sábado, 23 de outubro de 2021

As Férias da Infância da Alma

 (Conto de Alma Welt)

 Hoje recebi uma carta comunicando o falecimento de uma tia muito idosa e querida. Depois do choque e pesar iniciais, o fato remeteu-me imediatamente a certas recordações de minha infância. Umas férias em sua fazenda, que marcaram minha vida para sempre, e decidiram, talvez, meu destino de artista.

 Chegava com minha mãe à fazenda de minha tia, pela primeira vez. Esta confluía com acidade de uma forma privilegiada. Na verdade, a cidadezinha crescera nas terras que meu avô perdera aos poucos a cada notada no jogo de cartas de uma época remota de sua longa vida. A cidade ia sendo construída e parou na sua porteira. O casarão colonial, térreo mas com porões na parte descaída de trás, ficou ancorado, com um aspecto meio adernado na saída da cidade. Lembro-me da forte impressão que me causou seu assoalho de grandes tábuas esburacadas aqui e ali, e os quartos misteriosos, algumas alcovas, tudo muito velho e tosco, fascinante para uma menina nascida na cidade grande.

 Perto dali, na queda de um riacho, uma roda d’água sob um caramanchão feito de enormes troncos, movia uma poderosa serra emoldurada em grossas vigas, que subia e descia, serrando toras imensas, pousadas em dois vagonetes pesados de madeira antiga, sobre trilhos. Era o Engenho. Sob ele, à margem do riacho que corria por baixo movendo a imensa roda, uma duna de pó de serra, cujo odor, agora na memória  me parece mais perfumado que então.

 Assim que chegamos, meus primos, três meninos pouco mais velhos que eu, morenos, queimados de sol, rudes e maliciosos puseram olhares ávidos sobre mim, menina delicada e branca, de aspecto frágil, tímida e doce como as meninas costumam ser. Assim que escapei ao cerco inicial da recepção carinhosa das primas adultas, vi-me assediada por dois deles, que olhavam ostensivamente meu corpo rodeando-me para examinar meu traseirinho, para minha surpresa e confusão.  

 Estavam eles absolutamente cheios de desejo, fascinados pela espécie de menina ruivinha exótica que eu era, aos seus olhos. Convidaram-me discretamente a conhecer o porão da casa, onde tinham seus quartos e camas, pois a parte térrea era das moças e de minha tia no seu enorme quarto indevassável.

 Levaram-me até a pequena mesa de cabeceira de um deles, a pretexto de me mostrarem seus pequenos tesouros. Dentro da gavetinha havia um estilingue de jabuticabeira cuja forquilha era entalhada nas pontas para firmar um elástico feito de borracha de pneu, com a funda de couro. Havia ainda um pião torneado de madeira, que era enrolado num barbante e que dançava nas hábeis mãos deles. E um canivete suíço, vermelho, de mil utilidades. E figurinhas da segunda guerra mundial. Ah! E um cachimbinho miniatura feito de coquinho (uma semente de palmeira que eles chamavam assim)  que me encantou. Trataram de pôr um cigarro nele e tragaram longamente para acabar de me seduzir. Eu estava cativada por aqueles objetos que eu nunca vira e que me pareciam maravilhosos. Despertando minha cobiça infantil, eles faziam chantagem com aquilo, para me comprar, eu intuí, mais do que entendi isso. As meninas eram praticamente inalcançáveis pois muito vigiadas pelos adultos, mas aqueles meninos estavam obcecados por mim, agora eu vejo: eram temerários, e se arriscavam...

Desejei que me dessem algum desses objetos. Na verdade queria todos eles. Os meninos hesitavam entre o galanteio e o suborno. Pedi que me ensinassem a fazer um cachimbinho e um estilingue como aqueles. Faziam-se de difíceis, pretextando dificuldades, sempre me olhando, comendo-me com os olhos, e já apalpando-me disfarçadamente. Um deles tirou, então, de debaixo da cama uma pipa de varetas de bambu e papel de seda colorido, coisa que eu só tinha visto de longe até então. Aquilo quase me derrotou. Senti-me estranhamente embriagada, e prestes a abandonar-me. Começaram exigindo em troca que eu lhes deixasse beijarem-me os lábios e porem as mãos onde quisessem.

Protestei, implorei, esquivei-me o quanto pude. Na verdade, um estranho prazer nascia dentro de mim com aquele assédio, que despertou uma lembrança remota de uma primeira babá que me tocava e beijava os lábios e as partes íntimas.

 Agora, entre esses dois priminhos fortes, viris e luxuriosos, eu corria perigo. Fui salva pelas primas, chamando-nos do alto da escada para o lanche que serviriam naquele momento. Desvencilhei-me e corri escada acima, fugindo daquele porão ameaçador.

Daí por diante, todos os dias buscavam nova aproximação. Eu tratava de manter-me afastada, rodeando a saia das minhas primas. Agarrei-me à feminilidade segura e autoritária de mulheres ainda jovens mas adultas, uma vez que diante de minha mãe me sentia estranhamente culpada. Elas pareciam encantadas comigo e me levavam pra cá e pra lá. Minha mãe notou, mas equivocadamente sugeriu que eu participasse mais da “vida saudável  e esportiva das outras crianças”. Pobre mamãe, se soubesse...

 Um dia, acompanhei uma prima à costureira, numa ruela que seguia a estrada da porteira. Andamos até uma casinha geminada, singela, típica de rua pobre do interior. Entramos pela meia- porta e janela, de tramela, numa salinha de chão de cimento vermelho encerado. Havia somente um sofá de plástico de um padrão chapiscado,  e nada mais.  Fomos recebidas pela costureira, e minha prima pediu-me que a esperasse, na sala, no sofá, enquanto entravam num quarto à esquerda para provar o vestido. Sentei-me procurando em que pousar os olhos para distrair-me, quando estes bateram em um quadrinho, uma fotografia em moldura oval, pendurada muito alto na parede, quase junto ao teto, por um cordão por trás, inclinada para baixo, como costumam fazer. Tive uma sensação desagradável, desviei o olhar. Como a sensação persistia, voltei o olhar até distinguir o retrato de um menino de terninho e gravata, sentado muito ereto numa enorme cadeira de espaldar alto. Fitava com um olhar estranho, que me causou arrepios. Estava muito bem penteado e suas mãozinhas pousadas nos joelhos, de meias brancas três quartos e sapatos novos. Mas a estranheza persistia e eu mal podia encará-lo, desassossegada.

Minha prima afinal saiu do quarto acompanhada da costureira, combinando retorno, e segui-as até a porta. À saída, não resisti, virei-me e apontando com o dedo perguntei à mulher: “Senhora, de quem é aquele retrato?” Ela voltou o olhar para ele, suspirou e disse:

 - “Ah! Aquele é o Joãozinho, coitadinho... Nóis não tinha nenhum retrato dele, então vestimo ele com seu terninho de primeira comunhão, e como ele tava de zóio aberto, pusemo ele sentadinho pra ter uma lembrança dele.”

Saí dali meio atarantada e acompanhei minha prima de volta à casa, em silencio as duas. Permaneci silenciosa alguns dias, sentando- me muito durinha, com o olhar parado, em cadeiras altas quando as encontrava. Permanecia no âmbito das primas adultas mas me percebia cercada à distância pelos jovens lobos. Aqueles dois observavam-me com risinhos maliciosos, que talvez fossem notados pelas minhas primas. O terceiro, contudo, olhava-me de outro modo.

 Este conseguiu, com sutileza, furar o cerco e aproximar-se. Cochichou-me com delicadeza a proposta de um encontro secreto sob o engenho, na duna de serragem. Fiquei excitadíssima com a aventura que se descortinava. E meu coração bateu forte. Ali nos encontramos e ele (pasmem!) pediu-me em casamento. Trazia num saco um vestido branco de uma de suas irmãs, que por ser moça me ficaria comprido até os pés.  E um véu de tule branco!

Saímos dali, pois estávamos sendo vigiados de longe por um outro primo mais velho. Homem de seus trinta e poucos anos, de grandes bigodes e olhos verdes de cobra, brilhantes e insondáveis, sempre ocioso por ali, nas imediações do Engenho e da casa grande. Andando rápido, com pequenas olhadas para trás, chegamos à clareira de um bosque onde, para minha surpresa esperava-nos um menino pretinho, que por ser coroinha fora escolhido para ser o padre oficiante . Estava vestido co um saco de aniagem, imitando uma batina. Meu “noivo” enfioume-me o vestido branco por cima do meu e colocou-me o véu. Afastou-se um pouco para olhar-me e disse que eu estava linda. O pretinho então simulou os ritos do casamento, com todas as fórmulas resumidas, até o “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe”. Aceitei, disse o sim ao noivo agora esposo, que levantou-me  o véu e beijou-me os lábios apaixonadamente. Eu estava emocionada e confusa. Deixava-me envolver. Mas agora com doçura, pois aquele era um menino puro e honesto, eu intuí...

 Olhei-o bem nos olhos e estava prestes a apaixonar-me por ele quando um ruído desviou-nos a atenção. Alguém se aproximava. Vimos somente um vulto, pois já estávamos no crepúsculo. Arrepanhei a saia e saímos correndo, enquanto eu me desvencilhava do vestido e do véu, em plena disparada. Virei-me um momento e vi um cão que atacava o véu, estraçalhando-o, com grandes rosnados e açulado por uma voz masculina muito grave.

Após esse episódio, afastei-me de todos. Estava envergonhada e buscava a invisibilidade, mantendo-me muito parada e silenciosa. Meu “maridinho” olhava-me, parecendo ansioso, sem conseguir nova aproximação. Começou uma temporada de garoa fina, que somada a um certo prelúdio de Chopin que vinha a toda hora da sala do piano pelas mãos de uma das primas, começou a produzir a primeira das fases de melancolia que me acometeriam ao longo da vida. Minha pobre mãe fitava-me com amor e grande pena nos olhos, sabendo tudo sem nada saber.

Tive então um período de trégua. Andava pelo terreiro, atrás da casa, “ciscando com as galinhas”, colhendo ameixas amarelas num pé que havia no centro desse espaço recoberto por uma espécie de saibro. À esquerda havia um paiol de milho, contíguo a uma selaria ou quarto de arreios de um lado e um galinheiro do outro. Tudo debaixo de um telheiro que cobria também o poço ou cisterna de onde minava toda a água cristalina para os banheiros e a cozinha. Nesse terreiro, junto a poço eu assistiria, aterrorizada, a matança de um porco capão enorme, que gritara, berrara desde desde o amanhecer do dia do seu sacrifício, de uma maneira pungente que me horrorizava, mas sem me impedir de assistir a todos os trâmites:  a punhalada no coração, o recolhimento do sangue  numa bacia  para fazer chouriço, a abertura da carcaça transbordante de gordura retirada para os latões de banha fervida e para fazer torresmo; as mulheres se azafamando com bacias indo e vindo da cozinha para o terreiro enquanto o fogão de lenha fumegava pela chaminé do telhado. Tudo fora aproveitado, nada se perdera exceto a vida do animal. Até as suas tripas foram usadas para as lingüiças. Mas tudo sangrento e cruel como uma hecatombe. E eu já não seria a mesma depois daquela visão.

