-me cercada por esta neblina propiciatória de não sei o quê, que se prepara em meu destino.
Eu que não gosto de enfeites, hoje, me enfeito e coloco brincos nos buraquinhos quase fechados dos lóbulos de minhas orelhas delicadas. Por que digo isso? Estou ficando vaidosa... Até agora só me interessavam as projeções externas de minha personalidade, isto é, meus quadros, única beleza a espelhar minha alma feminina. Anima Mundi, vocês sabem...
Saio, afinal, trancando a porta do meu querido ateliê, meu porto seguro, qualquer que seja o resultado dessa excursão ao mundo exterior.
Este pensamento me acalma. Afinal, sou um pouco insegura e tímida por me sentir muito vulnerável, num certo sentido.
Alguém também disse que as mulheres pertencem a duas estirpes distintas. As filhas de Eva e as filhas de Lilith. Estas últimas são as mulheres fatais, as vamps, as destruidoras pelas quais os homens se apaixonam com resultados desastrosos. Meu irmão mais moço, ele próprio vítima de uma delas, disse-me ainda jovem, quase adolescente, numa espantosa intuição, algo que me fez pensar: “As mulheres não gostam verdadeiramente de sexo. Só o fazem por amor ou por dinheiro”. Tanto cinismo e desencanto num jovem!... No entanto, ele acertou, não em cheio, creio, mas pela metade. Certamente existem aquelas que amam o sexo pelo sexo. Filhas de Eva Sublevada. Mas, ah!, estas são as grandes perseguidas. Temidas pelos homens, freqüentemente estigmatizadas e tantas vezes destruídas. Cá estou eu, novamente, filosofando...
Como dizia, bem, não pertenço certamente à estirpe maldita de Lilith, embora também não consiga me imaginar companheira ou servidora de um homem. Todavia, ocorrem-me sonhos durante à noite, de estranha sujeição erótica, de penetração e doce repleção, às raias do aniquilamento prazeroso, se posso dizer assim. Sim, uma voluptuosa dissipação da minha vontade, numa entrega tão profunda que me faz acordar molhada, surpresa e confusa. Serei eu assim? Quem é essa mulher em quem me transfiguro em meus sonhos, quase tão estranha para mim como a minha própria e sempre surpreendente imagem no espelho? E quem são esses homens sem rosto em meus agradáveis e perturbadores delírios?
Com esses pensamentos, dirijo-me à galeria de arte que me foi recomendada por uma vizinha, senhora mais velha que nela trabalha como gerente. Essa senhora me encontra no elevador e corteja-me com um vago tom nostálgico, como se olhasse na tela de seu próprio passado, com carinho e ternura meio melancólicos. Bem, vamos em frente...
Chego à galeria num momento embaraçoso para a minha amiga. O marchand, com voz áspera, discute com ela num tom contido, mas agressivo, que funciona como um látego, pareceu-me.

Tremendamente embaraçada, sirvo para interromper a constrangedora contenda, separando os dois oponentes. Ela se dirige a mim com os olhos cheios d’água, tão magoada que logo suspeitei uma paixão oculta.
—“ Esse homem é um cavalo!”, desabafou ela num soluço.
Beijei-a no rosto, abracei-a, consolando-a sem palavras, consternada, seguindo com o rabo dos olhos o patrão que se afastava aborrecido por ter sido flagrado em crueldade. Estremeci, observando-lhe o andar felino, a silhueta elegante, máscula, um pouco sinistra com seus óculos escuros, que lhe davam, juntamente com seu terno italiano, o aspecto de um glamuroso gangster de cinema, enquanto ele entrava e sumia em seu escritório.
Minha amiga desculpou-se pela situação, envergonhada pelas lágrimas que lhe borravam a maquiagem e pediu licença para retocá-la no toalete. Deixou-me sozinha na galeria subitamente deserta, para meu alívio, pois podia agora admirar os quadros do acervo, expostos.
Demorei-me em frente de um maravilhoso Portinari: Futebol dos meninos de Brodowski, hoje numa famosa coleção particular. Estava encantada com a predominância dos terras, do tom avermelhado do solo da região do pintor, quando ouvi atrás de mim a voz do marchand, italianada, mas macia e aveludada, estranhamente gentil e sedutora, em contraste com a cena que eu presenciara ao entrar. Perguntava-me o que eu mais apreciava naquela pintura e logo pondo-se ao meu lado passou a mão sensualmente na superfície do quadro, descrevendo-o com sugestivas e singelas metáforas. Reparei nas suas mãos grandes e fortes, mais de artista do que de comerciante, antes de ousar olhá-lo nos olhos. Quando o fiz, senti imediatamente o impacto da doce perdição que me aguardava, através dos olhos negros, másculos e penetrantes debaixo das grossas sobrancelhas de italiano das montanhas, raça de pastores dos Abruzzi. O nariz romano antigo, como uma águia, capturava junto com os olhos tudo ao seu redor. Grande e inato predador em eterna auto-contenção. Esse era o seu dilema. Um homem forte e violento que queria ser bom a todo o custo, domando-se a si mesmo.
Fui envolvida pelo arsenal de suas palavras, olhares e gestos que me amoleceram, embalaram, cativaram. Estava perdida desde então.
Fui convidada a jantar em sua casa aquela noite. Ele adorava cozinhar como bom italiano, e prepararia algo especial para celebrar o nosso conhecimento e depois me mostraria sua coleção particular de obras de arte, da qual falou lindamente, com amor e admiração pelos pintores. Calei-me quanto a minha condição de pintora profissional, mas novata. Estava deslumbrada com a consideração que aquele homem importante e experiente me dispensava. Eu não levava em conta, então, por ingenuidade, acreditem, minha feminilidade e beleza. Pensava em mim, sobretudo, como artista, louca ambição desde minha infância solitária.
