(dos Contos Secretos, de Alma Welt)
Sinto-me mergulhada, novamente, num leve vapor de culpa, que, a princípio, confundi com melancolia, como se faltasse algo a dizer, a exprimir, em relação a alguém, de quem o meu coração é devedor. Será ao meu irmão Rôdo, ao Vati, à Aline, à Laís, à Vânia, aos meus sobrinhos, minhas queridas crianças, que vocês meus leitores sem rosto, conhecem tão bem? A quem estou devendo? Por quê não mais me sinto feliz? A todos eu amei, e amo. Por quê, então, me sinto devedora?
Eu não soube, ou nunca pude amar, devidamente, à Mutti, minha própria mãe, vocês devem ter notado. E certamente viemos ao mundo com um único propósito, senão uma obrigação: o de amar, a tudo e a todos, disso estou convencida desde sempre, não como algo que me ensinaram, porquê exatamente ninguém o fez, mas como algo que descobri muito cedo. Trata-se da única condição para se ser feliz: amar incondicionalmente as pessoas, perdoar os maus, e amá-los também, se possível. Mas a minha mãe não era propriamente má! Nada disso. Apenas não podia compreender-me, e ao meu mundo, Welt, herdado do Vati, com todas as implicações filosóficas que o meu nome implica. Minhas mãe não amava o mundo. Amava, no máximo, a ordem, os chamados bons costumes, e a moral vigente, da qual eu era uma transgressora nata, que ela logo detectou. Ela amava o Vati? Nunca pude perceber isso claramente; e onde há dúvida, há fumaça.
Percebi, depois dos quatorze anos, que a minha mãe temia profundamente a minha sensualidade e mesmo... minha amorosidade, se é que existe essa palavra. Em outras palavras, ela receava que eu me tornasse prostituta, pela sua limitação em entender que, uma pessoa profundamente amorosa e livre sexualmente é o contrário, por definição, de qualquer sentido de prostituição, que implica vender-se, e não dar-se por amor ou prazer, como foi sempre o meu caso. Mas, apesar das mágoas por tanto equívoco e mal entendido, em relação a mim, ela nunca logrou contaminar-me com sentimentos de culpa e de pecado, que permaneciam fora do meu mundo interior, de natureza pagã, semeado ali, na minha alma, como terreno fértil para os deuses, pelo Vati, o grande sacerdote panteísta, o druida, que habitava a estância dos meus sonhos. Por quê, então, essa culpa aparece agora, em relação à minha pobre mãe? Por eu não tê-la amado, certamente...
Estou me dando conta da profunda crueldade implicada em não amar-se alguém que nos é tão próximo. Em não amar-se a própria mãe, eis tudo. A culpa teria que chegar, mais cedo ou mais tarde. E agora, passados tantos anos da sua morte, aqui me vejo, subitamente culpada, e as primeiras lágrimas por ela, assomam-me os olhos.
Mas, seria possível que alguém não amasse a própria mãe, na infância, pelo menos? Os estudiosos da psicologia humana parecem divergir quanto a isso, e ao chamado complexo de Édipo se oporia um suposto “complexo de Electra”, denominação que ao que parece nunca “pegou” em psicanálise, embora me pareça um bom achado. Electra matou sua mãe, Clitemnestra, para vingar seu pai Agamenon. Quis eu vingar meu pai, por não acreditar no seu amor por ele? De onde tirei eu essa idéia suspeita? Da minha própria paixão “edipiana” por meu pai? Uma análise freudiana bem feita talvez já me tivesse respondido essa questão. Por quê, então, não me submeto a ela? Porque, talvez, eu necessite do próprio mistério, das brumas da minha alma, de onde retiro minha clara poesia, como quem mergulha os dedos no lodo, para encontrar pepitas de ouro.
Lembro-me de um período em minha pré-adolescência, em que minha mãe, a Mutti, como nós a chamávamos não necessariamente com carinho, vinha de noite ao meu quarto, pé ante-pé, acreditando-me adormecida, nas noites de verão, descobria-me, e cuidadosamente, lentamente, para não me despertar, abaixava minha calcinha e aproximava suas narinas da minha “pombinha”, aspirando, para ver se detectava sinais, cheiros, sumos( que sei eu?), de perda de virgindade ou promiscuidade. Lembro-me de como, fingindo-me adormecida, isso me perturbou, e como derramei lágrimas no escuro, de pura confusão de sentimentos. Ela temia a verdade, hoje reconheço. A verdade de minha paixão sem peias, sem medo ou repressões internas, por meu irmãozinho. Ela temia a minha liberdade, que a escandalizaria mais ainda, se ela a descobrisse em sua totalidade. Muitos anos depois eu conferi com Rôdo essas impressões e ele revelou que ela fazia o mesmo com o seu “pintinho”. Pobre mamãe! Como devia sofrer...
Mas, devo reconhecer que eu sempre soube da natureza do sofrimento de minha mãe. No entanto, a mim cabia exercer a minha liberdade e usufruir os meus dons de alegria e prazer, sem culpa, coisa raríssima, reconheço, numa criança criada assim em dois mundos, mas que fizera uma claríssima opção, se é que isso é possível. A minha natureza de artista, certamente, é a responsável por essa clareza.
Feito esse longo preâmbulo, passo agora a narrar a passagem de minha infância de que me lembrei, nesse momento, e que me fez reconhecer minha culpa pelos sofrimentos de minha mãe.
Após o primeiro choque com as inspeções noturnas da Mutti, eu resolvi afrontá-la. Tratava-se de um movimento previsível em minha personalidade, não maldosa, mas afirmativa, audaz. Para isso eu precisava tão somente a cumplicidade de Rôdo, e isso era, como se diz, sopa no mel. Resolvi simplesmente entregar-me ao meu irmão, bem perto da hora de dormir, no seu quartinho no sótão, e... guardar o meu sangue e o seu sêmen, que sempre me fascinara, nas suas demonstrações masturbatórias experimentais que ele me fazia compartilhar, com enorme prazer e curiosidade. Sim, guardar seu sêmen na minha “xotinha’, para exibi-lo durante meu falso sono, de começo de noite, ao olfato e talvez ao tato de minha mãe. Assim aconteceu, meu irmãozinho ejaculou pela primeira vez dentro de mim, e não me deterei sobre a impressão, sobre o imenso prazer e deslumbramento que isso me causou. Algum dia o farei numa outra narrativa. Por ora, estou descendo degrau por degrau, com as perninhas bem fechadas, a escadinha em caracol, da mansarda de meu irmão, para não deixar escorrer em vão o precioso fluido, testemunho da minha coragem, do meu desassombro!
Aquela noite, eu nem sequer usaria a calcinha para dormir, e, como eu previa, minha mãe, ao realizar seu ritual aspirando o novo perfume da minha vagininha, estarreceu-se no escuro, eu senti, e após uma pausa hesitante, introduziu o seu dedo mínimo cuidadosamente no meu buraquinho, e colheu a “prova do crime”, do delito, do pecado, do estupro, (que sei eu de sua cabeça?). Atritou os dedos (eu percebi abrindo um olho no escuro), cheirou-os e... (pasmem!) lambeu-os. Ouvi um profundo gemido, quase um grito, enquanto a silhueta de seus punhos se dirigiu para o alto, por um momento de horror e perigo.
Então, vi o seu vulto, como uma sombra negra aterrorizada, fugir daquele quarto.
E eu sabia que para sempre.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
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