 Resolvi, então, enfrentar a aproximação do meu noivinho, aliás maridinho,  que me olhava o tempo todo de uma maneira que me tocava o coração. Não tardei a perceber que ele agora esperava a lua de mel. Encontramo-nos nos fundos do pomar e ele quis logo beijar-me e apalpar-me. Dei-lhe uma certa margem, mas eu estava assustada, era meu primeiro “casamento”. Quis conhecê-lo melhor, mas estávamos ofegantes, de emoção. Balbuciamos um pouco, não foi possível conversarmos. Talvez não houvesse mesmo nada a dizer. Deitei-me sob uma figueira, fechei os olhos e esperei. Ele abriu meu vestido, e abaixou-o até a minha cintura. Permaneci com os olhos fechados, como coração palpitante. Não queria ver nada. Somente esperar e... sentir. Para minha surpresa, depois de alguns segundos senti gotas frias que caíam sobre o meu peito. Abri os olhos e o vi recolher apressadamente o pintinho e fechar a braguilha. Toquei meus pequenos seios e olhei-os. Uma substância viscosa, branca e gelada cobria-os. Fiquei ali atritando os dedos para sentir e conhecer a sua consistência, levei-os às narinas e senti um cheiro forte que me pareceu conhecido. Meu priminho deu-me as costas e fugiu, de repente. Demorei vários dias para entender o que tinha se passado e de onde tinha vindo aquela gosma branca que ao secar parecendo cola, repuxou os meus mamilos causando-me arrepios prazerosos. Ainda hoje, vinte anos depois, basta desnudar-me a parte superior, expondo-me, mesmo que seja só ao espelho, para sentir aquela sensação nos bicos dos seios. Creio que aquilo foi um batismo... e o tenho como sagrado.

 Meu maridinho (Angelino era o nome do menino), depois disso sumiu uns dias, talvez envergonhado, dando-me tempo para assimilar aquelas sensações, tão novas para mim e tão maravilhosas. A melancolia fora-se. Um sentimento vital me iluminava, para alivio de minha mãe, e alegria de minhas primas que começaram a mimar-me como nunca. Penteavam meus cabelos e faziam vestidinhos, como para uma noiva impúbere. Era assim que eu me sentia. Mas elas estavam atrasadas: eu já fora consagrada ao prazer e ao amor e seria fiel a eles para sempre. Nada poderia destruir essa aliança que fiz com minha própria carne. Tinha uma certeza semi-consciente disso, e esta foi, daí por diante a minha força...

Comecei a desenhar novamente, mas agora nessa fase em que as outras crianças não mais se importam com desenhos. E eles me pareciam maravilhosos. Minhas primas e minha mãe os achavam precoces e por isso os admiravam. O corpo feminino aparecia neles, com intenções anatômicas, juntamente com cavalos, galos, touros e vacas, que eu via por ali. Para as mulheres dos meus desenhos eu necessitava modelos, como as minhas primas, e não tardou que elas, vendo minhas tentativas resolvessem posar para mim, secretamente, nos quartos. Devia ser insólita a cena dessas moças, desnudas, posando para uma menina pré-adolescente concentrada e séria. Elas davam risinhos a todo momento, e cobriam-se com as mãos diante da agudeza do meu olhar. Era evidente que sentiam enorme prazer com aquilo, e disputavam as sessões de pose entre elas.

 Mas logo elas se cansaram de posar. E eu passei a desenhar com as formas assimiladas, o que me dava mais prazer e liberdade. Percebia também que os desenhos ficavam mais interessantes. Eu sentia que podia me abrir, de maneira nova para o mundo que me rodeava, e esquecer um pouco os deuses e deusas que povoavam a minha imaginação.

 Foi quando comecei a prestar atenção nas pessoas simples, que se moviam, também, pela casa. Como a Isolina, sertaneja velha, cozinheira, sempre com um pano na cabeça (nunca lhe vi o cabelo), nariz adunco, apenas dois dentes na parte de baixo da boca enrugada, pitando sempre um cachimbo de sabugo de milho. Ela me fascinava, como uma espécie de bruxa benfazeja, sempre junto ao fogão de lenha que ela parecia nunca deixar apagar-se, como um fogo sagrado. Dali saíam além das refeições maravilhosas, bem mineiras, bolinhos, cafés, torresmos, pipocas, toda uma cornucópia caipira que me deliciava.

 Mas o melhor eram os serões ao pé desse fogão, de camisola, sentada em cima da mesa da cozinha até tarde da noite ouvindo as estórias da Isolina: O Diabo da Borda da Mata,  O Caso da Noiva Assassinada, O Morto que não morreu, O Fantasma que era vivo, A Volta do Marido Fujão, Manoel de Cartola... De onde ela tirava aquilo?

 Eu adorava sair da cama, de madrugada, ainda escuro e cruzar com alguma prima na cozinha, que vinha acender um “pito”, com aquela mesma cantilena:

 - “Ah! Alminha, cê também acordou? Ouvi o cachorro latir, a porta bateu, fui lá fora e tava danado de estrelado, aí o galo cantou “trêis veiz”... os grilos estão anunciando chuva... Tinha umas brasa no fogão, quentei o café e resolvi fumar um pito... Cê tá servida? Do pito não, que cê é muito menina...”

 De manhã eu corria pelos pastos, mas indo somente a certa distância num raio de cem metros em torno da casa,  o que me permitia vê-la sempre. E ser vista... Entrava em pequenos bosques para colher amoras e sentir o cheiro da terra e das flores. Minhas primas me alertavam para não “passar na sombra da aroeira, que eu ficaria toda empipocada, e que nunca me limpasse com folhas, porque a urtiga...”  O fato é que meu anjo me protegia dessas coisas e nem um mosquito me mordia, ou aquelas moscas varejeiras que pousando na gente produzem berne. Mas eu me sentia observada, sem saber como ou de onde vinha o olhar.

 Um dia um primo mais velho, casado e trabalhador, estava no Engenho, pelejando com grandes troncos, para fazer tábuas, com alavancas de ferro acomodando-os nos pesados carrinhos sobre os trilhos que avançavam lentamente pela ação de uma cremalheira,  à medida em que iam sendo serrados pelo vai e vem vertical da serra de aço na grande e pesada moldura movida pela roda d’água.  Suado, tirando medidas com a trena, ajustando o prumo da grande serra com o pesado martelo e tudo o mais, enquanto aquele, o dos olhos verdes, acocorado, olhava calado, com um talo de capim entre os dentes, imóvel por horas. O mais velho estrilara chamando-o de “preguiçoso”, “mole”, “tamanho homem, só tem bigode, não tem vergonha”, etc...  E ele permanecia impassível, o olhar de cobra sem uma sombra de constrangimento, sem tirar o talo da boca e sem mudar de posição.

 Por alguma razão eu admirava a fleugma, a impassibilidade, o mistério e a beleza sinistra daquele homem.

 Eu continuei fazendo as minhas “pesquisas”, observando, por exemplo, os cristais de sal nas manjedouras das vacas e bois, batidas de sol, que eram perfeitas pirâmides miniatura, construídas de minúsculos paralelepípedos. Um milagre... como tudo. E o lamento agoniado do carro de boi, com suas grandes rodas maciças nos eixos nunca engraxados, justamente para gemer assim... Essas coisas me fascinavam  e eu as recolhia à minha alma, como nutrientes necessários.

 Angelino voltou e sua veneração me comovia. Aquele menino não me perdera o respeito ao salgar-me os seios com seu sêmen e por isso eu também o respeitava e lhe tinha ternura. Eu o amava? Não sabia. Depois de ter se aproximado tanto ele agora estava tímido, pois tudo não passara de instinto, que nos deixara perplexos. Ele parecia querer dizer-me alguma coisa, que não conseguia. Tive a impressão de que queria alertar-me contra algum perigo, mas nada ficava claro... Continuei aventurando-me por ali sozinha.

 Uma manhã, eu estava andando à toa no terreiro vazio e solitário, e ocorreu-me entrar no paiol, por curiosidade. Senti o cheiro forte de palha de milho acumulada ali junto de uma montanha de espigas e sabugos.

 As paredes eram de tábuas mal rejuntadas, de propósito para o arejamento. Pude ver de relance a sombra que cortou os raios de luz que filtravam-se entre as tábuas. A porta de madeira rangeu, deixando entrar uma silhueta alta à contra-luz, antes de fechar a porta com tramela atrás de si. Pondo a mão em aba sobre a vista, com esforço reconheci os olhos verdes da serpente.

As férias tinham-se acabado.

 FIM

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Prefácio aos Contos Secretos de Alma Welt, por Guilherme de Faria

Estamos diante de uma coletânea inusitada de contos, que constituem, surpreendentemente, as memórias de uma verdadeira “Casanova de saias”, como alguém se referiu à autora num conto dela mesma. Mas, o quê significa isso? Uma autora, jovem e bela mulher, que tem a coragem, inaudita, de confessar com detalhes sua vida amorosa e sexual, de artista, intensa, erótica e romântica a um só tempo, de uma maneira sensível e encantadora, conquanto explícita, sem peias, sem falsos pudores. Nunca se viu isso antes, na estória da literatura. Tanta liberdade erótica nas narrativas de uma mulher, a respeito de si mesma. Devemos nesse ponto lembrar Anaïs Nim, que embora grande escritora, não chegou tão longe no âmbito confessional, pois suas narrativas propriamente eróticas, se referem mais a personagens ficcionais de sua criação, exceção feita à belíssima insinuação, no seu diário, à uma cena de Anaïs na cama com June, que afinal frustra o leitor, pois é interrompida por um conflito insurgente e insolúvel. Parece, também, que aquela diva (June) nunca se conformou com o tom usado por Henry Miller para descrever suas relações na cama ou fora dela, pois romântica, queria ser uma musa celebrada em termos delicados e “ideais’, coisa alheia ao espírito cru e existencial de Henry.

Mas, nossa autora, Alma Welt, bela gaúcha, de destino privilegiado, pois criada numa “estância” e filha de um “livre pensador”, muito culto, libertário, e ao mesmo tempo cultor do romantismo alemão, Werner Friedrich Welt, que ela chama carinhosamente de Vati (pronuncia-se Fáti, papai ), constitui um caso único, ao meu ver, de autora jovem, com essa coragem confessional, que não exclui detalhes, nada esconde, e ainda assim, consegue escapar da classificação de “pornografia”, palavra ainda hoje carregada de uma pecha “maldita”, senão pejorativa e desmerecedora. Como consegue ela tal proeza? É simples, no entanto, a explicação: por causa de uma insólita “pureza”, ou candura, inesperada numa mulher tão inteligente e culta. Essa mesma pureza que ela atribui, com certa originalidade, ao nosso conhecido Casanova, na dedicatória deste seu livro, em forma de trovas dirigidas a alguns famosos eróticos do passado. A propósito, a chave para o desvendamento desse verdadeiro enigma, a própria autora fornece esparsamente nalguns textos: sua relação incestuosa com seu irmão, descoberta de forma traumática por sua mãe, Ana Morgado, já falecida. No conto intitulado “O que falta dizer”, Alma revela um episódio que nunca uma moça, na estória da literatura, ou (se isso houvesse) na “história dos divãs de psicanalista”, jamais narrou. Um pequeno fato que seria escabroso, não fosse a já citada candura lúcida da autora. Mas é preciso lembrar que Alma é uma poeta, ou “poetisa” como ela prefere ser designada, e isso explica alguma coisa. Os poetas têm, queiram ou não, uma tensão de beleza na sua abordagem do mundo. A própria Alma cita num destes contos, o famoso verso de John Keats, da “Ode a uma Urna Grega”: “A verdade é a beleza; a beleza, a verdade. Isso é tudo o que há para saber”. Como herdeira legítima do romantismo europeu, Alma não poderia deixar de citar esse verso exemplar.

Está se vendo que detectei uma grande pureza nesta autora erótica, e que estou encantado por isso mesmo. Por outro lado suspeito que isso constitui seu próprio “pathos” e o problema para uma aceitação da autora nas classes chamadas burguesas. Pois me parece que a burguesia hoje em dia constitui-se precisamente disso: uma mente conservadora e hipócrita que é capaz de assimilar a própria pornografia, pois essa não exclui a chamada má consciência em relação ao sexo, que é sua mais renitente característica. Uma moça que confesse com tal pureza, e, portanto, com extrema liberdade, tudo sobre sua intensíssima vida sexual, que não exclui pequenas perversões, tem ainda o poder de escandalizar! E não me refiro aqui à sua evidente bi-sexualidade, que não deve assim ser simplesmente classificada, mas jogada na conta de sua celebrada liberdade. Refiro-me, sim, a uma dose de sado-masoquismo, que a autora mesma se atribui, e cuja raiz encontra-se no trauma causado por sua mãe ao descobrir o incesto de sua filha. Alma consegue superar o trauma, por catarse, ou seja, não se reprimindo ou cerceando a sua sexualidade, mas exercendo-a de forma intensíssima e desabrida, tornando-se até mesmo uma sedutora e colecionadora de casos amorosos ardentes, embora sua grande paixão se concentre em dois personagens reais de sua memória: seu irmão Rôdo e a jovem modelo paulistana Aline, por quem sua paixão atinge um timbre por vezes comovente (vide o conto “Tudo o que faremos quando voltares”, verdadeiro poema em prosa, de grande exaltação amorosa.)

A nota masoquista, visível por vezes em seu texto, é perturbadora, concordo, e levou a autora ao que parece a situações de uma exposição, ou vulnerabilidade, que acabou precipitando o estupro, pelo menos três vezes ao longo de sua jovem existência, a julgar, pelas narrativas no seu romance autobiográfico, e evocadas dolorosamente, aqui e ali, nos seus vários livros de contos. Alma parece acreditar que os leitores não têm rosto, que nunca terão, e que por isso ela pode confessar tudo, como num divã de psicanalista, coisa improvável, senão perigosa. Entretanto, Alma aparece lidar com esses fatos em sua vida, desafiando-os e às suas conseqüências, por meio da confissão impudica e naturalista. O resultado dessas violências na vida da autora, pode, por isso mesmo, ser detectado por essa sua forma de tratar o sexo, que, sob uma capa de naturalismo, incluiria um certo “desafio” denunciador do próprio trauma. Nisto consiste o “pathos” weltiano, a que já me referi.

Alma Welt me comove, pois, para além da dor implícita e subjacente a isso tudo, está seu amor à beleza e ao próprio amor. Mas o importante, numa escritora como ela, é que esse amor se revela na beleza estética de sua escrita e na profundidade sutil de sua visão de mundo, que inclui um toque, digamos, filosófico, de cunho panteísta, que corrobora a tese de sua candura. Alma parece se considerar, de boa fé, uma espécie de feiticeira ou druidisa, a julgar por certas passagens, principalmente de seu romance “A Herança”, de grande beleza, uma saga de família, passada em sua estância no Sul, em pleno Pampa evocado com grandeza telúrica.

Mas voltemos a este livro de contos. Por quê “secretos”? Talvez porque a autora também considere que essas coisas normalmente não se contam, são mais que confidenciais, e por isso mesmo, haja certa originalidade em publicá-las, embora, para além do caráter confessional, também uma qualidade literária evidente e aliciadora.

Mas, alguém perguntaria ao final da leitura deste volume, essas coisas realmente aconteceram, são pessoas e fatos reais da vida da autora? Suspeito que sim. Através da pouca convivência com a poetisa, que ela me permite na qualidade de seu descobridor, prefaciador e em certa medida seu ilustrador, embora seja ela mesma artista plástica, tenho a impressão de que é tudo verdade. Fatos reais, acontecidos, fruídos e assimilados por uma sensibilidade comovedora.

Por outro lado, não podemos descartar o poderoso subjetivismo do Artista. Onde termina o sonho, onde começa a realidade? Existe essa fronteira? A própria Alma nos adverte que não, ao citar outro grande romântico, Novalis:

“A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro.”


GUILHERME DE FARIA

O que falta dizer

(dos Contos Secretos, de Alma Welt)



Sinto-me mergulhada, novamente, num leve vapor de culpa, que, a princípio, confundi com melancolia, como se faltasse algo a dizer, a exprimir, em relação a alguém, de quem o meu coração é devedor. Será ao meu irmão Rôdo, ao Vati, à Aline, à Laís, à Vânia, aos meus sobrinhos, minhas queridas crianças, que vocês meus leitores sem rosto, conhecem tão bem? A quem estou devendo? Por quê não mais me sinto feliz? A todos eu amei, e amo. Por quê, então, me sinto devedora?
Eu não soube, ou nunca pude amar, devidamente, à Mutti, minha própria mãe, vocês devem ter notado. E certamente viemos ao mundo com um único propósito, senão uma obrigação: o de amar, a tudo e a todos, disso estou convencida desde sempre, não como algo que me ensinaram, porquê exatamente ninguém o fez, mas como algo que descobri muito cedo. Trata-se da única condição para se ser feliz: amar incondicionalmente as pessoas, perdoar os maus, e amá-los também, se possível. Mas a minha mãe não era propriamente má! Nada disso. Apenas não podia compreender-me, e ao meu mundo, Welt, herdado do Vati, com todas as implicações filosóficas que o meu nome implica. Minhas mãe não amava o mundo. Amava, no máximo, a ordem, os chamados bons costumes, e a moral vigente, da qual eu era uma transgressora nata, que ela logo detectou. Ela amava o Vati? Nunca pude perceber isso claramente; e onde há dúvida, há fumaça.
Percebi, depois dos quatorze anos, que a minha mãe temia profundamente a minha sensualidade e mesmo... minha amorosidade, se é que existe essa palavra. Em outras palavras, ela receava que eu me tornasse prostituta, pela sua limitação em entender que, uma pessoa profundamente amorosa e livre sexualmente é o contrário, por definição, de qualquer sentido de prostituição, que implica vender-se, e não dar-se por amor ou prazer, como foi sempre o meu caso. Mas, apesar das mágoas por tanto equívoco e mal entendido, em relação a mim, ela nunca logrou contaminar-me com sentimentos de culpa e de pecado, que permaneciam fora do meu mundo interior, de natureza pagã, semeado ali, na minha alma, como terreno fértil para os deuses, pelo Vati, o grande sacerdote panteísta, o druida, que habitava a estância dos meus sonhos. Por quê, então, essa culpa aparece agora, em relação à minha pobre mãe? Por eu não tê-la amado, certamente...
Estou me dando conta da profunda crueldade implicada em não amar-se alguém que nos é tão próximo. Em não amar-se a própria mãe, eis tudo. A culpa teria que chegar, mais cedo ou mais tarde. E agora, passados tantos anos da sua morte, aqui me vejo, subitamente culpada, e as primeiras lágrimas por ela, assomam-me os olhos.
Mas, seria possível que alguém não amasse a própria mãe, na infância, pelo menos? Os estudiosos da psicologia humana parecem divergir quanto a isso, e ao chamado complexo de Édipo se oporia um suposto “complexo de Electra”, denominação que ao que parece nunca “pegou” em psicanálise, embora me pareça um bom achado. Electra matou sua mãe, Clitemnestra, para vingar seu pai Agamenon. Quis eu vingar meu pai, por não acreditar no seu amor por ele? De onde tirei eu essa idéia suspeita? Da minha própria paixão “edipiana” por meu pai? Uma análise freudiana bem feita talvez já me tivesse respondido essa questão. Por quê, então, não me submeto a ela? Porque, talvez, eu necessite do próprio mistério, das brumas da minha alma, de onde retiro minha clara poesia, como quem mergulha os dedos no lodo, para encontrar pepitas de ouro.
Lembro-me de um período em minha pré-adolescência, em que minha mãe, a Mutti, como nós a chamávamos não necessariamente com carinho, vinha de noite ao meu quarto, pé ante-pé, acreditando-me adormecida, nas noites de verão, descobria-me, e cuidadosamente, lentamente, para não me despertar, abaixava minha calcinha e aproximava suas narinas da minha “pombinha”, aspirando, para ver se detectava sinais, cheiros, sumos( que sei eu?), de perda de virgindade ou promiscuidade. Lembro-me de como, fingindo-me adormecida, isso me perturbou, e como derramei lágrimas no escuro, de pura confusão de sentimentos. Ela temia a verdade, hoje reconheço. A verdade de minha paixão sem peias, sem medo ou repressões internas, por meu irmãozinho. Ela temia a minha liberdade, que a escandalizaria mais ainda, se ela a descobrisse em sua totalidade. Muitos anos depois eu conferi com Rôdo essas impressões e ele revelou que ela fazia o mesmo com o seu “pintinho”. Pobre mamãe! Como devia sofrer...
Mas, devo reconhecer que eu sempre soube da natureza do sofrimento de minha mãe. No entanto, a mim cabia exercer a minha liberdade e usufruir os meus dons de alegria e prazer, sem culpa, coisa raríssima, reconheço, numa criança criada assim em dois mundos, mas que fizera uma claríssima opção, se é que isso é possível. A minha natureza de artista, certamente, é a responsável por essa clareza.
Feito esse longo preâmbulo, passo agora a narrar a passagem de minha infância de que me lembrei, nesse momento, e que me fez reconhecer minha culpa pelos sofrimentos de minha mãe.
Após o primeiro choque com as inspeções noturnas da Mutti, eu resolvi afrontá-la. Tratava-se de um movimento previsível em minha personalidade, não maldosa, mas afirmativa, audaz. Para isso eu precisava tão somente a cumplicidade de Rôdo, e isso era, como se diz, sopa no mel. Resolvi simplesmente entregar-me ao meu irmão, bem perto da hora de dormir, no seu quartinho no sótão, e... guardar o meu sangue e o seu sêmen, que sempre me fascinara, nas suas demonstrações masturbatórias experimentais que ele me fazia compartilhar, com enorme prazer e curiosidade. Sim, guardar seu sêmen na minha “xotinha’, para exibi-lo durante meu falso sono, de começo de noite, ao olfato e talvez ao tato de minha mãe. Assim aconteceu, meu irmãozinho ejaculou pela primeira vez dentro de mim, e não me deterei sobre a impressão, sobre o imenso prazer e deslumbramento que isso me causou. Algum dia o farei numa outra narrativa. Por ora, estou descendo degrau por degrau, com as perninhas bem fechadas, a escadinha em caracol, da mansarda de meu irmão, para não deixar escorrer em vão o precioso fluido, testemunho da minha coragem, do meu desassombro!
Aquela noite, eu nem sequer usaria a calcinha para dormir, e, como eu previa, minha mãe, ao realizar seu ritual aspirando o novo perfume da minha vagininha, estarreceu-se no escuro, eu senti, e após uma pausa hesitante, introduziu o seu dedo mínimo cuidadosamente no meu buraquinho, e colheu a “prova do crime”, do delito, do pecado, do estupro, (que sei eu de sua cabeça?). Atritou os dedos (eu percebi abrindo um olho no escuro), cheirou-os e... (pasmem!) lambeu-os. Ouvi um profundo gemido, quase um grito, enquanto a silhueta de seus punhos se dirigiu para o alto, por um momento de horror e perigo.
Então, vi o seu vulto, como uma sombra negra aterrorizada, fugir daquele quarto.
E eu sabia que para sempre.

O escultor

(Dos Contos Secretos, de Alma Welt )

Recebi um convite para a abertura de uma exposição de um escultor , cujo catálogo, pela beleza das peças reproduzidas, me impressionou. Há muito tempo eu não via esculturas figurativas que fossem tão convincentes. Desde Rodin, eu acho. Sem ser acadêmico, embora ligeiramente naturalista, tem um certo grau, sutil, de estilização pessoal, cheio de sensualidade, e até mesmo erotismo, que me encantou. Algumas de suas peças, realmente ousadas, me fascinaram: ele, assim como o grande escultor francês do passado, não teme expor a intimidade de seus modelos, como fazem, hipocritamente, alguns artistas. Mas é claro que foi, sobretudo, pela qualidade técnica e pelo superior plano estético, cheio de uma força madura, não simplesmente agressiva, que ele me aliciou, me cativou com a sua arte. Eu quis, imediatamente, conhecer esse escultor, de quem, no entanto, não revelarei o verdadeiro nome, aqui, neste relato, por razões óbvias.
Na noite da inauguração, no museu, lá estava eu, vestida com o que tinha de melhor, mas sem maquiagem, pois, como dizem alguns, já sou suficientemente colorida, com este contraste entre meus cabelos louros arruivados, minha pele alvíssima, e meus olhos verdes. Saliento isso, pois foi o que chamou a atenção do meu escultor, com sua noite cheia de mulheres belíssimas, que o assediavam nada sutilmente.
Cheguei, chamando atenção, mas mantive-me discreta, observando, encantada, as maravilhas do escultor, que realmente me atraíam por elas mesmas. Eu tinha vontade de tocá-las, e cheguei mesmo a fazê-lo, para sentir as formas deliciosas de uma figura de adolescente, de suave sensualidade. Eu não queria aproximar-me do escultor, tomando a iniciativa. Esperava que ele me descobrisse ali no meio de todas aquelas mulheres, e isso realmente aconteceu. Senti uma forte e grande mão, poderosa, abarcando meu braço fino e roliço, vinda de trás e abaixei a cabeça meio de lado para olhar essa mão, mas já esperando que fosse a dele, o grande escultor. Virei e defrontei-me com um homem alto, maduro, belo, de têmporas grisalhas e nariz enorme, de corte italiano.
Máximo (eu o chamarei assim), olhava-me fundo nos olhos, dizendo:
–“Signorina, permita-me que eu me apresente. Sou o escultor dessa peça que você acariciou de maneira tão encantadora. Peço-lhe que imagine as suas próprias formas, sua própria beleza magnífica numa peça que poderíamos fazer. Deixe-me esculpi-la, signorina, embora já seja uma escultura viva, e ao mesmo tempo uma pintura.”
Fiquei encantada com a delicadeza, clareza e honestidade de suas palavras, ao mesmo tempo galantes. “Esse homem é sincero, eu pensei, embora nem saiba que eu aceito, perfeitamente, segundas intenções, pois sou tudo, menos uma hipócrita, e conheço o desejo dominante dos homens, sua contida luxúria, geralmente disfarçada em público. Sorri e estendi-lhe a mão, de uma maneira um pouco antiga, démodeé, que ele não se apressou em beijar, mantendo os olhos fixos nos meus, de maneira hipnótica.
Começamos um intenso colóquio de artistas, plenos, assumidos, e logo estávamos de mãos dadas. Outras mulheres olhavam-me com ódio, algumas com curiosidade. Logo começaram a puxá-lo, para afastá-lo de mim, chamando sua atenção com elogios cheios de exclamações, e para posarem para o fotógrafo ao lado dele. Ficaram mais furiosas ainda, eu percebi, quando o fotógrafo foi buscar-me pela mão, ao me afastar discretamente, e fez-me voltar para o lado do escultor, que me abraçou o ombro para a pose da fotografia, enquanto eu sentia o calor de sua mão quase queimar meu ombro nu. Fiquei muito tempo com aquela sensação no meu ombro, que precisei acariciar, para neutralizar, a quase queimadura, que me arrepiava. Resolvi retirar-me logo, o que fiz, como uma fuga, mesmo, sem despedir-me do escultor. Eu temia me expor a um vexame. Perdera a segurança. Eu me sentia perdida de atração por aquele homem, por aquele artista. Tive que bater em retirada.
Nos dias seguintes, quando me lembrava dos lances daquela noite, a sensação de suave queimadura voltava a aparecer no meu ombro. E lembrei-me do mito de Psiqué, em que o azeite da candeia ferira o ombro de Eros fazendo-o adoecer de amor. Sentia-me como uma Psiqué às avessas, atingida por minha vez, pelo deus alado, de formas escultóricas. Mas um Eros maduro, em sua plena força de homem, e sem asas, bem pousado na terra, onde me queria também, no máximo sobre um pedestal de bronze ou de granito. Eu ansiava posar para ele. Ser esculpida por ele. Eu esperava esperançosamente seu telefonema, embora eu não tivesse tido tempo de deixar-lhe o meu número. Mas eu sabia que e isso não era problema. Eu não perdera um sapatinho de cristal, retirára-me bem antes da meia-noite, e tinha ido à pé, não montada numa abóbora. Mas ele se informaria. Ele encontraria a pista da Alma. Da pintora e poeta Alma Welt.
Isso aconteceu no terceiro dia, afinal. O telefone soou no ateliê, e era ele. Eu sabia! Com sua voz grave, macia, ligeiro sotaque italiano, charmoso, ele me envolveu, e a sensação de calor, vinda do ombro, tomou meu corpo todo, principalmente ali em baixo, obrigando-me a acariciar-me. Confesso que, ao desligar, tive que masturbar-me demoradamente até atingir um orgasmo imperfeito, pois meus braços, afinal, permaneciam vazios.
Senti, depois desse telefonema que perdera o controle de mim, que se o meu escultor demorasse, eu iria até ele, submissa, cativa, e me ofereceria como sua escrava. Eu sou assim. Tenho um tal orgulho e consciência de meus dons, que oferecendo-me inteira a um amor, me sinto maior, mais grandiosa, magnânima, como uma rainha dadivosa ou mártir. É como se oferecendo meu corpo, dessa maneira extremada, fizesse uma dádiva preciosa, a suprema dádiva. Nisso sou antiga: trago uma carga romântica comigo da qual nunca quis me desvenciliar, e por isso, há algum tempo, caí sob suspeição das feministas, acusada (pasmem) injustamente de “machismo”!
Sim, eu ansiava pelo meu príncipe escultor, que afinal, no dia e hora marcados, adentrou o meu estúdio, e me encontrou... nua, quero dizer... metaforicamente falando, o que é a mesma coisa!
Eu estava toda atrapalhada diante do belo italiano, tentando preparar-lhe um café, do qual ele não fazia menor questão, mas que teve a serventia de me dar tempo de acalmar as batidas do meu coração, e a ele, de observar-me atentamente, devorando-me com os olhos, que eu sentia até pelas minhas costas, atarefada diante da cafeteira, à pia da cozinha americana. Afinal, servido, ele tirou das minhas mãos a pequena xícara que eu lhe oferecia. Pousou-a, mais afastada, e tomando minha cintura entre suas mãos enormes, que praticamente a abarcaram, ergueu-me sobre a pia da cozinha e levantando minha saia, enquanto tirava, habilmente seu mastro pela braguilha aberta do jeans, abrindo minhas pernas encostou sua imensa glande na porta da minha vulva que o acolheu, palpitante, agradecida. Ele me penetrou profundamente enquanto eu soltava um suspiro profundo e doce, que o comoveu, eu percebi, apesar de tudo, de estar quase desfalecendo, mas com minhas pernas erguidas abarcando sua cintura. Ele explodiria dentro de mim seu jorro branco, leitoso, e não me perguntem jamais pela camisinha, eu nem poderia pensar nisso: queria ser preenchida por esse homem, pelos sumos desse homem, e ficar escorrendo dele, para sempre, essa é que é a verdade!

A seguir comigo literalmente enganchada nele, carregada no seu colo, sem sair de dentro de mim, ele giraría eufórico pelo ateliê, em meio às telas, ambos às gargalhadas, antes de, orientado por mim, naquela espiral, pelas minhas mãos que agarravam portas e batentes, corrigir o seu rumo em direção ao quarto... ao nosso leito!

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Acordei com o Máximo assobiando na cozinha, feliz, preparando o café que, agora sim, tomaríamos juntos. Ele trouxe uma bandeja completa, e pousando-a no chão, abraçou-me, nua que ainda estava, com uma saudação matinal em italiano, que mais me enterneceu. Abracei-o, puxando-o sobre mim, com a mão direita colhendo e orientando seu pênis para dentro de mim, mais uma vez. Esse homem forte, esse imenso macho iria explodir, mais uma vez, de prazer, de gozo extremo, e estaria aprisionado, eu sabia, por muito tempo, talvez para sempre. Minha feminilidade, eu a sentia primitiva, arcaica, primordial, e não hesitaria em exaurir o meu homem até fragilizá-lo entre minhas mãos, como um menino, como um bebê que eu então acolheria no meu útero, para recomeçar o ciclo perene, o eterno retorno.

Mas, afinal as coisas não ocorreriam assim. Eu não seria pra sempre a sua mulher, ele não me fecundaria apesar de plena de seu branco sumo, abundante, que escorria sobre o meu leito saturado de nossos aromas. Mas devo descrever pelo menos a nossa primeira sessão de pose e escultura: eu nua, gloriosamente nua, em minha alvura extrema, como um mármore de Carrara vivo, para ser transformado em dourado bronze, como ele me projetava em sua imaginação. Mas antes de começar a moldar a argila, ele precisaria desenhar-me cem vezes, e ele o fazia apalpando meu corpo, avidamente, como se moldando-o entre suas mãos que acompanhavam minhas curvas, sofregamente, tateando minhas reentrâncias, enquanto eu estremecia de surpresa e de prazer. Acabávamos rolando pelo assoalho do ateliê e a obra era adiada, mais uma vez. Começava a desconfiar que ela nunca começaria, ou nunca ficaria pronta, não naquele nosso ciclo de vida, pelo menos. E eu não me importava. O grande escultor me amava, ou pelo menos estava apaixonado por mim, e me moldava entre as suas potentes mãos, pelo menos para as carícias luxuriosas, que me encantavam, que me arrebatavam, na verdade. Ele não estava fadado a realizar o simulacro ideal do meu corpo, moldado pelo divino, talvez ciumento de sua obra. Talvez a um outro escultor menos dotado seria dada a permissão.
E ele, Máximo, o escultor, o grande artista, partiria um dia, há um só tempo saciado e frustrado, abandonando a mim e sua obra mal começada, que se esboroaria aos poucos em meio às minhas telas.


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11/05/2005

O Fauno

dos Contos Secretos de Alma Welt)



Resolvi recomeçar as minhas sessões de análise. Não porque esteja propriamente sofrendo, mas por perceber que as minhas fantasias estão me levando, cada vez mais a situações insólitas, e talvez a correr riscos. A verdade é que tenho sido estuprada com uma freqüência alarmante em minha vida. Por quê digo isso? Creio sinceramente que às vezes me submeto ao desejo de homens e mulheres que não amo, que na verdade não poderia amar, mas pelo simples fato de me desejarem ardentemente, e com paixão. Par délicatesse*...
Mas, então (vocês podem insistir), por quê falo em estupro?
É porque desperto, talvez, algo nos homens... e mulheres que cruzam a minha vida : uma espécie de exaltação do desejo, talvez um entusiasmo, que acaba por descambar para a obsessão, a exasperação, e finalmente a violência, nessa ordem. E o pior (ou melhor) é que fruo um imenso prazer na dor, e isso, acreditem, me confunde e... me deixa perplexa. Serei eu uma masoquista, e portanto vítima de uma patologia? Não sinto assim, propriamente, Creio que tenho em mim todas as dores, todas as necessidades de dor, e de prazer; tenho a convicção da universalidade de cada desejo, de cada fantasia que me assalta, tenho em mim todas as mulheres e... alguns homens. Por quê só alguns? Porque só os mais sensíveis, certamente, embora se possa dizer isso das mulheres, igualmente. Há mulheres que não são sensíveis. As mulheres vulgares, por exemplo. Entretanto devo reconhecer que a vulgaridade, como a entendo, pode ser, à vezes, a máscara defensiva de uma alma tímida.
Entretanto, recentemente tive a contrapartida de uma dor causada pelo inverso, pela isenção, pela delicadeza suprema, que marca a alma de uma outra maneira, indelével.
Dito isso, vou revelar, a vocês meus leitores, o que eu nunca contaria para um confessor, mesmo que eu tivesse um, ou confiasse num padre encerrado num confessionário, e com voto de sigilo. Mas advirto-os de que não estou aqui para diverti-los, como uma escritora, ou uma espécie de “enterteiner”. Não se trata disso. Antes, eu diria, de uma necessidade de usá-los, meus leitores, com sua permissão, para a terapia que pretendo iniciar. Em troca oferecerei, como sempre... beleza. Comecemos, pois:
Recebi, há dias, uma carta de um fã, que afirmava sentir uma afinidade extrema, total, com meus poemas e contos. Esse fã, entretanto dizia em sua carta que queria compartilhar comigo um segredo vital para ele, e que para isso precisava ser recebido por mim, para fazê-lo pessoalmente. Como a carta era extremamente bem escrita e delicada, eu, talvez precipitadamente, resolvi fazê-lo.
No dia e hora combinados pela pequena correspondência que entabulamos, o interfone soou, e anunciado pelo porteiro, meu visitante subiu, enquanto eu o esperava olhando pelo olho mágico, para ter a alternativa, extrema, de não abrir a porta se algo me desagradasse em sua figura. Para isso serve também a correntinha. Podia, por exemplo, pretextar uma gripe, e desculpar-me por não recebê-lo.
A porta de ferro do elevador, entretanto, ao abrir-se revelou a mais graciosa figura que se pode imaginar, um ser maravilhoso, de uma androginia evidente, cativante, com os olhos de um pequeno fauno, mas esguio, flexível, elegante. Abri a porta imediatamente, antes mesmo que tocasse a campainha.
Linus era o seu nome, que imediatamente me remeteu à arcádica invenção da flauta, na Era de Ouro. Recebi-o de braços abertos em meu coração. Na verdade, abracei-o mesmo, bem à entrada, sob o batente da minha porta. Bem vindo, ser de exceção, bem vindo pequeno fauno!
Os lindos olhos cor de mel do meu hóspede (imediatamente pensei em retê-lo como tal) começaram logo a marejar ao nos fitarmos, e mais nos abraçamos. Certamente minha figura também o surpreendeu e agradou. Sentimo-nos “almas gêmeas” desde o começo, e agora eu o reconhecia... por conferir a sua maravilhosa figura.
Linus quis contar-me a sua vida, mas teve dificuldade em expressar-se, pois o nosso olhar nos trazia a esse presente radioso, do nosso encontro. Não havia mais necessidade de narrativas, entre nós.
Sentindo isso, segurávamos nossas mãos, comovidos, em silêncio.



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Linus agora mora comigo, no meu ateliê. Poucas vezes na vida eu me senti tão segura e... tão à vontade com uma companhia masculina. Masculina? Bem... não é bem o caso. Este pequeno fauno, como gosto de chamá-lo, não é propriamente viril, e sua androginia é o que, na verdade me cativou. Um ser delicado, gracioso, na exata fronteira da estética e dos maneirismos dos dois sexos, produzindo um terceiro. Mas não exagerado e caricatural como estamos acostumados a ver por aí. Ele me comove, com a sua elegância sutil, com seus gestos suaves, que combinam com os meus. E, sobretudo com a sua doçura.
Botei-o para dormir na sala, isto é, no ateliê. Mas o cheiro de tinta me preocupa. Todas as noites, acordo de madrugada e venho observá-lo dormindo, acompanhando a sua respiração, suave, contemplando a sua beleza. Cubro-o quase maternalmente... às vezes descubro-o também, nas noites quentes deste verão, para observar seu corpo semi-nu, procurando descobrir o seu segredo. Sim, porque, por alguma razão, ele ainda não me deu essa intimidade, e estou cada vez mais intrigada. Ele é um companheiro maravilhoso para dividirmos o cotidiano, e estou feliz com a minha decisão. Mas, na verdade, há muito mais por trás do instinto que me fez aproximá-lo de mim, de recebê-lo em meu lar, portanto em minha intimidade. Trata-se de uma enorme atração, anímica e física ao mesmo tempo, que pertence a uma espécie de ancestralidade em minha alma, eu desconfio... Será tudo isso um eufemismo para a palavra amor? É bem possível, sim, eu creio que já amo o meu pequeno hóspede, e isso me faz sentir quase plena, feliz. Por quê digo quase? Porque falta algo, que não consegui realizar. Não consegui transpor uma pequena última barreira que ele interpõe entre nós, talvez deliberadamente. Ainda não o vi completamente nu, e à noite, quando o descubro, é isso, claro, o que estou procurando, tentando advinhá-lo sob a apertada cuequinha que ele não tira para dormir. Talvez ele se sinta inseguro...
Passei, já alguns dias, a desnudar-me, casualmente em sua frente, primeiro os seios, para trocar de blusa ou passar um desodorante, depois totalmente, para entrar no banho enquanto prosseguimos com nossas agradáveis conversas. Logo estava eu a andar nua pela casa toda e a pintar, assim , como sempre fiz, quando estou só. Ele parece encarar isso com uma enorme naturalidade, mas tem a maravilhosa delicadeza de ao mesmo tempo não disfarçar a sua admiração, manifestando-a com belos elogios ao meu corpo, à minha beleza.. Talvez um tanto técnicos, pois não percebi ainda a nota de desejo neles, que eu gostaria, no fundo, de encontrar. Linus se tornou um enigma para mim, e isso suscita minha curiosidade, de uma maneira perigosa, pois tende a se tornar uma obsessão.. Porque esse fauninho não se despe igualmente em minha frente, nem para entrar no banho, fazendo-o somente quando já está no box, fechado. E para dormir, então? Costuma ficar longamente sentado ao meu lado na minha cama, freqüentemente estirando-se, nas nossas conversas deliciosas, e então, sonolentos, ele me beija a testa, ou a face, cobre-me maternalmente, desejando-me bons sonhos, e retira-se para o ateliê para deitar-se. Fico então muito tempo insone, imaginando-o despir-se, e planejando a qualquer momento surpreendê-lo com um pretexto qualquer. Mas... se já sei que ele não se despe! Que devo fazer?
Essa curiosidade, unida, é claro, a uma certa frustração, já está produzindo uma pequena dor, fininha , que tende a crescer.

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Sim, deve tratar-se de um jogo. Linus conseguiu, estou apaixonada pelo meu pequeno fauno, e isso, longe de facilitar as coisas, deixou-me mais inibida para uma abordagem explícita. Nossa linda amizade, que, acredito, realmente existe, coloca mais uma barreira à mudança de timbre que pretendo em nossas relações. Por quê será que o fauninho não me deseja, a mim, ninfa que também me sei deliciosa? (perdoem-me a imodéstia).
Estou ficando exasperada, espero não cair na falta de sutileza da irritabilidade, do ciúme, do despeito, tipicamente femininos. Jurei a mim mesma que jamais cobrarei nada dele, que não o pressionarei, que não me atirarei sobre ele. Mas, ah! Isto está difícil. Esta noite, mais uma vez levantei-me e fui descobri-lo, na esperança de surpreendê-lo finalmente nu. Em vão. Julguei vislumbrar em seus lábios, num relance, sob o feixe de luz da minha pequena lanterna, um suave sorriso de Gioconda, um tanto feminino. Mas não estou certa. Meu desejo já está me pregando peças.
Planejo, então, uma maneira de ver o meu pequeno hóspede nuzinho. Ponho todas as suas cuecas para lavar na máquina, alegando que elas estavam encardidas (confesso que as cheirei, e...), que gosto de zelar pelas nossas roupas e programar as lavagens, etc. Ele fica confuso, um pouco perturbado, tanto mais que dou a ele para dormir esta noite um pijama meu, largo, feminino, muito fácil de despir com seus botõezinhos dos lados. E para a manhã, uma calcinha minha, provisória. Ele parece inseguro, desconfiado, mas não tenho certeza. Esta noite eu o pego.

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Sonhando com a incursão noturna que planejo, esperei por ele, na sua volta do trabalho, que, na verdade, nem sei no que consiste. O que ele faz? No que trabalha, ele, o pequeno fauno? Por incrível que pareça, nunca até agora ocorreu-me estas perguntas. Realmente não devo ser uma guria normal. Bem... nunca quis ser.
Linus chegou, surpreendentemente triste. Atirou sua mochila num canto e abraçou-me com lágrimas nos olhos:
—Alma, minha amiga. Minha doce e querida amiga, devo partir. Amanhã cedo devo ir embora, talvez por muito tempo. Não sei quando a verei novamente. Minha família deu-me um ultimato (ele jamais me falara antes de sua família) e preciso enfrentá-los, para me livrar deles. Eles descobriram onde estou morando, e se eu permanecer aqui, vão incomodá-la, Alma. E isso, eu não poderia suportar, minha amiga. Uma intrusão assim... Quero que você se lembre sempre de mim com agrado, pela nossa linda convivência nestes dias inesquecíveis, os mais felizes da minha vida.
Fiquei desesperada. Soltei um gemido, quase um grito. Agarrei sua linda cabeça, olhando bem dentro dos seus olhos amendoados, e exclamei:
—Linus, não me deixa! Eu te amo, não vês? Eu te amo desde a primeira mensagem, desde o primeiro encontro! Eu não posso mais viver sem ti, meu querido, meu amor! (beijei-o sofregamente na boca, pela primeira vez)—. Quero-te, não percebes? Fica comigo... para sempre!
Surpreso, perturbado, Linus recuou com a mão estendida, como se para evitar que eu o tocasse ainda mais, como se lhe doesse, e disse:
—Alma, Alma, não me peça isso, estou sofrendo demais, você não sabe de nada! Eu... também a amo, eu a adoro. Mas Alma... não podemos, não posso explicar. Não posso explicar!
Linus fez um movimento como se quisesse voltar-se para a porta, fugir. Agarrei-o segurando-o firmemente pela camisa. Gritei-lhe:
—Tu não podes, estás entendendo, é entrar assim na minha vida e deixar-me agora, que estou... a teus pés! (escorreguei pelo seu peito, ajoelhando-me, dramaticamente. Aqui não cabia mais vergonha alguma, eu já lhe dera quase tudo, a visão cotidiana da minha nudez, o meu carinho, o meu desejo insatisfeito... o meu amor. Eu não aceitava perdê-lo!) —Linus fomos tão felizes, apesar de nunca... de não nos tocarmos, meu pequeno fauno! Por quê? Por quê, eu não entendo!
Linus, então, os olhos cheios d’água, levantou-me pelos ombros, pegou-me a mão e puxou-me lenta e solenemente, conduzindo-me ao meu quarto. Colocou-se diante da minha cama, e de pé, pôs-se a despir-se diante de mim, pela primeira vez. Eu o olhava deslumbrada. Ele tirou a camisa, depois a calça, atirando-a para o lado, e afinal, enquanto eu o olhava, fascinada, abaixou a calcinha que eu lhe dera, em substituição. E então... eu vi!
Eu estava diante do Hermafrodita perfeito. Afinal!

Uma pequena fantasia de infância

(crônica de Alma Welt )


Quando criança, por volta dos oito anos, tendo presenciado muitas vezes o meu irmãozinho Rôdo fazer xixi, e admirado aquele pintinho que eu dirigia o jato, como uma torneirinha, eu tive uma noite um sonho estranho. Sonhei que dormia sem calcinha, ao contrário do que acontecia por imposição de minha mãe que dizia que devíamos dormir protegidas para não “entrar bichinho na periquita”. Então estando sem calcinha, e de lado, meu irmãozinho entrou sob as minhas cobertas e por trás introduziu seu pintinho e fez um demorado, caprichado xixi dentro de mim. Acordei entre assustada e deliciada, e reparei que estava ensopada, fiquei confusa, sem saber se eu mesma tinha feito xixi na cama ou... Teria Rodo feito aquilo?
Daí por diante, ao contrário do que se poderia prever, eu comecei realmente a dormir sem calcinha e forçava aquele sonho, para que se tornasse recorrente. È claro que já não era sonho, mas uma fantasia que me ajudava a dormir, com um estranho prazer ou conforto, que me aproximava mais ainda de meu irmãozinho. Comecei acalentar essa perspectiva como um “projeto” real a realizar com meu irmãozinho. Em outras palavras: eu quis que meu irmãozinho realizasse aquele maravilhoso e insólito ato, comigo, sua irmãzinha que ele também tanto amava.
E assim, foi que o peguei um dia pela mão e o conduzi até a nossa macieira querida, no pomar e nos desnudamos. Eu conduzi com a mão a torneirinha do meu irmãozinho, que estava convenientemente durinha e comprida, para dentro da minha “xaninha” e pedi que ele fizesse xixi. Ele demorou um pouco, e começou a gemer, a crispar-se, contorcer-se. E relaxou sobre mim, ternamente.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Beleza Negra

01/06/2006

(dos Contos Secretos, de Alma Welt)

Hoje tive a grata surpresa de uma companhia feminina para as férias aqui na nossa estância, que não seja a de qualquer de minhas irmãs, a que estou demasiado acostumada, e simplesmente não me refrescam. Rôdo, meu querido irmão só poderá ficar meia temporada, pois deve partir para a Europa com Laís sua namorada, deixando aqui esta beleza negra a que vou me referir. Trata-se de uma beldade, uma modelo da raça negra, que se tornou amiga de Rôdo, depois de já ter provavelmente passado por seu leito. Júlia, a modelo, ostenta uma beleza perfeita, e um penteado afro, elaborado, que lhe fica estupendo. Além disso, encantou-me sua doçura, temperada por um mistério longínquo, que ecoa as savanas da África, embora ela seja gaúcha como nós, mas de Passo Fundo. Modelo de passarela, ela começa fazer sucesso, e tem tudo para uma bela carreira.

Espanta-me que ela tenha tempo para estas férias de quinze dias, em que aceitou o convite de meu irmão que a carregou para cá, este ambiente tão diferente do seu mundo “fashion”, das passarelas. Ela não estará perdendo um tempo precioso?

Júlia, no entanto, está encantada com a estância, e todo o nosso universo rural, com nosso vinhedo, o pomar, o maravilhoso jardim florido, em frente ao casarão, e os cavalos, nossos belos cavalos selados por Galdério, para cavalgarmos pelas pradarias onduladas pelas coxilhas do nosso pampa infinito em torno, e muito além do parreiral que nos coube plantar. A beleza negra de Júlia parece contrastar de maneira interessante com as nossas cores, a começar pela vinha e depois com a alvura da minha pele logo atraída pela dela. Devo confessar que sendo exótica para mim, para o meu universo, eu temia, a princípio, o contato da pele negra de Júlia, que eu, como que pensava... fria, como a das estátuas de bronze, enquanto ela devia sentir a mesma coisa a respeito da alvura de alabastro da minha, que ela também temia. Tal atração temerosa teria que ser enfrentada, testada, por assim dizer, assumida. À primeira oportunidade, começamos a nos tocar, e a tepidez surpreendente de nossas peles, ao contato, acabou de no seduzir. Logo estávamos a nos abraçar e tocar a qualquer pretexto, num agarramento que não passou despercebido aos outros, meu irmão e irmãs. Ouvi Solange, a maldosa, comentar com Lúcia, a neutra, de passagem: “Olha lá! Lá está ela esfregando-se na nossa hóspede, só para impingir-nos seu contraste. Ou por pura luxúria, mais provavelmente, como é do seu feitio. É insuportável. Se mamãe estivesse viva...”

Não importa, sinto-me cada vez mais atraída por Júlia, e andamos de mãos dadas, como namoradas entorno da casa, passeando no jardim de nossa mãe lindamente florido, e que produziria o mais belo quadro impressionista que não foi pintado, com o nosso branco e preto, claro e escuro em pleno sol dessa manhã primaveril do Pampa. Consciente de nossa beleza, transformamos a estância em nossa passarela, até para deixar minha hóspede mais à vontade, participando do seu universo, em intermináveis conversas sobre moda e beleza fútil, que não costumava ser meu território.

Mas, ah! o toque viciante de sua pele, morna, sedutora ! Eu tinha que prová-la em plenitude, em toda sua extensão, essa é que é a verdade, vocês já me conhecem! Eu só não tivera essa experiência em minha vida, de amorosa deliberada, de “Casanova de saias” como me chamaram uma vez, e que eu, achando interessante, assumi. Sim, como o italiano setecentista, eu, quero completar a marca de mil amores ao longo da minha vida. Mas amores mesmo, pois me sinto apaixonada por cada um deles, para sempre, para levá-los todos comigo, essa multidão, no meu coração e nos meus versos.

Tendo passado a dormir no meu quarto, transferida do de hóspedes, para podermos palrar à noite, antes de dormirmos, como se fôssemos ainda duas gurias adolescentes, em férias, Júlia está mais ao meu alcance do que nunca. Esta noite tomarei coragem de passar ao seu leito, sob qualquer pretexto como uma menina travessa.

Chegado o momento de nos recolhermos aos nossos leitos, após o serão, em que Solange insistiu muito para que Júlia permanecesse no seu quarto de hóspede, alertando-a de que eu era muito “invasiva”, com meu “universo poético literário que não interessava a ninguém”, segundo ela, fez todo o possível para apartar-nos, temendo o que ela pressentia em mim, como “perigoso”, no seu moralismo estéril e burguês. Mas não fizemos caso, Júlia se disse acostumada a dividir o quarto com colegas de passarela, e que estava adorando os nossos papos embora eu fosse uma “intelectual”, segundo ela...

Eu estava excitada e mal me continha, esperando a nossa noite, que eu antevia, antecipando em minha imaginação, embora vagamente receosa de uma possível rejeição. Então, chegou a hora e de irmos para o quarto, de mãos dadas, para ódio impotente de Solange, que não tinha mais argumentos socialmente aproveitáveis, para impedir o que ela pressentia no fundo do seu coração fechado, preconceituoso.

Deitadas nas nossas camas, conversávamos mais um pouco, mas falsamente, eu percebi, pois nossas cabeças e corações não queriam o sono solitário, muito menos nossos corpos assim apartados nos leitos de solteiras, de minha infância solitária em meio as minhas irmãs de sangue. Mas ah! Rôdo meu irmãozinho, que preencheste a lacuna do meu coração, em minha infância e adolescência, quase como um pequeno amante, sim como um amor de minha vida, que carrego ainda na minha pele, que afinal inauguraste, para sempre! Como eu queria que estivesses aqui, nos visses, e até mesmo deitasses entre nós! Seria o paraíso, quase inconcebível em sua plenitude!

Pedi, pois, licença para passar para o leito de Júlia, e sob o mesmo lençol nos aconchegarmos para nossas últimas confidências e mesmo pequenas fofocas do dia, como duas adolescentes, que nos sentíamos.

De mãos dadas, os rostos muito juntos, nossos corações batiam muito forte e aceleraram-se de uma maneira incontrolável. Ofegávamos tentando ainda disfarçar até que começaram os beijos. Sim ela me beijou primeiro, numa iniciativa que me deslumbrou, fazendo-me soltar um gritinho de alegria, que a surpreendeu, fê-la sorrir também, enquanto eu me atirava aos seus lábios e aos seus maravilhosos e tépidos seios de bronze. Arrancamos nossas camisolas e grudamos nossos corpos simultaneamente em todas a sua superfície, enrolando-nos uma na outra, na fome e na sofreguidão ancestral de nossas raças, ultrapassadas as barreiras erguidas pelo medo. Sim, pelo medo do desconhecido, que agora vencido, nos abria as portas de um pampa infinito de prazeres e de amor, que duraria até o fim daquelas férias, estarrecedoras para minhas irmãs, mas inesquecíveis, como um capítulo especial , destacado de meu diário de amorosa impenitente e incorrigível, para maior glória de minha vida de poeta.


01/06/2006

A nova amiga (de Alma Welt)

(Dos Contos Secretos, de Alma Welt)


Minha amiga Vânia me telefona bem cedo convidando-me a encontrá-la num barzinho aqui perto na Oscar Freire para tomarmos um café e botarmos o papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus confidentes leitores.

Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa “casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la:

“Querida Luiza, fui ao encontro do “grande amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que você quiser. Não me espere para o almoço. Pode matar a goiabada com queijo: Romeu e Julieta, é todo seu. Vou ao encontro da alegria. Beijos”
Alma

Duas quadras depois topo com minha amiga na mesinha da calçada mas não sozinha, há uma moça com ela. Estremeço: é linda, estendendo-me a mão à apresentação de Vânia que troca beijinhos comigo, aos gritinhos, como é do seu feitio. Perturbada, esqueço de soltar a mão da moça que no entanto não parece constrangida. Olha-me atentamente, parecendo também fascinada. Não ouvíamos mais o bábáblá de Vânia. Nossos olhos não mais se desgrudariam.

Prima de Vânia, Letícia é o seu nome, parece vir de longe, mas de um outro tempo, de dentro de mim mesma.
Vocês conhecem, leitores, o meu temperamento romântico e minha procura incessante pela felicidade amorosa. Trata-se de uma idiossincrasia, eu reconheço, nestes tempos tão pragmáticos que esperam tudo de uma artista jovem, “contemporânea”, menos isso! Entretanto, tenho cada vez mais a tendência, como vocês já perceberam, de assumir minha alma lírica, “sáfica”, no melhor sentido. Eis porquê cada vez mais exercito minha veia de sonetista, produzindo até mesmo alguns de timbre camoniano, como este:

Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.

Ser pura, secreta e desbragada;
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:

Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.

E assim, da Natureza alegre serva,
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.


E agora estava eu ali, à beira de um novo amor, feliz desde logo, de puro encantamento por uma adorável jovem, reflexo da minha própria beleza, juventude e alegria. Eu já estava novamente vivendo a glória de uma nova paixão, única razão legítima de se viver, o próprio sentido da vida, evanecente embora, segundo a experiência. Uma embriaguez eufórica, que produz frequëntemente, uma espécie de “apagamento", como o alcoólico.

Não sei dizer como nos desvencilhamos de Vânia. Só me lembro de caminharmos um quarteirão de mãos dadas, trêmulas de emoção. Depois a porta aberta do estúdio, com Letícia já atirando o sutiã para cima, numa explosão de peças deixadas pelo caminho, numa verdadeira corrida até o quarto onde nos atiramos uma sobre a outra, no imenso leito.

Nosso encantamento nos conduzia numa longa viagem, que fatalmente iria pela tarde e pela noite até o dia seguinte... pela eternidade.

Eu me esquecera de Luiza, a mãe-preta, que chegou e nos pegou juntas na cama. A pobre negra, uma mulher quase idosa, coitada, teria mesmo que ficar um tanto chocada... Mas a boa mulher recuou rapidamente da porta do quarto, com o meu bilhete na mão. E permaneceu discreta na cozinha, calada, de cabeça baixa. Fui ao seu encontro e encontrei-a assim, com lágrimas nos olhos, tentando limpar a pia. Segurei-a pelos ombros, ergui-lhe o queixo com dois dedos e disse-lhe:

–Luiza, querida, não fica assim. Lembra-te, sou eu, Alma, a tua “guria”, sempre a mesma, que adotaste como tua “filha branca”, não sou? Olha, não é melhor assim, uma bonita garota, pura afinal, do que um belo cafajeste, ou aproveitador, ou ainda um “macho” com o cabresto numa mão e a sela na outra, como diríamos lá no meu pampa? Vamos, vamos, não fica assim. Agora eu te peço, Luiza, toma aqui a tua diária e volta amanhã. Nada temas. Eu estou feliz, não é isso que importa a ti ?

Luiza, olhou-me sem entender. Tocou meu rosto com sua mão áspera de faxineira, e disse:

— Alma, eu não entendo isso. Duas moças... isso é pecado, minha filha! Você assim não casa, não vai ter filhos. Isso não leva a nada, minha filha!

Olhei seu rosto negro, seu cabelo pixaim que começava a ficar grisalho, suspirei e retruquei:

—Luiza, já fui casada, tu sabes disso. Não gostaria de repetir a experiência. Os homens interessantes ou são neuróticos ou são bêbados, é perigoso meter-se com eles. Tu mesma, não foste casada com um bêbado? Que te batia, que te fazia sofrer? Essa garota não baterá em mim e me fará feliz, eu te garanto.

Luiza abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos, tocou novamente meu rosto, e murmurou:

—Que pena... Tão linda... que pena!

Luiza pegou sua bolsa e o dinheiro que lhe estendi, enfiou-o nela, retirou o avental e saiu de cabeça baixa visivelmente deprimida e chocada. Ela nos vira nuas na cama. Teria visto mais que isso?

Voltei para o leito onde Letícia permanecia adormecida. O seu maravilhoso corpo nu, tão entregue, numa bela posição, estética e natural ao mesmo tempo! Uma obra de arte! Sentada ao seu lado contemplei longamente o seu puríssimo rosto de menina. Esse rosto banhara-se de lágrimas de emoção, da pura emoção do nosso encontro, e eu bebera a suas lágrimas como ela as minhas. Estava tudo certo. O amor era lindo, e nós certamente não iríamos para o inferno, pois já estávamos no paraíso.

18/02/2004

O predador

(dos CONTOS SECRETOS, de Alma Welt)

Preparo-me para pintar, ou, como costumo dizer, para atacar uma nova tela. É um momento de grande tensão, e confesso que tenho a tendência a procrastinar, fazendo “cera” por muitos minutos, antes de criar a coragem da primeira pincelada. Afinal, num impulso um tanto vertiginoso, semelhante ao apertar do gatilho numa “roleta russa” (imagino), lanço a primeira mancha, como quem corta as amarras de um navio lançado à aventura. Zarpar!
Quando me volto para a mesa, para buscar mais tinta, o telefone toca. Não sei se isso me causa alívio ou irritação: a sensação é dúbia. Atendo, deparando-me com uma voz máscula, grave, e bonita, que após apresentar-se faz-me elogios, ao mesmo tempo que pede-me para ser recebido num dia próximo, ou de preferência hoje mesmo, num horário de aceitação comum a ambos. Prefiro assim, não suporto expectativas prolongadas, se tenho que receber alguém, que venha logo!
A verdade é que o tal telefonema abalou-me o dia, perturbou-me, no meu propósito de pintar. Mas, afinal, insisto, e acabo por deslanchar depois de um período penoso que me despende o resto da manhã. O quadro lançado, ao parar para observá-lo, pareceu-me ressentir-se desses sentimentos dúbios, dessa dispersão. E da insinuante expectativa com que esse desconhecido me contaminou. Medito uns minutos, sobre essa minha instabilidade, essa fragilidade do meu psiquismo. Ou será do psiquismo humano, em geral? Suspendo afinal o trabalho e vou tomar uma ducha, preparar-me para receber o estranho. Dedico-me a uma longa toillete, com especiais cuidados à minha beleza. Porque faço isso? Esse estranho, o merece? Bem, não importa, não devo pensar assim. É uma questão de princípio. Que é isso Alma, não seja hipócrita! Perscruta teu coração! És uma vaidosa, e amas a corte que te fazem, não importando muito o cortesão. Tens uma vocação de princesa, senão de rainha. Além disso, aquela linda voz máscula continua ressoando em teus ouvidos...
Afinal, estou pronta, toca o interfone, atendo. Depois a sineta oriental de minha porta, e o forasteiro, está diante de mim, maravilhoso. Sim, nada menos que isso, alto belo, maduro, e com um olhar de rapinante, logo abrandado, num esforço de doçura, se posso dizer assim. É essa a impressão que tenho, pertinente ou não. Este homem é um predador, disso estou certa, mas numa espécie de armistício com a presa potencial, a fêmea que sou, tão vulnerável... essa é que é a verdade!
Armando, esse o seu nome, se diz um admirador entusiasmado das minhas obras, que vem acompanhando nas galerias, desde a minha primeira exposição. Sentado em minha frente, com uma postura que me parece especialmente elegante, faz um discretíssimo charme de olhar. “Este homem sabe até sentar-se”, penso, sorrindo, por dentro, do meu próprio pensamento. Devo estar traindo-me pelo olhar, espelho de minha alma cândida, desejosa, inocente. Sim sou inocente, não carrego a culpa do meu enorme desejo do ser humano, da beleza, e da força graciosa! Sou mulher, com um orgulho ancestral... imemorial, tenho em mim uma rainha, sim, tenho certeza. Este homem me terá, se quiser. Notem que eu não digo “se eu quiser”...Serei resposta, não questão. Meio reino é aquele da receptividade, do aconchego, do “repouso do guerreiro”. Abro meus braços para o predador, que precisa descansar, pois não veio com o apetite da batalha, mas cansado, enternecido, lavar-se de tanto sangue, tanta guerra.
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A bela cabeça de Armando, repousa em meu seio. Sua respiração silenciosa, plácida, titila com uma leve brisa a auréola rosada que ele tanto beijou. Meus bicos, assim bafejados, continuam ligeiramente tesos, e eu me enterneço por nós, pelas nossas belezas, tão complementares. Trago em mim ainda o seu sumo, e queria guardá-lo para sempre. Este homem é agora o meu amor, e quando acordar, vou chamá-lo, com orgulho : “meu senhor”. Dormistes bem, monseigneur? Como o faziam as cortezãs de França ou mesmo suas rainhas. Vou entregar-me uma vez mais a ele, pois que os guerreiros acordam sempre com a lança em riste (dou uma pequena gargalhada, que procuro abafar com a mão, para não perturbar seu sono). Afinal, com o braço adormecido, preciso mudar de posição, e meu movimento, por mais cuidadoso...o acorda.
Ele abre os olhos lentamente, estranhando tudo, olhando-me como se não estivesse por um momento atinando com o lugar, a pessoa... a mulher. Um ligeiro aperto em meu coração antes dele afinal sorrir... e beijar-me. Então, olha embaixo do lençol, confere (os homens tem um secreto medo, eu sei) e tendo encontrado sua lança, tesa, fará mais uma vez uso dela, como eu previa. Ele vira-se sobre mim e me engolfa.
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O guerreiro deixou-me após o nosso banho vaporoso, que cobriu com uma suave bruma todo o meu espaço, fazendo-o partir como um cavaleiro na neblina da manhã, após beijos e mais beijos, que deixaram meus lábios dormentes de memória.
E ponho-me a girar no ateliê, a cantarolar, em minha alegria, a canção que brota do meu coração tocado pelo predador...que respeitou o ninho de seu descanso. Que ofereceu-me sua suavidade, sua força em repouso, fazendo doce a sua lança. E brando, muito mais brando, o seu olhar!

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31/08/2004

terça-feira, 25 de março de 2008

Sedução

(dos Contos Secretos, de Alma Welt)

Não há nada mais misterioso, nas relações humanas, do que o processo de sedução. A pura atração exercida por alguém, homem ou mulher, nem sempre de maneira imediata, mas gradativa, insinuante, insidiosa. O que faz com que alguém fique, assim, fascinado, envolvido, hipnotizado? Trata-se da beleza, esse misterioso atributo, indefinível? Nem sempre. Não há maior mistério para o ser humano, que o próprio ser humano.

Não. Trata-se, talvez da inteligência. Sim, porque a própria beleza já foi uma vez definida por um arguto jornalista, como “um pacote de inteligência física”. A beleza seria então, a inteligência suprema dos seres e... das coisas.

Ana Júlia entrou em minha casa com ótimas recomendações e uma advertência a mim, por parte de uma amiga do sul. Uma mulata clara, graciosa, mignon, de pele brilhante e cabelo de ondas miúdas. E seus lábios? Cheios, perfeitos, feitos para o beijo. Olhos amendoados, típicos de sua mestiçagem. Quanto à advertência de minha amiga? Que eu tomasse cuidado, pois a mulatinha era sedutora.

Não tenho marido e nem sequer namorado ou namorada, no momento, eu argumentei, fingindo-me de desentendida. Não, não, disse minha amiga, cuide-se. Ela seduz, quem estiver por perto, convivendo com ela, no cotidiano.

Eu queria pagar para ver. Se essa moça tinha esse dom, então era mais preciosa ainda, já que as referências quanto às suas outras competências eram satisfatórias, elogiosas mesmo.