Minha amiga saiu, afinal, do toalete e surpresa nos encontrou embevecidos, olhos nos olhos, já em silêncio cúmplice, não sabíamos de quê. Só lhe restava retirar-se, já que era quase fim do expediente, o que fez sem despedir-se, confusa, pareceu-me. Não havia lugar para mais nada nem ninguém a partir daquele momento.
A paixão nos tomara. Começariam o êxtase e os tormentos que a acompanham. Não podia mais me refugiar no meu ateliê. Disse-lhe que o encontraria em sua casa, cujo endereço me deu por escrito, mas saindo com esforço, fui fazer hora numa casa de chá próxima, cismando e sonhando como uma sonâmbula diurna. Não me lembro do que pedi, nem quanto tempo se passou. Solicitei, afinal, a conta a um garçom encantado que me olhava com curiosidade e saindo dirigi-me para casa do “meu” marchand, que me esperava em pleno preparo de um maravilhoso jantar, cheio de sutilezas e iguarias, na mais autêntica tradição rural de sua região de montanhas.
Recebeu-me na cozinha e logo dispensou seu empregado que me abrira a porta. Notei este fato que me pareceu natural e que já não mais podia me assustar, desde que ele mantivesse aquela doçura surgida em nosso encontro. Era um perfeito cavalheiro. Mais do que isso era já um homem apaixonado, eu sentia. Só nos restava trilhar a estrada de enlevo e prazeres que se nos oferecia a partir do nosso encontro providencial.
O jantar transcorreu cheio de encantamento, mas eu reparava menos na comida e no vinho maravilhoso do que nos seus olhos, sua voz e suas palavras. Eu estava inebriada. Não podia conceber tantos prazeres simultâneos.
Ao terminar o vinho, perdoem-me o romantismo, eu queria docemente morrer em seus braços. Mas sabia que isso tudo era somente o prólogo, isto é, o jantar, e que a sobremesa era certamente eu mesma.
Essa idéia me fez sorrir deliciada, mesmo antes dele afastar a toalha com pratos e tudo até a metade da mesa e, num gesto súbito, agarrando-me pela cintura alçar-me sobre esta parte descoberta da mesa, quase derrubando os candelabros de velas acesas que nos iluminava e escondia em sombras instigantes. Eu estava agradavelmente surpresa, sem susto, como se aquilo fosse esperado após tal jantar. Levantou-me a comprida saia indiana que eu usava, fina sobre a pele, arrancou-me a calcinha e levantando minhas pernas sobre a mesa abriu-as sem que eu ousasse resistir. Oh! Doce estupro consentido. Oh! Querida dor tão longamente acalentada em meus sonhos. Eu estava no paraíso e minha virgindade, acreditem, era oferecida no altar adequado à nossa luxúria e sofisticação: a mesa da cozinha de um repasto celestial.
Após um tempo infinito de dores e sublime prazer, saiu de dentro de mim, manchado de meu sangue que escorria da borda da mesa entre minhas pernas para o chão de ladrilhos. Estava enternecido como eu com este sangue e sugestivamente degustou o fim de sua taça de vinho tinto com um olhar de pura malícia inocente.
Nós teríamos a noite toda em sua cama para tingir os lençóis inteiramente com este vinho da nossa paixão. Acordaríamos nus e manchados nos braços um do outro. Nos banharíamos, em seguida, juntos, na banheira e ele me lavaria como um bebê, suavemente, encantadoramente. Depois, trocamos os lençóis para voltar para a cama, pois ele queria trazer-me o café da manhã de sua especialidade. Desconfiei, então, de tanta harmonia, de tanto savoir faire. Bem, afinal, ele era um homem experiente. Melhor não pensar nisso...
Permanecemos naquela cama por três dias e três noites inteiros. Eu me sentia parir ao contrário, introjetando uma criança, um homem, um deus. Entusiasmo!
Após esse tempo, no amanhecer do quarto dia anunciou-me pesaroso e constrangido sua partida para Roma, a negócios, com sua ex-mulher italiana, mãe de seus filhos. Não poderia levar-me, mas propunha-se a pagar minha passagem no mesmo vôo, se possível, desde que disfarçássemos até lá chegar e instalar-me num hotel, esperando suas visitas. Aquilo causou-me confusão e mal-estar. Não esperava por isso. Vi-me subitamente como a “outra”, vislumbrava um futuro angustiante, de esperas e clandestinidade. Não estava preparada para tão grande decepção. Pus-me subitamente furiosa, gritei, esmurrei-lhe o peito e fui humilhantemente calada por uma nova penetração, que me causou doída satisfação e embaraço. Nada podia fazer. Era impotente perante o destino, e o destino era aquele homem. Aquietei-me, temerosa de mim mesma: eu me desconhecia. Segurei-o dentro de mim com uma misteriosa sucção que ele, surpreso, notou. Tentou desprender-se rindo, acabamos gargalhando juntos, interrompidos por nossos beijos sufocantes, avassaladores.
Depois, vestimo-nos e fui levada de carro até a porta do meu prédio, onde o porteiro atrevidamente perguntou-me se eu tinha viajado, e onde estava a minha bagagem. Não dei, naturalmente, nenhuma satisfação, entrei no elevador e subi para o meu refúgio traído, meu doce ateliê, fiel e acolhedor, para toda uma vida.
Ao entrar deparei com a tabuleta por mim pregada no corredor junto à porta, com a inscrição do primeiro dos dez mandamentos do Pintor, de Salvador Dali:
“Pintor, pinta”!
Sorri melancolicamente consolada e preparei-me para enfrentar uma grande tela em branco.

Nenhum comentário: