(Conto de Alma Welt)
Hoje recebi uma
carta comunicando o falecimento de uma tia muito idosa e querida. Depois do
choque e pesar iniciais, o fato remeteu-me imediatamente a certas recordações
de minha infância. Umas férias em sua fazenda, que marcaram minha vida para
sempre, e decidiram, talvez, meu destino de artista.
Chegava com minha
mãe à fazenda de minha tia, pela primeira vez. Esta confluía com acidade de uma
forma privilegiada. Na verdade, a cidadezinha crescera nas terras que meu avô
perdera aos poucos a cada notada no jogo de cartas de uma época remota de sua
longa vida. A cidade ia sendo construída e parou na sua porteira. O casarão
colonial, térreo mas com porões na parte descaída de trás, ficou ancorado, com
um aspecto meio adernado na saída da cidade. Lembro-me da forte impressão que
me causou seu assoalho de grandes tábuas esburacadas aqui e ali, e os quartos
misteriosos, algumas alcovas, tudo muito velho e tosco, fascinante para uma
menina nascida na cidade grande.
Perto dali, na queda
de um riacho, uma roda d’água sob um caramanchão feito de enormes troncos,
movia uma poderosa serra emoldurada em grossas vigas, que subia e descia,
serrando toras imensas, pousadas em dois vagonetes pesados de madeira antiga, sobre
trilhos. Era o Engenho. Sob ele, à margem do riacho que corria por baixo movendo
a imensa roda, uma duna de pó de serra, cujo odor, agora na memória me parece mais perfumado que então.
Assim que chegamos,
meus primos, três meninos pouco mais velhos que eu, morenos, queimados de sol,
rudes e maliciosos puseram olhares ávidos sobre mim, menina delicada e branca,
de aspecto frágil, tímida e doce como as meninas costumam ser. Assim que
escapei ao cerco inicial da recepção carinhosa das primas adultas, vi-me
assediada por dois deles, que olhavam ostensivamente meu corpo rodeando-me para
examinar meu traseirinho, para minha surpresa e confusão.
Estavam eles
absolutamente cheios de desejo, fascinados pela espécie de menina ruivinha
exótica que eu era, aos seus olhos. Convidaram-me discretamente a conhecer o porão
da casa, onde tinham seus quartos e camas, pois a parte térrea era das moças e
de minha tia no seu enorme quarto indevassável.
Levaram-me até a
pequena mesa de cabeceira de um deles, a pretexto de me mostrarem seus pequenos
tesouros. Dentro da gavetinha havia um estilingue de jabuticabeira cuja
forquilha era entalhada nas pontas para firmar um elástico feito de borracha de
pneu, com a funda de couro. Havia ainda um pião torneado de madeira, que era
enrolado num barbante e que dançava nas hábeis mãos deles. E um canivete suíço,
vermelho, de mil utilidades. E figurinhas da segunda guerra mundial. Ah! E um
cachimbinho miniatura feito de coquinho (uma semente de palmeira que eles
chamavam assim) que me encantou.
Trataram de pôr um cigarro nele e tragaram longamente para acabar de me
seduzir. Eu estava cativada por aqueles objetos que eu nunca vira e que me
pareciam maravilhosos. Despertando minha cobiça infantil, eles faziam chantagem
com aquilo, para me comprar, eu intuí, mais do que entendi isso. As meninas
eram praticamente inalcançáveis pois muito vigiadas pelos adultos, mas aqueles
meninos estavam obcecados por mim, agora eu vejo: eram temerários, e se
arriscavam...
Desejei que me dessem algum desses objetos. Na verdade
queria todos eles. Os meninos hesitavam entre o galanteio e o suborno. Pedi que
me ensinassem a fazer um cachimbinho e um estilingue como aqueles. Faziam-se de
difíceis, pretextando dificuldades, sempre me olhando, comendo-me com os olhos,
e já apalpando-me disfarçadamente. Um deles tirou, então, de debaixo da cama
uma pipa de varetas de bambu e papel de seda colorido, coisa que eu só tinha
visto de longe até então. Aquilo quase me derrotou. Senti-me estranhamente
embriagada, e prestes a abandonar-me. Começaram exigindo em troca que eu lhes
deixasse beijarem-me os lábios e porem as mãos onde quisessem.
Protestei, implorei, esquivei-me o quanto pude. Na verdade,
um estranho prazer nascia dentro de mim com aquele assédio, que despertou uma
lembrança remota de uma primeira babá que me tocava e beijava os lábios e as
partes íntimas.
Agora, entre esses
dois priminhos fortes, viris e luxuriosos, eu corria perigo. Fui salva pelas
primas, chamando-nos do alto da escada para o lanche que serviriam naquele
momento. Desvencilhei-me e corri escada acima, fugindo daquele porão ameaçador.
Daí por diante, todos os dias buscavam nova aproximação. Eu
tratava de manter-me afastada, rodeando a saia das minhas primas. Agarrei-me à
feminilidade segura e autoritária de mulheres ainda jovens mas adultas, uma vez
que diante de minha mãe me sentia estranhamente culpada. Elas pareciam
encantadas comigo e me levavam pra cá e pra lá. Minha mãe notou, mas equivocadamente
sugeriu que eu participasse mais da “vida saudável e esportiva das outras crianças”. Pobre mamãe,
se soubesse...
Um dia, acompanhei
uma prima à costureira, numa ruela que seguia a estrada da porteira. Andamos
até uma casinha geminada, singela, típica de rua pobre do interior. Entramos
pela meia- porta e janela, de tramela, numa salinha de chão de cimento vermelho
encerado. Havia somente um sofá de plástico de um padrão chapiscado, e nada mais. Fomos recebidas pela costureira, e minha prima
pediu-me que a esperasse, na sala, no sofá, enquanto entravam num quarto à
esquerda para provar o vestido. Sentei-me procurando em que pousar os olhos
para distrair-me, quando estes bateram em um quadrinho, uma fotografia em
moldura oval, pendurada muito alto na parede, quase junto ao teto, por um cordão
por trás, inclinada para baixo, como costumam fazer. Tive uma sensação
desagradável, desviei o olhar. Como a sensação persistia, voltei o olhar até
distinguir o retrato de um menino de terninho e gravata, sentado muito ereto
numa enorme cadeira de espaldar alto. Fitava com um olhar estranho, que me
causou arrepios. Estava muito bem penteado e suas mãozinhas pousadas nos
joelhos, de meias brancas três quartos e sapatos novos. Mas a estranheza
persistia e eu mal podia encará-lo, desassossegada.
Minha prima afinal saiu do quarto acompanhada da costureira,
combinando retorno, e segui-as até a porta. À saída, não resisti, virei-me e
apontando com o dedo perguntei à mulher: “Senhora, de quem é aquele retrato?”
Ela voltou o olhar para ele, suspirou e disse:
- “Ah! Aquele é o
Joãozinho, coitadinho... Nóis não tinha nenhum retrato dele, então vestimo ele
com seu terninho de primeira comunhão, e como ele tava de zóio aberto, pusemo
ele sentadinho pra ter uma lembrança dele.”
Saí dali meio atarantada e acompanhei minha prima de volta à
casa, em silencio as duas. Permaneci silenciosa alguns dias, sentando- me muito
durinha, com o olhar parado, em cadeiras altas quando as encontrava. Permanecia
no âmbito das primas adultas mas me percebia cercada à distância pelos jovens
lobos. Aqueles dois observavam-me com risinhos maliciosos, que talvez fossem
notados pelas minhas primas. O terceiro, contudo, olhava-me de outro modo.
Este conseguiu, com
sutileza, furar o cerco e aproximar-se. Cochichou-me com delicadeza a proposta
de um encontro secreto sob o engenho, na duna de serragem. Fiquei excitadíssima
com a aventura que se descortinava. E meu coração bateu forte. Ali nos
encontramos e ele (pasmem!) pediu-me em casamento. Trazia num saco um vestido
branco de uma de suas irmãs, que por ser moça me ficaria comprido até os
pés. E um véu de tule branco!
Saímos dali, pois estávamos sendo vigiados de longe por um
outro primo mais velho. Homem de seus trinta e poucos anos, de grandes bigodes
e olhos verdes de cobra, brilhantes e insondáveis, sempre ocioso por ali, nas
imediações do Engenho e da casa grande. Andando rápido, com pequenas olhadas
para trás, chegamos à clareira de um bosque onde, para minha surpresa esperava-nos
um menino pretinho, que por ser coroinha fora escolhido para ser o padre
oficiante . Estava vestido co um saco de aniagem, imitando uma batina. Meu
“noivo” enfioume-me o vestido branco por cima do meu e colocou-me o véu.
Afastou-se um pouco para olhar-me e disse que eu estava linda. O pretinho então
simulou os ritos do casamento, com todas as fórmulas resumidas, até o “na
alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe”.
Aceitei, disse o sim ao noivo agora esposo, que levantou-me o véu e beijou-me os lábios apaixonadamente.
Eu estava emocionada e confusa. Deixava-me envolver. Mas agora com doçura, pois
aquele era um menino puro e honesto, eu intuí...
Olhei-o bem nos
olhos e estava prestes a apaixonar-me por ele quando um ruído desviou-nos a
atenção. Alguém se aproximava. Vimos somente um vulto, pois já estávamos no
crepúsculo. Arrepanhei a saia e saímos correndo, enquanto eu me desvencilhava
do vestido e do véu, em plena disparada. Virei-me um momento e vi um cão que
atacava o véu, estraçalhando-o, com grandes rosnados e açulado por uma voz
masculina muito grave.
Após esse episódio, afastei-me de todos. Estava
envergonhada e buscava a invisibilidade, mantendo-me muito parada e silenciosa.
Meu “maridinho” olhava-me, parecendo ansioso, sem conseguir nova aproximação.
Começou uma temporada de garoa fina, que somada a um certo prelúdio de Chopin
que vinha a toda hora da sala do piano pelas mãos de uma das primas, começou a
produzir a primeira das fases de melancolia que me acometeriam ao longo da
vida. Minha pobre mãe fitava-me com amor e grande pena nos olhos, sabendo tudo
sem nada saber.
Tive então um período de trégua. Andava pelo terreiro,
atrás da casa, “ciscando com as galinhas”, colhendo ameixas amarelas num pé que
havia no centro desse espaço recoberto por uma espécie de saibro. À esquerda
havia um paiol de milho, contíguo a uma selaria ou quarto de arreios de um lado
e um galinheiro do outro. Tudo debaixo de um telheiro que cobria também o poço
ou cisterna de onde minava toda a água cristalina para os banheiros e a
cozinha. Nesse terreiro, junto a poço eu assistiria, aterrorizada, a matança de
um porco capão enorme, que gritara, berrara desde desde o amanhecer do dia do
seu sacrifício, de uma maneira pungente que me horrorizava, mas sem me impedir
de assistir a todos os trâmites: a
punhalada no coração, o recolhimento do sangue
numa bacia para fazer chouriço, a
abertura da carcaça transbordante de gordura retirada para os latões de banha
fervida e para fazer torresmo; as mulheres se azafamando com bacias indo e
vindo da cozinha para o terreiro enquanto o fogão de lenha fumegava pela
chaminé do telhado. Tudo fora aproveitado, nada se perdera exceto a vida do
animal. Até as suas tripas foram usadas para as lingüiças. Mas tudo sangrento e
cruel como uma hecatombe. E eu já não seria a mesma depois daquela visão.
Resolvi, então, enfrentar
a aproximação do meu noivinho, aliás maridinho,
que me olhava o tempo todo de uma maneira que me tocava o coração. Não
tardei a perceber que ele agora esperava a lua de mel. Encontramo-nos nos
fundos do pomar e ele quis logo beijar-me e apalpar-me. Dei-lhe uma certa
margem, mas eu estava assustada, era meu primeiro “casamento”. Quis conhecê-lo
melhor, mas estávamos ofegantes, de emoção. Balbuciamos um pouco, não foi
possível conversarmos. Talvez não houvesse mesmo nada a dizer. Deitei-me sob
uma figueira, fechei os olhos e esperei. Ele abriu meu vestido, e abaixou-o até
a minha cintura. Permaneci com os olhos fechados, como coração palpitante. Não
queria ver nada. Somente esperar e... sentir. Para minha surpresa, depois de
alguns segundos senti gotas frias que caíam sobre o meu peito. Abri os olhos e
o vi recolher apressadamente o pintinho e fechar a braguilha. Toquei meus
pequenos seios e olhei-os. Uma substância viscosa, branca e gelada cobria-os.
Fiquei ali atritando os dedos para sentir e conhecer a sua consistência,
levei-os às narinas e senti um cheiro forte que me pareceu conhecido. Meu
priminho deu-me as costas e fugiu, de repente. Demorei vários dias para
entender o que tinha se passado e de onde tinha vindo aquela gosma branca que
ao secar parecendo cola, repuxou os meus mamilos causando-me arrepios
prazerosos. Ainda hoje, vinte anos depois, basta desnudar-me a parte superior,
expondo-me, mesmo que seja só ao espelho, para sentir aquela sensação nos bicos
dos seios. Creio que aquilo foi um batismo... e o tenho como sagrado.
Meu maridinho
(Angelino era o nome do menino), depois disso sumiu uns dias, talvez
envergonhado, dando-me tempo para assimilar aquelas sensações, tão novas para
mim e tão maravilhosas. A melancolia fora-se. Um sentimento vital me iluminava,
para alivio de minha mãe, e alegria de minhas primas que começaram a mimar-me
como nunca. Penteavam meus cabelos e faziam vestidinhos, como para uma noiva
impúbere. Era assim que eu me sentia. Mas elas estavam atrasadas: eu já fora
consagrada ao prazer e ao amor e seria fiel a eles para sempre. Nada poderia
destruir essa aliança que fiz com minha própria carne. Tinha uma certeza semi-consciente
disso, e esta foi, daí por diante a minha força...
Comecei a desenhar novamente, mas agora nessa fase em que
as outras crianças não mais se importam com desenhos. E eles me pareciam
maravilhosos. Minhas primas e minha mãe os achavam precoces e por isso os
admiravam. O corpo feminino aparecia neles, com intenções anatômicas,
juntamente com cavalos, galos, touros e vacas, que eu via por ali. Para as
mulheres dos meus desenhos eu necessitava modelos, como as minhas primas, e não
tardou que elas, vendo minhas tentativas resolvessem posar para mim,
secretamente, nos quartos. Devia ser insólita a cena dessas moças, desnudas,
posando para uma menina pré-adolescente concentrada e séria. Elas davam
risinhos a todo momento, e cobriam-se com as mãos diante da agudeza do meu
olhar. Era evidente que sentiam enorme prazer com aquilo, e disputavam as
sessões de pose entre elas.
Mas logo elas se
cansaram de posar. E eu passei a desenhar com as formas assimiladas, o que me
dava mais prazer e liberdade. Percebia também que os desenhos ficavam mais
interessantes. Eu sentia que podia me abrir, de maneira nova para o mundo que
me rodeava, e esquecer um pouco os deuses e deusas que povoavam a minha
imaginação.
Foi quando comecei a
prestar atenção nas pessoas simples, que se moviam, também, pela casa. Como a
Isolina, sertaneja velha, cozinheira, sempre com um pano na cabeça (nunca lhe
vi o cabelo), nariz adunco, apenas dois dentes na parte de baixo da boca
enrugada, pitando sempre um cachimbo de sabugo de milho. Ela me fascinava, como
uma espécie de bruxa benfazeja, sempre junto ao fogão de lenha que ela parecia
nunca deixar apagar-se, como um fogo sagrado. Dali saíam além das refeições
maravilhosas, bem mineiras, bolinhos, cafés, torresmos, pipocas, toda uma
cornucópia caipira que me deliciava.
Mas o melhor eram os
serões ao pé desse fogão, de camisola, sentada em cima da mesa da cozinha até
tarde da noite ouvindo as estórias da Isolina: O Diabo da Borda da Mata, O Caso da Noiva Assassinada, O Morto que não
morreu, O Fantasma que era vivo, A Volta do Marido Fujão, Manoel de Cartola...
De onde ela tirava aquilo?
Eu adorava sair da
cama, de madrugada, ainda escuro e cruzar com alguma prima na cozinha, que
vinha acender um “pito”, com aquela mesma cantilena:
- “Ah! Alminha, cê
também acordou? Ouvi o cachorro latir, a porta bateu, fui lá fora e tava danado
de estrelado, aí o galo cantou “trêis veiz”... os grilos estão anunciando chuva...
Tinha umas brasa no fogão, quentei o café e resolvi fumar um pito... Cê tá
servida? Do pito não, que cê é muito menina...”
De manhã eu corria
pelos pastos, mas indo somente a certa distância num raio de cem metros em
torno da casa, o que me permitia vê-la sempre.
E ser vista... Entrava em pequenos bosques para colher amoras e sentir o cheiro
da terra e das flores. Minhas primas me alertavam para não “passar na sombra da
aroeira, que eu ficaria toda empipocada, e que nunca me limpasse com folhas,
porque a urtiga...” O fato é que meu
anjo me protegia dessas coisas e nem um mosquito me mordia, ou aquelas moscas
varejeiras que pousando na gente produzem berne. Mas eu me sentia observada,
sem saber como ou de onde vinha o olhar.
Um dia um primo mais
velho, casado e trabalhador, estava no Engenho, pelejando com grandes troncos,
para fazer tábuas, com alavancas de ferro acomodando-os nos pesados carrinhos
sobre os trilhos que avançavam lentamente pela ação de uma cremalheira, à medida em que iam sendo serrados pelo vai e
vem vertical da serra de aço na grande e pesada moldura movida pela roda
d’água. Suado, tirando medidas com a
trena, ajustando o prumo da grande serra com o pesado martelo e tudo o mais,
enquanto aquele, o dos olhos verdes, acocorado, olhava calado, com um talo de
capim entre os dentes, imóvel por horas. O mais velho estrilara chamando-o de “preguiçoso”,
“mole”, “tamanho homem, só tem bigode, não tem vergonha”, etc... E ele permanecia impassível, o olhar de cobra
sem uma sombra de constrangimento, sem tirar o talo da boca e sem mudar de
posição.
Por alguma razão eu
admirava a fleugma, a impassibilidade, o mistério e a beleza sinistra daquele
homem.
Eu continuei fazendo
as minhas “pesquisas”, observando, por exemplo, os cristais de sal nas
manjedouras das vacas e bois, batidas de sol, que eram perfeitas pirâmides
miniatura, construídas de minúsculos paralelepípedos. Um milagre... como tudo.
E o lamento agoniado do carro de boi, com suas grandes rodas maciças nos eixos
nunca engraxados, justamente para gemer assim... Essas coisas me
fascinavam e eu as recolhia à minha
alma, como nutrientes necessários.
Angelino voltou e
sua veneração me comovia. Aquele menino não me perdera o respeito ao salgar-me
os seios com seu sêmen e por isso eu também o respeitava e lhe tinha ternura.
Eu o amava? Não sabia. Depois de ter se aproximado tanto ele agora estava
tímido, pois tudo não passara de instinto, que nos deixara perplexos. Ele
parecia querer dizer-me alguma coisa, que não conseguia. Tive a impressão de
que queria alertar-me contra algum perigo, mas nada ficava claro... Continuei
aventurando-me por ali sozinha.
Uma manhã, eu estava
andando à toa no terreiro vazio e solitário, e ocorreu-me entrar no paiol, por
curiosidade. Senti o cheiro forte de palha de milho acumulada ali junto de uma
montanha de espigas e sabugos.
As paredes eram de
tábuas mal rejuntadas, de propósito para o arejamento. Pude ver de relance a
sombra que cortou os raios de luz que filtravam-se entre as tábuas. A porta de madeira
rangeu, deixando entrar uma silhueta alta à contra-luz, antes de fechar a porta
com tramela atrás de si. Pondo a mão em aba sobre a vista, com esforço
reconheci os olhos verdes da serpente.
As férias tinham-se acabado.
FIM