Ana Júlia instalou-se no quartinho de empregada, do meu atelìê- apartamento, e estava encarregada da cozinha e da faxina. Eu cansara de cozinhar para mim mesma, e de comer em restaurante, que interrompia o meu trabalho, cortava o meu dia. Seu tempero era ótimo, dizia a minha amiga, pois era mineira, a mulatinha.

Começamos a conviver no espaço exíguo, limitado, do apartamento. Duas mulheres bonitas, vindas de origens muito diversas, de culturas muito diferentes. Mas a verdade é que, logo de saída, Ana Júlia é que parecia fascinada pela excessiva brancura da minha pele e pelo dourado do meu cabelo. Um dia, dando um suspiro, enquanto eu pintava, passou a mão, por trás, no meu cabelo, dizendo:

—Dona Alma, que bonito é o seu cabelo, desculpe-me “tocar ele”. Não resisti. É de ouro?

Virei-me para ela, e encontrei a absoluta ingenuidade e honestidade daquela pergunta, em seus olhos. Quero dizer: fiquei encantada. Essa moça se expressara, mais ou menos, assim... como diria? Como uma índia, talvez. Ao reparar nos seus olhos, percebi a absoluta beleza daquela alma. Clara, límpida, infantil. Por quê então minha amiga tinha me alertado sobre o seu poder... de sedução? Não é a sedução algo associado ao caviloso, subterrâneo, perigoso?

—Ana Júlia—eu disse—fala-me um pouco de ti. De onde vieste, quem são os teus pais. Onde nasceste?

—Ah! Dona Alma, vim de uma cidadezinha à toa. Quem sou eu? Não perca tempo, não, com a minha vidinha. Eu não sei nada, dona Alma, a senhora sim, é uma princesa, deve ter vindo de um alto reino. E o jeito que a senhora fala, dona Alma, nunca vi igual!

Olhei-a novamente, com atenção, e ela me pareceu mais bela ainda, enxugando as mãos no seu avental, enquanto falava, parada em minha frente no meio do ateliê. Passei a mão no seu rosto, num gesto de carinho que me surgiu naturalmente.

Ela então, segurou a minha mão, ou melhor, capturou-a com a sua, enquanto ainda tocava a sua face e, virando-a, beijou-me a palma. E saiu correndo para a cozinha.

Eu começava a entender o que a minha amiga queria dizer, com aquilo...

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A convivência com a minha empregada, era a cada dia mais prazerosa e encantadora. Ela era uma excelente cozinheira e seu tempero era mesmo soberbo. Assim, o seu comportamento inusitado, para uma empregada, não chegava a comprometer a parte estritamente profissional. Eu é que às vezes interrompia o seu trabalho, para conversar com ela, e fruir os encantos de sua personalidade cândida, inocente, e de tão sedutora reverência à minha pessoa. Sim, comecei a perceber, que nisto estava a chave da sedução que minha amiga lhe atribuía. Ser cortejada por um ser tão honesto assim, constituía algo, no mínimo, lisonjeiro. Ela me olhava com um encantamento que parecia superar o meu. Poderia isto transformar-se numa mútua paixão, apesar do abismo cultural e social entre nós? Ela dizia:

—Dona Alma, eu ficaria horas só vendo a senhora pintar. E adoraria saber o que é que a senhora tanto escreve. Ouvi dizer que a senhora é poeta. Eu nunca vi uma mulher poeta antes, e queria saber como são os seus versos, o que é que a senhora fala neles. É de amor que a senhora fala? Ah! A senhora deve amar muito, mas deve ser mais amada ainda, embora eu nunca tenha visto um namorado seu, por aqui. Mas eu vejo o jeito que as pessoas que vêm aqui comprar seus quadros, olham para a senhora. A senhora não tem um namorado? Desculpe eu perguntar.

Eu olhava bem nos seus olhos límpidos, e afagava-lhe o rosto. Começava a ter vontade de beijá-la.

Comecei a ter sonhos com ela, não propriamente eróticos, mas enigmáticos, que evocavam alguma coisa referente às nossas conversas. As imagens começaram a se intensificar à noite, nos meus sonhos, e invadiam meus devaneios, de dia. Sim, eu fora seduzida.

Mas, então a sedução é isso? Nosso reflexo no olhar cristalino de outro ser, espelho narcísico, ideal? Apaixonamo-nos pela nossa própria imagem cristalizada, purificada na retina reverente da paixão alheia? Eu estava apaixonada por Ana Júlia, ou por sua adoração por mim? É difícil para mim saber, até hoje.

Então num fim de tarde, no fim do seu expediente de trabalho, depois de uma pausa encantadora que tivéramos, tomando um café juntas, Ana Júlia comunicou-me que seu chuveiro estava com problemas, no seu banheirinho, e ela teria que ir para cama sem se banhar. Eu protestei imediatamente e ofereci-lhe meu banheiro. Fiz mais, disse que ia premiá-la pelos seu dedicado e eficiente trabalho, e que iria preparar-lhe um banho na minha banheira. Por sua vez, ela, deslumbrada, quis declinar da minha oferenda. Mas eu insisti, e fui conduzindo-a para o meu banheiro, jocosamente despindo-a aos poucos no caminho. Ela ria, pondo a mão na boca, envergonhada e feliz. Ali naquele belo e amplo recinto, mantido sempre limpíssimo e brilhante por ela mesma, eu acabei de despi-la. Ela, emocionada, tremia ao ver-se desnudada por sua patroa. Quis ainda uma vez protestar, mas calou-se e entregou-se diante do meu simples gesto de tocar os seus lábios levemente com meus dedos e um leve schhhhhhh, dos meus lábios. Trêmula, ela deixou-se tocar por minhas mãos que a conduziram, e instaram a entrar na banheira que eu já deixara previamente enchendo de água quente. Seu lindo corpo moreno, um pouco judiado, contrastava com aquela banheira alvíssima, e ela sentou-se lentamente, talvez estranhando um pouco a temperatura da água, com um gritinho de medo. Ela nunca entrara numa banheira em sua vida, ela me confessou.

E eu comecei a banhá-la, lentamente, acariciando sua pele com minhas mãos finas, que as tintas e os solventes não logravam tornar ásperas. Com a ajuda de uma esponja, eu a banhava de verdade, com o meu mais perfumado sabonete, e... a acariciava,longamente... amorosamente.

Ela se entregava em minhas mãos, nas mãos de sua patroa seduzida, enquanto suas lágrimas corriam, desciam e juntavam-se às minhas, enternecidas, naquela água espumosa e perfumada, onde eu, igualmente nua, iria em breve me juntar a ela.

18/05/2006

Manchas no leito

(dos Contos Secretos de Alma Welt)


Luíza, minha “mãe-preta” mineira que se tornou das mais gratas aquisições de minha experiência paulistana, minha diarista, idosa, querida, toma ares vigilantes sobre mim de uma maneira enternecedora pois atesta a sua afeição, o seu carinho. Ela examina com a atenção as manchas no meu lençol e parece saber distinguir a passagem de homens ou mulheres por ali. Sim, pois minha vida amorosa, sexual mesmo (vamos usar as palavras sem falsos pudores), lhe parece promíscua apesar dela não conhecer propriamente esta palavra. Luiza se escandaliza em silêncio.

Ontem à noite, estando menstruada mantive relações com meu namorado, o que fez uma tremenda sujeira em meus lençóis que não tive tempo de jogar na máquina de lavar antes dela chegar. Um verdadeiro mapa sanguinolento que plasmou todos os nossos movimentos e fantasias de uma maneira escabrosa para o olhar da minha faxineira e... camareira. Ao lembrar da minha magnífica noite, por uma associação de pensamentos, de ordem literária recordei o fato de que entre os judeus, por exemplo, a mulher menstruada é considerada “impura” e rejeitada durante esse período por seu marido ou amante. Por quê, diabos, o sangue da mulher deveria ser impuro? Há homens que se atraem especialmente por esse sangue ou esse período, tanto mais que ele significa segurança contra uma fecundação indesejada, embora nas últimas décadas, dado histórico novo, devemos nos preocupar com a AIDS, é claro. Mas vocês, meus leitores, sabem como é difícil precaver-se quando se está apaixonada. Queremos nos confundir, fundir mesmo, com o nosso amante, e nisso consiste o perigo. A troca de fluidos, volúpia suprema dos amantes, passou a ser quase proibitiva, o que torna nossa época no mínimo trágica, ao meu ver. Não podemos nos esquecer, por outro lado, de que essa tragédia da nossa época já assentava num dado mais escabroso ainda: a existência da bomba atômica, espada de Damocles sobre a cabeça da humanidade inteira.

Mas não era minha intenção filosofar, ao iniciar esta narrativa. Tenho o mau costume de divagar. Retomo pois o fio da meada: as manchas no leito.

Durante uma semana sujei os meus lençóis de maneira renitente, viciosa. Eu não podia deter o processo mesmo sabendo o quanto isso escandalizava minha boa faxineira que me olhava com um olhar severo. Um dia, ela, não agüentando mais, disse:

—Alma, minha filha, você suja muito os lençóis! Compre um absorvente, minha filha, e evite namorar por enquanto, me desculpe dizer isso, mas você não acha que é muita sujeira e que seu namorado vai acabar se enojando e desrespeitando você?

Por um momento tive vergonha e empalideci. A ponderação de Luiza tinha sua base racional e talvez mesmo cultural. Não sei como os negros se comportam nesse período mas me pareceu que a restrição de Luiza tinha uma razão higiênica e prática. Eu “sujava” muito os lençóis. Mas porque razão eu nunca senti o sangue humano como sujeira? O meu próprio sangue me enternecia, narcisista que sou, consciente demais de minha própria beleza que me faz, por isso mesmo, cultuar a matéria que para mim é um reflexo maravilhoso do espírito. A carne, o corpo humano, já foi comparado metaforicamente a um templo da alma. Essa metáfora me parece boa e procedente. Quem vê corpo vê espírito. Quem vê cara, então... Nosso coração transparece nos olhos e os meus me comovem.

Assim, pedi desculpas a Luiza mas disse-lhe que eu mesma lavaria meus lençóis na máquina e que preferia não tocar mais naquele assunto para faze-lo retornar à minha intimidade. Parece que a boa mulher não entendeu muito a minha resposta. Mas eu a abracei e dei-lhe um beijo no rosto por puro carinho ao mesmo tempo que para mostrar-lhe que eu não me magoara com suas bem intencionadas palavras.

Então, as manchas nos lençóis começaram a se diversificar em suas cores apresentando algumas amarronzadas. Luiza não se agüentou, novamente, e uma manhã confrontou-me:

—Alma, o que é isso agora? (ela me mostrava um traço marrom no lençol, que ela esticava em sua mão)—Você, minha filha , não toma jeito, não é? (ela deu uma risadinha que abrandou a censura). — Eu sei o que é isso. Meu marido tinha essa mania, por isso dei graças a Deus quando ele foi embora com outra. Eu já não podia nem sentar –(demos uma grande gargalhada, juntas).

—Luiza, querida (eu dizia, abraçando-a em meio às gargalhadas), você também? Não podia nem sentar!

Abraçada à minha querida mãe-preta eu tinha lágrimas nos olhos de tanto rir e... também de enternecimento por essa pobre mulher cujo abismo cultural e social fora transposto numa fração de segundo entre nós com o desvelar de um pequeno segredo picaresco, comum, revelado afinal pelas manchas denunciadoras nos meus indiscretos lençóis.

12/05/2006